terça-feira, 1 de setembro de 2009

Poema de Agosto

O oco continua ecoando
Preenchendo o buraco interior do corpo
Mais uma tarde inane de agosto

O sol continua batendo na janela
E ainda nem conhecemos o dia
Mais uma tarde desperdiçada de agosto

A música continua tocando no rádio
Mas ninguém parece escutar
Mais uma tarde surda de agosto

A mesa continua cheia de papéis
O trabalho continua sem sentido
A gente continua se sentindo
Um tanto - completamente - fora do lugar
Mais uma tarde angustiada de agosto

A gente continua sem vontade
(sem parar) Continua
Mais uma tarde repetitiva de agosto

A cadeira ao lado continua vazia...

Mais uma tarde solitária de agosto

O coração continua batendo, cansado
Mas não a ponto de parar
E a gente vai levando...
Mais uma tarde enfadonha de agosto

Um torpor profundo continua devastando o ser
Pesando os membros
Fazendo cair as pálpebras
Sufocando os pulmões
Mas a gente continua respirando

O eco continua soando oco no espaço...

Tum-tum. Tum-tum. Tum-tum.

Mais um coração batendo errante, procurando sentido
Em mais uma tarde perdida de agosto

Continuamos presos antes do primeiro passo
enquanto o tempo passa
Deixo de sentir o gosto do que gosto
Não passo de ser vil
para servir
Mais uma tarde de agosto que não passa...
Desperdiço um tempo que não sobra para aprender
Não sei nem se quer de mim
Sei apenas que Agosto
não gosta de partir.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009



"Eu 'acho' que tenho certeza daquilo que eu quero agora, daquilo que mando embora, daquilo que me demora."

(Criado mudo, O teatro mágico)


Não existe verdade, o que existe são pontos de vista. Devo concluir, então, que a dúvida é mais sensata do que a certeza. Ainda assim, dúvida e certeza disputam um lugar no âmago do encontro.


Ei, você, vem conversar comigo?
Venha. Mas venha inteiro.
Não traga apenas corpo, traga alma.
Traga palavra.
Palavra é espelho.
E se a palavra cala, não se preocupe, a falta também fala.
Silêncio é espelho.
Se me permitir, posso ver através de você
Com olhos transcendentais,
enxergo o que está por trás de sua pele rígida,
endurecida pela dor.
Enquanto olho-te nos olhos,
uma linha invisível que sai dos meus
forma, contigo, uma metafísica e incontestável intersecção
Encontro a mim no mesmo instante que encontro a ti,
em algum ponto do espelho entre e em nós.
Assim, me constituo no espaço entre o eu e o outro
Espaço que a palavra abriu para nós
Sou aquilo que me diz
Diferente, todavia, daquilo que escuto,
Portanto novo.
E aquilo que não diz,
Cala.
Mas ainda sou capaz de ouvir com outros olhos
Meus olhos transcendentais.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Lembranças Póstumas

Baseada no filme "Sete Vidas"


"Viver intensamente envolve, inclusive, viver a dor."



Sim. Sinto-me culpado, mas não é por isso que faço o que faço. A culpa por si só não justificaria. Faço isso pra viver, pois sei que depois de fazê-lo não haverá mais vida, não para mim.
Não quero, de maneira alguma, ser um mártir, quero apenas devolver aquilo que roubei.
Só assim poderei ser quem sou em plenitude. Desde que ela se foi não tenho sido senão um vegetal.
Não quero, de maneira alguma, ser um bom samaritano, um super herói, quero apenas suportar os dias sabendo que não cruzei os braços, ou simplesmente ignorei como a maioria.
Só assim poderei alcançar a morte com alguma dignidade, não me considerando um inválido, ou pior, um ingrato, alguém que foi agraciado com uma alma, ar, água e luz e nada ofereceu em troca.
Juro, não é apenas a culpa que me move a fazer o que faço, não quero me redimir de nada, afinal não há o que possa libertar-me de meu pecado.
Não faço isso esperando que meus atos sejam redentores, ao contrário, aceito minha pena. Todos os dias agradeço por estar sendo punido da maneira mais severa, a falta dela me mata em vida, mas eu mereço, afinal.
Quero que quando chegue a hora de partir eu não leve nada, pois não tenho nada. O que tenho não é meu.
Não quero nem sequer morrer com a consciência tranqüila, pois isso já não tenho desde que aquele acidente mudou a minha vida.
Eu fui o único sobrevivente, mas em breve as coisas irão mudar. Poderei dar vida a outras pessoas, não ligo se para isso tiver de abrir mão da minha própria, aliás, este é o plano, devolver o que não é meu.
Sete vidas desperdiçadas. Sete pessoas mortas por conta da minha imprudência, da minha ganância.
Eu que achava que tinha a vida perfeita, o emprego dos sonhos, hoje sou assombrado pelos fantasmas das sete pessoas que foram roubadas por mim, não é justo que elas tenham morrido e eu continue aqui. Mas estou, e não suportarei fechar os olhos e continuar ignorando.


Foi assim que abandonei uma carreira estável e promissora, assumi uma identidade falsa e ajudei as pessoas, mas apenas aquelas que realmente mereciam, as almas boas, dignas, corretas e que tinham esperança na vida.
Dei tudo o que tinha: bens, tempo, afeto, sangue, órgãos... queria sentir a dor que eles sentiam. Doei medula sem anestesia, pensei sobre a morte como uma presença iminente e íntima, tal como ela é para um paciente terminal.
Quase perdi, pela segunda vez, um grande amor. Assim, chegou a minha hora, salvei a mulher que amava.
A morte não é tão ruim quando ela vem para trazer vida, meu coração continuou batendo depois que parti. No peito do meu grande amor, eu estava vivo. Vivo como nunca.

domingo, 12 de julho de 2009

Milionário versus Benjamin Button


Depois de meses ensaiando, finalmente assisti ao ganhador do Oscar deste ano. Estava ansiosa para vê-lo, mas a oportunidade não vinha.
Antes da premiação, tinha a idéia de assistir aos indicados a fim de obter parâmetros para fazer minha própria avaliação. Como nos outros anos, a idéia não se concretizou e acabei por ver apenas o “Curioso Caso de Benjamin Button”, filme que não apenas despertou uma profunda admiração, como conquistou o topo da minha lista de favoritos. Indubitavelmente, uma obra prima do cinema americano da última década.
Foi impossível esconder a decepção quando a estatueta não veio. Controlei a indignação até que pudesse tirar conclusões menos injustas. Enfim a oportunidade chegou.
Bem, vamos então ao ganhador: Slumdog millionaire (Reino Unido/Índia, 2008) se trata de um projeto revolucionário que foge aos padrões hollywoodianos, não apenas pelo baixo orçamento e por ter sido rodado muito longe das fronteiras americanas, mas sobretudo, pela roupagem. O que, em minha opinião, foi o grande acerto do filme. Inovador e, pelas próprias condições, surpreendente.
Algumas tomadas, logo no início, me lembraram um estilo muito explorado pelo cinema nacional, a cena dos garotos correndo pelas vielas da favela, filmadas quase sempre de frente ou de cima, com cortes secos e uma maior velocidade na mudança de ângulos, compele dinamismo e ação à cena e causa uma sensação de impaciência e aflição aos expectadores. A estética documental e veloz remetem ao filme "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, a diferença se observa numa fotografia mais trabalhada, que torna as imagens menos cruas e mais suaves, causando a impressão de um sutil desbotamento responsável pela instauração de uma atmosfera poético-moderna nas cenas.
Mas o que de fato teria feito de “Quem quer ser um milionário” merecedor da estatueta de melhor filme? A principal razão talvez tenha sido o fato de que a produção, valendo-se de um argumento tão pífio quanto um programa televisivo de entretenimento de massa, o transformou numa história de valor digna de ser não apenas assistida, mas admirada.
Não fosse pela brilhante maneira com que a história foi contada, ela estaria condenada à mediocridade, aliás, se pensarmos em termos do enredo em si, e desconsiderarmos a proeza artística de Danny Boyle, podemos dizer que a história do garoto pobre, porém bondoso e perseverante e da mocinha sofredora e submissa, não caracteriza nenhuma inovação no cinema, muito pelo contrário, trata-se de uma repetição desgastada. A própria “história de amor impossível”, chapada, sem nenhum diferencial das outras tantas espalhadas por aí, teria sido capaz de tornar o filme um fiasco, caso ele se resumisse a isso, o que não ocorre.
Bonito e interessante, “Quem quer ser um milionário” revela o verdadeiro princípio do saber humano, deixando claro que o aprendizado nada tem a ver com o simples preenchimento de uma vaga na escola, ou com as oportunidades proporcionadas pelo dinheiro, mas com as experiências e o sentimento experimentado em cada situação vivida.
Há muito mais pra se falar sobre o filme, a montagem, a direção de som, a edição, são alguns de seus destaques, contudo, inicialmente esta crítica tinha outra intenção.
Se fosse eu a julgar, Benjamin Button teria levado o prêmio, sobretudo porque como já disse, para mim se trata de um filme completo.
“Benjamin” possui um bom argumento, um roteiro bem lapidado, ademais de a direção ter acertado em cheio, boas atuações e uma direção de arte formidável tornaram o filme profundo, além de comovente. Um filme que nos inspira e que a cada vez que se assiste, percebe-se algo novo acerca da condição e das relações humanas. Ao contrário de “Milionário”, não tem um final feliz, mas sim melancólico, justamente porque se aproxima mais da realidade, ao mesmo tempo em que se distancia pelo fantástico da obra. Só mais uma diferença: Benjamin Button não é um filme burguês disfarçado de plebeu.
De um lado, uma produção quase que independente, contando com um orçamento mínimo, gravado na Índia e com um elenco desprovido de atores consagrados, porém com uma história movida pela ideologia capitalista.
De outro, um filme tipicamente hollywoodiano, produzido com um orçamento generoso, roteirizado e dirigido por grandes nomes e protagonizado por Brad Pitt e Cate Blanchett.
É fato que este ano a academia surpreendeu (mas nem tanto). Também o é, que eu própria esteja surpresa por ter preferido o segundo, geralmente a simplicidade artística condiz mais com o meu estilo. Mas dessa vez, caro leitor, fico com a legitimidade.
Enfim, lanço a seguinte questão: a avaliação que define o “melhor filme” não deve levar em consideração o conjunto da obra? Pois bem, pelo conjunto da obra “Milionário” deixou a desejar, contudo vale assistir uma segunda vez, afinal bons filmes se renovam a cada sessão.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

O Eu ideal



Ele estava exausto, mas tinha certeza de que se conseguisse dormir jamais teria um sono tranqüilo.
Então voltou pra casa com a cabeça a mil, antecipando a noite que passaria às claras, tentando descobrir onde errou, ou pior, não aceitando o erro.
Não sabia se o cansaço era proveniente da insônia ou a insônia do cansaço, a verdade era que ele não sabia mais, estava desarmado diante si mesmo.
O problema não era a nota "baixa", que seria a responsável por essa noite mal dormida, o problema eram as outras noites.
Enfim a cabeça pesada, pulsando de frustração, despencou sobre o travesseiro, e o corpo rígido, virava de um lado para o outro na cama, sem encontrar posição.
Não queria mais pensar, mas o "não querer" o fazia pensar ainda mais.
Aos poucos se dava conta de algumas coisas que faziam outras tantas ficarem ainda mais privadas de compreensão, ele havia se resumido a isso: caos.
Estava difícil controlar as idéias que pulsavam incessante e repetidamente em sua cabeça. Não ter o dez, não ter namorada, não ter um carro, não ter, simplesmente não ter. Pela equivalência neurótica, lembrava das aulas sobre psicanálise, não ter é não ser.
Estava claro como nunca que, apesar de não saber quando nem como, ele havia se tornado um obsessivo sufocado por um severo sentimento de inferioridade do qual tentava desesperadamente se defender, a cada ato.
O cabelo impecável, a compulsão por sapatos, a preocupação descomedida com as roupas que jurava não ter, as horas de estudo, os gastos irrefreados com presentes, a necessidade aflita de agradar, as incansáveis revisões de tarefas, a fixação pelo reconhecimento.
Você é um lixo – uma voz lá dentro dizia - Você está todo corrompido, estragado. Disfarce o estrago antes que os outros percebam.
E quanto mais tentava disfarçar, mais temia ser descoberto. Inútil.
De fato, essa noite ele não dormiria.
E nas outras também não, não enquanto as retóricas que ecoavam dentro de si (e que insistia em projetar) permanecessem sem resposta. Mas o problema é que retóricas não buscam respostas.
“A quem se dirige a pergunta?”
A quem quer que seja capaz de não tentar respondê-la. Como não saber incomoda, frustra, continuo buscando saber mesmo sabendo que jamais saberei. Saber é ter e ter é ser. Assim, a falta é o que impulsiona a vida.
E volto à primeira pessoa, afinal a essas alturas você já deve ter percebido o óbvio: o rapaz sou eu, apesar de, “paradoxalmente”, ser uma garota.
O motivo pelo qual tenho me colocado numa posicão masculina já não é mais uma incógnita pra mim, pelo menos em termos. Mas como eu havia dito, as conclusões são capazes de dar margens à tantas outras dúvidas, das quais grande parte permanecerá em caráter de dúvida.


E, mesmo depois de tanto esforço, o dez não veio. Mas por que mesmo eu precisava dele?
Para provar o quanto eu sou boa?
Provar pra quem?

terça-feira, 23 de junho de 2009

A Palavra Falta

"Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos
quando querem exprimir qualquer realidade.
Mas como a realidade pensada não é a dita mas a pensada,
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
Assim, tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença."


Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Quem somos nós?



Até onde vai o poder humano? Qual é o limite entre o controle e descontrole?

Por uma questão de necessidade, diariamente, milhares de pessoas ao redor do mundo acabam por confiar suas vidas à especialidade de outros seres humanos, subjugando uma série de fatores sobre os quais nenhuma ação de nossa natureza é capaz de prever ou dominar.
Mais de 250 pessoas estavam a bordo do avião cuja rota de mais de dez horas era percorrida em grande parte num sobrevôo ao oceano Atlântico.
De fato, no que concerne ao transporte de pessoas a longas distâncias, o avião é nossa melhor ferramenta. “Mais seguro que o elevador!”. Quem sou eu pra discordar? Enfim, a questão aqui é outra. Apesar da consciência, que muitas vezes se comprova em dados, de nossa imperfeição e das falhas de nossas criações, demonstramos uma tendência à ascensão indiscriminada da prepotência que nos é inerente. Confiamos inadvertidamente em nossos produtos, em nossa ciência, desprezando o fato de que o humano e todos os seus derivados estão submetidos à operação de diversas forças que definitivamente vão muito além do que permite nossas competências compreender e controlar, ainda que co-existamos com a nossa própria ilusão de domínio das circunstâncias.
Assim, por não termos outra opção, deixamos que vidas simplesmente desapareçam pelos ares, o equívoco é justamente o oposto: acreditar que temos como dar conta disso. Não há responsabilidade pelo acidente, afinal, em acidentes não existem responsáveis. Solução não há, pelo menos não há uma que esteja ao nosso alcance.
O que é, de fato, necessidade primeira é que aceitemos o inaceitável, o impensável: há coisas (e não são poucas) que simplesmente não cabe a nós compreender, explicar e acima de tudo prover.
É assustador que uma dessas coisas seja a nossa própria existência.
Não é fácil admitir, mas todos estamos entregues à sorte, ao acaso, ao destino ou, chame você do que quiser. Na verdade o nome que se dá é o que menos importa.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Oitenta e poucos


Naquela manhã o sol invadiu o quarto com uma luminosidade maior do que em qualquer outra manhã de Janeiro. Deitada na pequena cama de solteiro com lençóis e fronhas brancas, a velha senhora se virou com dificuldade, abrindo os olhos que mal conseguiam enxergar a essa altura de sua vida. O quarto era desconhecido e a senhora sentiu-se um pouco assustada, com movimentos muito lentos e pouco articulados, ela procurou se levantar, calçando os chinelos de pano e dirigindo-se à penteadeira de mogno à esquerda da porta. Com mais passos do que o necessário, ela atingiu o beiral da plataforma, onde havia alguns frascos de colônias e hidratantes, apoiando as mãos enrugadas nela. No espelho oval surgia, receoso, um rosto que nem com algum esforço ela conseguiu reconhecer. Um rosto flácido, marcado com várias manchas escuras, manchas de muitos anos de agressão do sol. Com as mãos trêmulas, a velha toca o espelho gélido, ainda sem se dar conta. Em seguida toca o próprio rosto. A textura gelatinosa da pele sob suas mãos finalmente a traz para realidade e, enfim, ela conclui que o rosto no espelho é o seu próprio. Ela continuava ali, imóvel mesmo depois de vários minutos, parecia não entender como nem quando havia se tornado aquela figura refletida no espelho. Também não fazia idéia de onde estava, de que quarto era aquele. Pensou em abrir a porta, mas teve medo do que poderia encontrar lá fora. Deu um passo em direção ao grande pedaço de madeira pintado de cinza, mas hesitou e antes que pudesse se mover mais um milímetro a porta se abriu. Um homem alto, grisalho, de uns quarenta e poucos, talvez cinquenta anos, atravessou o batente. Pavor. O que este desconhecido estaria fazendo em seu quarto? A velha inspirou com força a maior quantidade de ar que pôde para formar o grito mais alto que conseguiria. Ela gritou, gritou, gritou desesperadamente, se não podia correr, talvez alguém a salvasse. O homem, ouvindo a velha gritar aproximou-se, e mesmo vendo-a recuar a abraçou no intuito de acalmá-la, inutilmente. Ela gritava cada vez mais. "Calma mãe, sou eu o Chico. Vim lhe trazer o café da manhã, também trouxe flores, afinal hoje é um dia especial. Feliz aniversário, mãe!" Ela parou por um instante enquanto ele falava, fixou os olhos na expressão assustada do homem, o encarou por alguns segundos e depois recomeçou a gritaria. Ele então, percebendo que sua presença não era bem vinda, colocou o buquê de rosas vermelhas (as preferidas da mãe) sobre a cama e deixou o quarto, desconcertado, esbarrando nas pessoas que vinham umas atrás das outras ver o que estava acontecendo. A velha permanecia parada numa espécie de estado de choque, mas subitamente um tufão de pensamentos desconexos surgiam em sua cabeça: Uma garota loira desengonçada, um jovem rapaz, uma moça vestida de noiva, uma sala cheia de diplomas, livros, uma sala ampla clara como aquele quarto de asilo, risadas, um berço e um bebê. Um bebê chamado Francisco. Uma lágrima escorreu pelo rosto da velha ao lembrar do dia em que batizou o seu primeiro filho.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

O que queres que eu seja?





... e a resposta nunca vem.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

A questão é...



Os opostos se atraem, distraem ou se completam?

(Em verdade buscávamos algo que tapasse o buraco.)
Imaginei o outro tão diferente que era oposto, e apaixonei-me por ele antes mesmo de conhecê-lo, quando nem ao menos conhecia a mim mesmo.
Fui, então, percebendo-me um tanto menos oposto, quase igual. O outro era espelho.
Se era espelho não era oposto, ou era? O espelho apenas faz o igual (a)parecer ao contrário.
Não tapou.
Complementa. Mas o complemento não é completo é apenas complemento.
E não completa, embora a gente pense e precise pensar que sim. Questão de sobrevivência.
... E o buraco nunca tapa...


sábado, 21 de fevereiro de 2009

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Conclusões de um eremita II


"Hoje penso na morte com a serenidade que jamais pensei um dia."



terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

domingo, 25 de janeiro de 2009

Benjamin Button, a metáfora do tempo



"Cada vez menos aparecem filmes que satisfazem num grau tão poderoso como este, então é preciso valorizá-los cada vez mais. “O Curioso Caso de Benjamin Button” estréia na temporada de prêmios e promete levar vários; merecidamente." - Ricardo Prado, crítico de cinema.


“Inacreditavelmente completo” é uma boa forma de definir O curioso caso de Benjamin Button (EUA, 2008), mas ainda assim, não é a ideal. Trata-se de um filme tão bem lapidado que seria injusto tentar enquadrá-lo numa única definição.
O que muitos podem considerar um deslize que impede a perfeição do roteiro é a duração de quase três horas de filme, o que de fato o torna um tanto cansativo, porém, a meu ver, esta pode ser considerada uma ferramenta da própria história, como uma parte do enredo capaz de otimizar o envolvimento do expectador na realidade dos personagens, fazendo com que ele “sinta” o escorregar sorrateiro do tempo impregnado na história, do primeiro ao último minuto. Alguns dos pontos fortes além da história em si é a competência técnica da direção de arte nos quesitos fotografia, efeitos especiais e, sobretudo, maquiagem.
David Fincher (Seven e Clube da Luta) e Eric Roth (Forrest Gump), diretor e roteirista do filme respectivamente, contam com excelência a história de uma vida (ou de várias) de chegadas e partidas, paixões e tragédias, tecida e amarrada tal como estão sutil e perfeitamente entrelaçadas as vidas de todos nós; e narrada pelos sibilos do surreal, onde a ficção se mostra surpreendentemente capaz de contar a realidade.
De fato, como seria a vida vivida ao contrário (se é que não seja assim que a vivemos)?
A sucessão de fatos e acontecimentos no tempo é o grande barato da vida, apesar e alheia ao próprio tempo. Nas idas e vindas dela, as histórias se cruzam, algumas por pouco tempo, outras por toda a existência, mas nunca sem um propósito. Alguns chamam isso de acaso, outros de destino.
E enquanto cresço e envelheço, vou vivendo ou não, amando ou não, me transformando interiormente ou teimando em permanecer a mesma, mas, apesar e independentemente de qualquer coisa, meu corpo caminha para o fim, que sempre parece justificar o começo.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Em Primeira Pessoa


Há um tempo não escrevo. Quase sempre surpreendo-me tentando encontrar o motivo. Não se trata de falta de assunto, muito menos de vontade, há tanto o que falar que nem sei!
Penso que quando a gente produz, seja lá o que for, não basta apenas uma idéia e a intenção de objetivá-la, a criação precisa ser “cuspida”. É como um parto, há que se colocar o incômodo para fora, mas não sem certa dor. Talvez por isso não tenha escrito, por medo da dor.
Cada linha escrita representa mais um centímetro no corte que rasga a pele do escritor, no fim do último parágrafo pode-se dizer que sua alma está exposta.
Quanto a mim, ando tão vulnerável que a última coisa de que preciso é abrir ainda mais o buraco que permite ver o que há por baixo de minha pele marcada. E tenho tanto medo de transparecer que acabo transparecendo cada vez mais, e a única razão para ser é que preciso disso. Eu sou assim. Cheguei a me deprimir ao pensar que talvez eu não mais escrevesse. Como se não fosse melhor assim... Me pouparia da dor.
Mas ciente de todas as dores que a escolha de minha conduta pudesse me causar, escolhi, ainda assim, a verdade. É minha sina. Essa sinceridade exacerbada que me despe diante dos olhos dos outros, essa nudez que vive a me violentar. Enfim. Eu sei que o que digo será usado contra mim, no tribunal diário do juízo alheio.
Não venha me dizer do direito ao silêncio, sinto-me sufocada é pelo dever do silêncio! Permaneçamos calados então, como criminosos.
Mas se viver de fato é crime, assino agora minha sentença. E se gritar, se me fazer notar através minhas palavras, tal como sou e penso, será a minha condenação, então já estou condenada.
Estou despida, deixo os meus conflitos, os meus sentimentos, a minha angústia para a vossa apreciação, sem medo. Eu tenho este direito! Não quero o direito ao silêncio, quero antes o direito ao grito!
É minha alma que agora berra. E quem sou eu para calar os berros da alma?

* Escrito em 02 de Janeiro de 2009

domingo, 4 de janeiro de 2009

(D)esperança

"Quem espera, desespera." - Autoria Desconhecida.

2009 é um novo ano e tudo promete ser diferente, parece ser uma oportunidade que se abre para nós, uma oportunidade de fazer tudo diferente, de consertar o que está errado, como um rito de passagem entre o que é e o que vai ser...

“mas o que vai ser não vai ser porque é um novo ano, porque são novos ares ou porque a nossa sorte vai mudar, mas o que vai ser, será, única e exclusivamente, porque nós faremos com que seja!
Os dias são todos iguais, 31 de Dezembro de 2008 não é diferente de 01 de Janeiro de 2009 e de nenhum outro dia de qualquer ano, nada faz com que os dias sejam especiais, exceto as nossas ações.

'temos todo o tempo do mundo, não temos tempo a perder. Nosso suor sagrado é bem mais belo que este sangue amargo'

A minha grande questão é: Por que esperar para que no ano que vem as coisas mudem?
Por que adiar a felicidade?

E se nosso tempo for escasso?
O tempo é ágil e hábil na arte de apagar, dores, mas também alegrias, ódio, mas também amor. Temo que ele passe e vá varrendo tudo o que hoje é bonito.
Tenho medo de que as coisas mudem, de que eu mude, meus sentimentos, porque eles são tão efêmeros, tão inconstantes, tão voláteis, que posso perder a oportunidade de me sentir como no sonho, quando tudo parece fazer sentido e, no momento seguinte, percebo que perdi a chance.
É uma pena a forma como deixamos as oportunidades escaparem, é triste...
Por nos importarmos tanto com o futuro, não vivemos o presente em plenitude. Vamos deixando, pro futuro, pro futuro, para ser melhor, no futuro.
Se no futuro vai ser ou não diferente, não importa tanto assim, o que importa, por ora é o presente, então qual a razão para não deixarmos o futuro no futuro?
Falando assim parece simples, é tudo tão bonito no reino das palavras (e é exatamente por isso que eu gosto tanto dele), pena que não seja assim no plano do real.
Mas, na minha opinião, fugir do tempo, matar o tempo, não enfrentá-lo é um gesto de covardia, porque aproveitar ou não o momento, aquele momento em que o coração bate mais forte e a mente parece fugir do controle, pode inclusive determinar o rumo de nossas vidas de forma positiva, ou causar destruição.
'Do jeito que tiver que ser, será.' Será?
Eu estive pensando em como esta 'filosofia' é passiva, covarde, afinal por que adiamos as coisas, senão por medo? O medo me parece a justificativa mais plausível para que não busquemos a felicidade. Medo de não encontrá-la.
A gente perde em não aceitar que a vida é feita de riscos e se não nos arriscarmos, talvez nunca saberemos o que é, de fato, viver... é o medo do fracasso que impede a felicidade humana, embora saibamos que o fracasso é inerente a um ser humano imperfeito.
Preciso aprender a lidar com o tempo e tudo o que eu peço é uma chance. Tudo o que queremos é uma oportunidade de viver as coisas, independente do tempo. Não vejo razão para não 'fazer no hoje' o que eu mais desejo. A única razão é a ignorância. O medo é ignorância!
Preciso aprender a lidar com o tempo, respeitar o meu tempo e o tempo do outro, mas isso tudo não parece fazer muito sentido pra mim e tenho uma razão para isso: a nossa própria finitude. Não somos imortais, e definitivamente o que eu não quero é morrer frustrada por viver dando tempo ao tempo que não temos.
Por enquanto, para mim, o Carpe Diem faz mais sentido!”

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Conclusões de um eremita


"Se hoje brigo comigo é porque misturei-me demais aos outros."


sábado, 13 de dezembro de 2008

O Toque


Ela acordou sentindo-se diferente, apesar de não saber dizer o que, algo nela havia mudado, mas num bom sentido. Talvez porque tenha dormido bem, ou pela ensolarada manhã de domingo, ou talvez pela viagem de trem.
Ela sempre achou os trens incrivelmente românticos, mesmo estes trens modernos que em nada se parecem com as antigas e inspiradoras marias-fumaça.
Parada final: Jundiaí.
Se lembrou da brincadeira com a qual sempre provocava a amiga de lá:
- Muito gostoso ir para o interior de trem!
- Que interior menina? Desde quando Jundiaí é interior?
Oito e meia da manhã, a garota um tanto entusiasmada, um tanto introspectiva deixava São Paulo ainda dormindo, rumo ao clima quase bucólico da pequena cidade vizinha, perguntando-se se chegaria muito tarde para o encontro com a amiga.
Desembarcou do primeiro trem dirigindo-se diretamente à plataforma 2.
O segundo trem é mais encardido, os bancos menos confortáveis. O incômodo do desconforto a afasta ainda mais da atmosfera da metrópole, é curioso que isto acentue sua paixão por viagens de trem.
Apesar de não se imaginar vivendo em outro lugar, ela definitivamente não gosta de São Paulo e quando alguém a questiona sobre o motivo, ela costuma responder que é por causa do frio.
Embarcou assim meio desorientada, com o pensamento longe e sentou-se no primeiro banco disponível. Procurou alguma coisa na bolsa, em seguida sacou um livro.
Abriu bem na página marcada, onde havia uma dedicatória:
“Amor,
ainda que se sinta perdida em meio a multidão de estátuas de mármore
e o frio da tarde chuvosa atresse sua pele cortando-lhe o corpo,
mesmo que cercada de um punhado infinito de formas metálicas e de gigantescas muralhas de vidro
que a fazem sentir cada vez mais gelada,
lembre-se das palavras do poeta:
'O amor é o fogo que arde sem se ver'
E então feche os olhos e sinta: eu estou te tocando.
Num toque quente, sinta seu rosto entre minhas mãos, olhe-me nos olhos.
Veja-me face a face, como nos teus sonhos.
Eu serei sempre o rosto humano em meio as incontáveis faces de mármore.
Eu serei sempre o calor do fogo que te aquece em todos os teus dias.
E saiba que enquanto eu respirar, não faltará a ti o que falta a estes habitantes de andar robótico na terra do metal e do vidro: o toque.”
Fechou o livro deixando cair as folhas umas sobre as outras acompanhando a lágrima teimosa que caía sobre a sua face corada. Estava nervosa, não queria que as pessoas percebessem seu choro.
Enxugando os olhos, ela se concentrou na difícil tarefa de pensar em qualquer coisa que não lembrasse o ex. Não conseguiu. Levantou a cabeça e olhou ao redor para se certificar de que ninguém havia notado aquela lágrima que deixara cair.
Como havia imaginado, ninguém percebeu.
“Não se sinta fria em meio à multidão de estátuas de mármore.”
Novamente sentiu vontade de chorar, mas dessa vez segurou. Mais uma vez percorreu o vagão com os olhos, foi então que viu do outro lado, bem no canto, um garoto moreno, comum, um tanto tímido mas seu rosto não era como os outros, ele a encarava, ou melhor, ele era o único ali que a percebia.
Eles permaneceram alguns instantes assim, se olhando.
Ele fez menção de se levantar, não pensou, apenas caminhou em direção a ela.
Enquanto o garoto desconhecido andava em sua direção, ela pôde perceber em suas mãos algo que logo em seguida julgou ser um DVD, leu o título:
“Antes do pôr do sol”
Viagens de trem são mesmo muito românticas, pensou.
Ele se sentou no banco vazio ao lado dela, olhando-a nos olhos. E assim sem dizer nada, seus dedos foram tocando os dela...
A garota sentiu-se estranhamente completa. Ela nem se quer estava mais gelada.
Apenas um pensamento ecoava, insistente, em sua cabeça:
“O que falta às pessoas é o toque.”
Acordou meio sobressaltada com o trem chegando à estação, fechou o livro e desceu dirigindo-se ao encontro da amiga.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008


Lá pelas sete o sol nasceu para mim. Era um novo dia, uma nova manhã.
O cheiro da manhã é de liberdade.
E o coração batia pela primeira vez neste novo dia. (Luz) agora posso ver novamente meu rosto no espelho...
Um segundo rosto. O sol iluminou a face dele em diagonal. E o corpo iluminado transfigurou-se em corpo luminoso.
O cheiro da luz é de liberdade.
Abro a janela do quarto e, logo ali, voando baixinho num céu azul turquesa antes nunca visto, um solitário pássaro branco. E agora descubro o quanto é frágil minha normalidade muda. Patológico?
Descubro agora que não sou boa o bastante. Que minha vida não é boa o bastante.
Fecho a janela.
O vôo do pássaro termina cedo. Às seis o sol já está se pondo.
Estou com sede, vou até a cozinha. Mas a cozinha não resolve, pois minha sede é de conceitos.
Os conceitos, as cozinhas, tudo é tão perecível e eu nem se quer preciso disso. Dessa água não. Não beberei. Mas estou com sede. Enquanto ouço uma voz lá dentro falando de preconceito. O Pré - conceito vem antes. Patológico? É dessa fonte que bebemos.
A tristeza vem antes da felicidade.
Na verdade nunca se sabe o que vem depois.
Parece fácil. Depois do Pré, o Pós. Depois da manhã, a tarde, depois da tarde, a noite. Depois da vida...
Ontem à noite eu tive um sonho. Sonhei que a porta se abriu e era exatamente quem eu esperava. Sonhei que o pássaro branco entrou pela janela e trouxe a luz da manhã. O corpo iluminado, transfigurou-se em fonte de luz.
E eu sonhei e só. Depois do Pré, o Pós. Depois do sonho, a realidade.
Na verdade a gente nunca sabe o que vem antes e o que vem depois.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Oh My God, He Is Black!


Em primeiro de janeiro de 2003, aqui no Brasil, um metalúrgico de São Bernardo do Campo assumia a presidência da República. Exceto pela queda da ditadura e pelas eleições diretas, podemos dizer que esta foi a maior conquista sócio-política da história nacional moderna, onde toda a sociedade brasileira pôde assistir a classe trabalhadora, vítima de inúmeras repressões e humilhações ao longo dos tempos, subir ao poder.
Quase seis anos depois. Eu e o mundo inteiro pudemos ver, embora muitos ainda não acreditassem, um negro ser eleito presidente de um país que, além de ser a maior potência mundial e, portanto, berço da hegemonia burguesa, é conhecido como uma nação tradicionalmente racista em que, entre outras coisas, brancos e negros são separados por bairros.
Mais do que uma questão de preferência partidária como a mídia veicula, o que o mundo inteiro assistiu ontem, assim como o Brasil assistiu há seis anos, foi o grito desesperado das chamadas “minorias” (o que sabemos que não são...), um impetuoso grito de libertação, um grito sufocado há séculos e que há muito ameaçava soar.
Os EUA, no dia 04 de novembro de 2008 gritou por mudança. Nós brasileiros fizemos o mesmo quando fomos às urnas e elegemos Lula como presidente. Esta analogia entre a história destes dois homens, como eleitos de duas sociedades insatisfeitas e suplicantes por mudança em muitos aspectos pode parecer ingênua e utópica, pois, de certa forma, subestima os vários outros fatores, além da questão classista, que estão envolvidos nestas duas eleições e suas possíveis deficiências, mas espero não estar sendo exagerada em dizer que elas refletem uma nova sociedade, novas demandas sociais, e que esta “nova sociedade” tanto mais se renovará quanto mais suas ações tomarem grandes proporções, nesta medida, a eleição de um presidente negro nos Estados Unidos implica numa mudança que já está ocorrendo, mas que agora toma proporções mundiais, em outras palavras, o que quero dizer é que esta eleição muda, em alguma medida, toda a história da humanidade, e que assim seja.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Parto-me


As amarras ferem cada vez mais
Os pulsos sangram hemorragicamente,
Enquanto estas pesadas mãos em minha boca
sufocam o grito!
Preciso encontrar a válvula,
Senão a panela explode!
Deixa sair o ar, devagar...
Deixa sair o ar.
Deixar escapar a pressão
Deixo.
Não!
Bum!
Vai ao ar
Perco as rédeas de mim
Cavalo alado, atinge as nuvens
E quando volta ao chão
Já não é mais o mesmo
Pois agora conhece os perigos dos céus.
Quando volto ao chão, estou nudado, estou perdido

Leve-me de volta para mim!

O relógio continua produzindo seus barulhentos tic-tac's
Depois...
O silêncio
E então o sono.
O tempo opera milagres.
O tempo conserta.
Será?
De volta ao controle
A panela vai ao fogo "como antes"
E então?
...Pressão...
A pressão nunca pára
Ou pára, mas só quando o fogo apaga
Por ora a chama está alta,
pelos menos até onde os olhos enxergam
E se a válvula não estiver boa?
Cuidado!
A panela explode...
Bum!

"Leve-me de volta para mim".

terça-feira, 28 de outubro de 2008

De volta pra casa


O problema é o seu único amigo e ele está de volta novamente

Faz seu corpo parecer mais velho do que realmente é
E ela diz que está tarde e precisa ir
Não temos muito o que dizer nesse momento
O problema é o único caminho para a tristeza.
Tão forte como você era
Carrego você
Estou vendo que você respira...
Pela última vez
Uma canção para seu coração
E quando ele está tranquilo
Sei o que significa
Se ela tivesse asas, voaria para longe
E algum dia sei que Deus lhe dará.
O problema é o único caminho para a tristeza.
Tão forte como você era
Carrego você
Estou vendo que você respira...
Pela última vez
Uma canção para seu coração
E quando ele está tranquilo
sei o que significa
Eu vou levar você para casa
Eu vou levar você para casa
Todos querem ver a beleza das
luzes da cidade de Nova York.
E os verões foram tirados do mundo da garotinha
Esta noite
Carrego você
Estou vendo que você respira...
Pela última vez
Tão forte como você era
Carrego você
Estou vendo que você respira...
Pela última vez
E eu vou levar você para casa
Eu vou levar você para casa

(Carry You Home, James Blunt)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Parceria inteligente


Livro Chip de Raduan Nassar contém trilha sonora d'O Teatro Mágico!

"Extraído do Site Oficial do T.M."


O grupo O Teatro Mágico e o escritor Raduan Nassar acabam de lançar na web um mini-documentário sobre a vida do autor, totalmente musicado pela banda que une circo e música.

Raduan Nassar assina textos célebres da literatura como "Lavoura Arcaica" e "Um Copo de Cólera". Não deixem de conferir o vídeo que retrata sua trajetória até as letras e um breve prefácio virtual de seu livro "Menina a Caminho" com trilha de Anitelli e trupe.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

E eu sonhei...


Risadas.

-É claro que eu não vou contar pra vocês, meninas.
-Ah não? Por quê?
-Sonhos não são projeções do inconsciente? Acham que vou me entregar desse jeito?
- Agora a nova onda é Psicanálise? Semana retrasada o dircurso eram as amarras do condicionamento, a falta de liberdade. Semana passada a segregação, as injustiças presentes no campo...
- E agora, oras, tudo culpa do complexo de Édipo! Tudo para mim agora faz sentido.
- O que faz sentido?
- Tudo.
- Você tá tentando mudar de assunto... vai conta, o que você sonhou?
- Sonhei com um encontro.
- Huuuuuum... E que encontro era esse?
- Se parecia com o meu pai, mas aos poucos, ele foi desaparecendo, virou fumaça. E então, diante de mim estava eu mesma. O resto, não posso contar, tem a ver com alguém que vocês conhecem...

E era ele. Não o beijei. Não aconteceu nada. Nem dormindo nem acordada. E eram três, passado, presente e, quem sabe, futuro.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Só mais um... (grito!)

*Sufocado. O mais fraco soluço do mais fraco.*

Nós pequenos
Que vivemos à sombra de gigantes
Sofremos pela imperfeição
que são os filhos de Deus
Graças à Eva tudo é como é
Será?
É fácil culpar os outros
E abster-se de toda a responsabilidade
E assim caminha a humanidade,
Ouvindo os ecos (des)ordenados
Da classe superior:
Preto quando não caga na entrada, caga na saída
E os brancos, não cagam?
No mínimo são entupidos

Esses estúpidos
Só não vê aquele que não quer

Eu não sou uma máquina,
Falhar é inevitável
Perfeição?
Deixe de querer ser deus
Você não é.

Deixe de querer possuir o controle de tudo.
Me diga por que estou tão triste.

A culpa é de quem?
Repressão?
Opressão?
Outro dia me perguntaram a diferença,
Nem pensei, respondi: que importa?
Sufocação!
A pior cobrança começa dentro.
Estas correntes envolvem o meu corpo
E não me deixam viver plenamente.
Estes parafusos em meu sorriso
Imitam uma certa felicidade.
Só é feliz aquele que é livre!
Eu, ainda menino, ouvia ao fundo as palavras da catequista:
Sua liberdade termina onde começa a do próximo.
Mas que liberdade é essa?
Eu não conheço.
E dou um beijo em quem disser que é livre.
Estranho é ver as pessoas buscando felicidade
No meio de tanta sujeira
Os ricos são felizes?
Minha mãe tem nojo do dinheiro.
O ditado diz:
Dinheiro não traz felicidade, mas compra.
Ouça. mais ecos...
...Ignorância...

Sempre vem de baixo?
Enquanto isso, crianças tocam violão no pátio
E cantam uma canção qualquer
É lindo ver a esperança
Que há na juventude
Jovem e cheia de vida!
Feliz?
Lá vem a inspetora.
“Vocês não podem cantar aqui,
estão atrapalhando a aula.”


Escrito em Janeiro de 2008

terça-feira, 23 de setembro de 2008

A vida é um espelho de mentiras


Pra falar a verdade às vezes minto
Tentando ser metade do inteiro que eu sinto
Pra dizer às vezes que às vezes não digo
Sou capaz de fazer da minha briga meu abrigo
"Tanto faz" não satisfaz o que preciso
Além do mais quem busca nunca é indeciso
Eu busquei quem sou
Você pra mim mostrou
Que eu não sou sozinha nesse mundo.

Basta as penas que eu mesma sinto de mim
Junto todas, crio asas, viro querubim
Sou da cor do tom, sabor e som que quiser ouvir
Sou calor, clarão e escuridão que te faz dormir
Quero mais, quero a paz que me prometeu
Volto atrás se voltar atrás assim como eu.
Busquei quem sou
Você pra mim mostrou
Que eu não estou sozinha nesse mundo.

Cuida de mim enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo que sou quem eu queria ser.
Cuida de mim enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo... Enquanto fujo...
(Cuida de mim, Fernando Anitelli)

A verdade é que, incapazes de cuidar de nós mesmos, estamos sempre em busca de quem o faça pra gente.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Madrugada Plim Plim


Os anos 80 e 90 foram, sem dúvida, grandes marcos na história do cinema mundial. Com o calcanhar nos roteiros inteligentes dos preto e branco e a ponta dos pés nos efeitos especiais, a indústria cinematográfica asiática, francesa e principalmente norte americana, produziram centenas de grandes obras.
No Brasil o cenário era, literalmente, outro: o cinema nacional começava a dar seus primeiros passos rumo ao reconhecimento internacional.
Bem, o fato é que, com ou sem grandes investimentos, estas décadas foram tão significativas que romperam fronteiras, porém é impossível negar a hegemonia hollywoodiana em termos de produção cinematográfica.
Não deixo de tirar o chapéu para produções milionárias, mas esta está longe de ser uma questão essencial. É possível se fazer um ótimo filme com muito menos, aliás a simplicidade é o que muitas vezes traz o charme para a produção. E quando digo simplicidade, me refiro a roteiros "trabalhados", sem grandes firulas e com um olhar para questões inerentes ao ser humano, onde é possível "ousar", trazendo temas que possibilitem a identificação do público através do clima lúdico da ficção e da fronteira tênue que esta demarca com a realidade. Uma direção de arte que explore mais a natureza das coisas e das pessoas do que se preocupe com saltos estilo Matrix ou náufragos a la Titanic. Um diretor que preze por grandes atuações seja no drama, na comédia ou na ação.
E já que afirmo que grandes obras não implicam necessariamente em grandes investimentos e em roteiros complexos, vou vender o peixe da Sessão Corujão.
Alguns dos melhores filmes que já assisti foram nas madrugadas das líderes de audiência, e dentre eles, há alguns dos quais eu nem se quer lembro o nome e que dificilmente eu vá ver de novo.
Dos que me lembro e já procurei que nem doida, em tentativas fracassadas, estão Silver Strand e Threesome (os títulos originais são mais charmosos), se você tiver sorte de encontrar, assista, eu recomendo.
Sabe que até hoje me pergunto por que filmes bons passam tão tarde?
Na verdade, a resposta é simples: o estilo Globo de televisão preza pelo capital, e os brockbusters da Tela Quente são os que atraem o grande público e é tudo o que eles querem. Filme inédito, boa audiência; boa audiência, massificação cultural; massificação cultural, padrão, padrão globo de manipulação. Um ciclo sem fim...

E veja como é irônico, justamente a TV aberta que é o único recurso em termos de acesso à informação e à cultura que chega até a maioria brutal dos brasileiros, se ocupa não de apresentar a diversidade de visões de mundo nas várias manifestações de cultura, mas de tornar padrão uma única visão de mundo; a do capital, e, portanto, das grandes produções.
O SBT segue a mesma linha, se já passa das duas da madrugada, vá correndo ligar a televisão no canal quatro antes que mudem a programação pela terceira vez no mês na tentativa de vencer a Globo.
Diante desta situação, o que me resta senão lamentar? Passar a noite acordada esperando pelos "filmes alternativos" que provavelmente não vou encontrar na locadora e muito raramente encontro para comprar?
Não. Com certeza não. Amanhã preciso acordar cedo para trabalhar, afinal não podemos sair do padrão. A ordem é o lucro, então, mãos à obra!
A torcida é para que eu seja acometida por uma crise de insônia, ligue a TV e seja aclamada com uma oportunidade única de assistir a uma dessas verdadeiras jóias do cinema.


quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Séria Demais


"A arte de escrever sem pensar”


Estive pensando...
meus textos são sérios demais.
Só tenho dezoito
e penso demais.
Penso.
É tudo tão atemporal,
até minha forma de pensar.
E a vida é uma ilusão.
Uma brincadeira
Onde cada momento se perde
na brevidade do piscar.
Quem dera meus olhos fossem as lentes de uma câmera
E que tudo, cada detalhe, ficasse registrado.
Quem dera a vida parasse para curtir o momento.
Quem sabe aquele tempo em que fui feliz (e não sabia)
não teria ido embora...
Mas quantas vezes fui feliz?
Todo dia, pelo menos uma vez.
E quando fecho os olhos,
lembro- me daquela poesia
Ou das palavras soltas pela sala
itinerante do museu da língua
Ou da voz suave daquele cantor
Ou do rodopiar da bailarina
Da conversa descompromissada com as amigas
Das risadas sem motivo
Ou das aulas de psicologia.
E se a vida parasse naquele momento
Em que seus olhos cheios de ternura
diziam que gostavam de mim?
E você, tremendo todo, pálido, parecia sincero
E pela primeira vez eu senti que podia ser amada.
E se a vida parasse no momento do primeiro beijo?
Ou no fim daquele filme que falou à alma,
Ou quando eu olhava para você?
E quem sabe a vida não parou, realmente...
Eu penso demais e sinto mais ainda
O mundo inteiro é feito de impressões digitais
E quanto mais escrevo e penso a vida,
mais percebo que o registro não se registra
A gente só sabe sentir.
Quem dera pudéssemos elevar
cognições à amplitude de sensações.
Pensamentos são apenas pensamentos.
Rabiscos na folha são apenas rabiscos.
E desisto, não dá para dividir com você
E vice – versa.
Escrever é sério demais.
Mas não desta vez...
E a frase vem à cabeça,
os dedos apenas correm pelo teclado sem pretensão alguma
E então assumo a minha idade.
Hoje escrevo, mas sem pensar.

*Escrito em 08 de Setembro


Ocorre-me agora:

A seriedade faz fronteira com o surto.

Todo excesso é patológico.

Um sopro esclarecedor ecoa em meus ouvidos...

"A vida não pode ser levada tão a sério"

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Traslado


* De Corpo e Alma*

Abnegação. Algumas pessoas nascem com sorte no amor, outras não. Parece ser muito complicado, mas não é.
A única vez em que tive a impressão de que tudo estava dando certo, foi também, e não por acaso, quando senti que tudo estava meio fora do prumo.
É algo tão intocável, incolor e inodoro que só se pode pensar que não é real.
E quando, finalmente, a cegueira da paixão decide nos deixar em paz, essa perfeição toda nos apresenta sua face deformada.
Enfim, não é exatamente disto que me proponho a falar, e sim sobre aquela tal “missão” que dizem motivar esta existência, na maioria das vezes, tão esvaziada de sentido. Pois bem, não se trata de uma hipótese. Trata-se de um fato. Há certas panelas que, por defeito de fabricação ou não, simplesmente vêm sem a tampa, o que não significa que elas não sirvam para cozinhar, e tampouco se deve forçar a elas tampas que não lhes sirvam.
Não sei se me faço clara, também nem era essa a intenção.
Acontece que sinto uma coisa, hoje, pela primeira vez.
Bem-estar. Abnegação.
É possível ser feliz amando, mesmo quando você parece não ter predisposição a isso. Ora, o amor se apresenta sob várias faces, formas, conteúdos, e amar é não esperar nada em troca, muito menos amor.
Quantas as formas de ser feliz e de se sentir útil que não necessariamente recaem sobre aquela eterna busca pelo outro que, de forma mascarada, nada mais é do que a busca por si mesmo, ou por aquilo que parece completar o que falta no eu?
Às vezes o caminho destinado a você é justamente o oposto. Resignação.
Quem sabe você sinta, como hoje pude sentir, a cálida paz diante dos estranhos no espelho e entenda que é preciso ter calma. A sabedoria é um engenho. E o reconhecimento dos estranhos pode, enfim, acontecer se aprendermos novas formas de buscar.
Quando os meus olhos procuram os teus e finalmente os encontra, posso ver, em sua íris, o reflexo de minha própria imagem. Quando ouço o que você tem a dizer é como se eu que falasse, quando chora, seguro o nó na garganta e não deixo a lágrima, que nasce teimosa no canto do olho, escapar. Não posso. O forte desta história sou eu. Assumo uma postura profissional e me mantenho como uma rocha.
Mas quando você sorri, meus lábios trêmulos não me obedecem mais, acabam por revelar meus dentes, esta sou eu e para sê-lo, aqui estou. Completa, enfim.
Dentre todas as formas de amar, resigno-me e só assim sou feliz.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Hoje não escrevo


Hoje faz exatos vinte dias que não publico nada novo. Precisava de um tempo para mim. Quando escrever deixa de ser um hobby para vestir a roupa da necessidade, sinal de que algo está errado. Desde que criei este blog, há apenas quatro meses, me deixei levar por mais um vício, e então passei a postar, quase sempre, duas vezes por semana. Esgota. A mim e a vocês.
Aproveito o ensejo para expressar minha sincera gratidão pelas mais de seiscentas visitas (tá, as minhas próprias visualizações de perfil não contam!), aos que comentam e aos que apenas lêem, para estes últimos devo dizer que o fato de lerem, por si só, é uma grande recompensa. E aos comentadores assíduos, saibam que é uma honra “ouvir” o que vocês têm a dizer.
O fato é que eu já não consigo mais ficar longe deste espaço por muito tempo.
Mas hoje não escrevo. Não sou eu quem fala hoje, me calo para, junto a vocês, ouvir as palavras deste gênio da linguagem e da metafísica (e quem sabe aprender com elas...).
E dedico meu silêncio aos leitores deste blog.


*A crônica se segue no próximo post.*

Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos.

Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.
O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a maior cara-de-pau (“com isenção de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego - às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles.
Ah, você participa com palavras? Sua escrita - por hipótese - transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever O Capital é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu O Capital. Não é todos os dias que se mete uma idéia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação.


Claro, você aprovou as valentes ações dos outros, sem se dar ao incômodo de praticá-las. Desaprovou as ações nefandas, e dispensou-se de corrigir-lhe os efeitos. Assim é fácil manter a consciência limpa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação, que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua protegida pessoa, eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel.
E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado de espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia... explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar, se não nos concedem tempo para isso entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Não é redator de boletim político, não é comentarista internacional, colunista especializado, não precisa esgotar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Você é o marginal ameno, sem responsabilidade na instrução ou orientação do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Concluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não corta de verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira, assuntando, assuntando...

Então hoje não tem crônica.


Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A construção primeira do eu


Do que eu sempre julguei que sabia e queria, restou algo que, inevitavelmente, seria o início de tudo que hoje penso que sei e que sou.
Quanto ao futuro, eu ainda temia estar errada...
Sorte é perceber que este "algo" é, indubitavelmente, o que me possibilita, hoje, dizer: eu nunca fui tão eu quanto sou agora, desde então.
Quanto ao futuro, ainda temo estar errada...



"O saber é um trabalho. Por ser um trabalho, é uma negação reflexionante, isto é, uma negação que, por sua própria força interna, transforma algo que lhe é externo, resistente e opaco. O saber é o trabalho para elevar à dimensão do conceito uma situação de não-saber, isto é, a experiência imediata cuja obscuridade pede o trabalho da clarificação. A obscuridade de uma experiência nada mais é senão seu caráter necessariamente indeterminado e o saber nada mais é senão o trabalho para determinar essa indeterminação, isto é, para torná-la inteligível. Só há saber quando a reflexão aceita o risco da indeterminação que a faz nascer, quando aceita o risco de não contar com garantias prévias e exteriores à própria experiência e à própria reflexão que a trabalha."

(Marilena Chauí, Cultura e Democracia)


terça-feira, 5 de agosto de 2008

Um voto pela expansão da lei seca.


Se beber não dirija...
E nem tente filosofar.

Ontem, voltando da faculdade, pude entender melhor, e na prática, o tipo de situação que provavelmente inspirou a autoria da expressão popular "filosofia de botequim".
Tarde da noite, a agitada rua do bairro parece mais cenário de filme de suspense, escura e pouquíssimo movimentada, as únicas pessoas que ainda estão acordadas são alguns bêbados na porta do bar, falando alto e intimidando quem passa sozinho e a pé.
O papo parece realmente interessante, pois há uma estridência espasmódica em suas vozes, mas pudera, nestas condições...
Ao passo que me aproximo, posso ouvir o discurso de um dos indivíduos, que diz:
"Na vida, só tem dois tipos de pessoas. Ou você é o jogador, ou é a bola. Um nasce para chutar, o outro, para ser chutado."
Continuo caminhando, cada vez mais depressa devido ao horário, mas agora, surpreendo-me chegando a uma conclusão:
É por essas e outras que o Brasil é o país do futebol.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Música sem preconceitos


Tenho passado por uma pequena fase de bloqueio criativo. Digo pequena porque espero que passe logo, pois apesar de ter vários textos não publicados, gostaria de algo novo neste espaço. A "tentativa" de crítica a seguir custou a ser escrita, portanto não esperem muito dela. Aproveito para registrar os meus sinceros agradecimentos aos leitores deste blog, são vocês que me impulsionam a continuar.

“Aqui estou na difícil missão de levar a você uma mensagem que possa ser como uma luz ou um mantra, nós não somos mais crianças. Um dia acontece, a gente tem que crescer, temos que encarar a ‘responsa’. Eu não deixei de achar graça nas coisas, simplesmente hoje eu quero ser levado a sério; as coisas mudam sempre, mas a vida não é só como eu espero.”


Por volta de quatro horas da tarde de terça-feira toca o celular, ainda no trabalho, eu, sem reconhecer o número no visor, atendo um tantinho intrigada.
- Alô.
- Marinha, sou eu, a Ná.
- Ah... oi Ná, tudo bem?
- Tudo. Marinha, será que você conseguiria sair mais cedo do trabalho amanhã?

*

Já passava das nove da noite, em plena quarta-feira. E a platéia, ansiosa devido às mais de duas horas de espera, entoava, em coro, seu apelo impaciente:

- Charlie Brown, Charlie Brown, Charlie Brown…

As luzes do palco, que já haviam sido apagadas há algum tempo, não eram índice de que o show fosse, finalmente, começar.
De súbito, ouve-se uma voz que, reconhecida imediatamente, causa ainda mais frisson:

- Que pressa é essa?

O show era resultado da promoção de uma famosa rádio de São Paulo. Duzentos felizardos aniversariantes e seus dois convidados iriam curtir Charlie Brown Jr., num evento exclusivo.
Confesso que, como grande parte das pessoas, tinha certo preconceito com relação à banda, mas é claro que eu não poderia recusar um convite desses. Primeiro, porque vinha da Ná, uma grande amiga, segundo, porque eu sabia que seria uma experiência legal, afinal não é todo dia que temos a oportunidade de ir a um show exclusivo e com tudo “na faixa”.
O surpreendente foi que eu gostei muito mais do que pensei que gostaria, e digo mais, a espera valeu a pena. Calma, explico.
A dois metros do palco não há quem não se emocione. Ponho minha mão no fogo como, até o mais devoto dos amigos cult que tenho, balançaria com a emoção de estar ali. E acredito que o principal motivo seja a sinceridade que os caras espiram. É nítida a crença que eles têm em seu próprio trabalho, e não poderia ser diferente, digo o porquê.
Havia ali, em torno de quatrocentos jovens que cresceram ouvindo suas músicas, que sabiam todas as letras de cor e que vibravam com a energia positiva em torno deles.
A questão aqui é bastante delicada, estamos falando de um público jovem, uma galera que curte um som que tenha a sua cara e o rock é o estilo musical que tem embalado jovens, de vários cantos do mundo, há mais de meio século.
Temos que encarar a ‘responsa’. Perceba como esta letra é verdadeira, de fato, as bandas de rock carregam a enorme responsabilidade de compor o cenário conturbado da adolescência e, além de falar aos jovens, devem ter a consciência de que é nessa fase que firmamos nosso caráter. E a música, sendo uma das ferramentas de expressão mais acessíveis à grande massa e elemento fundamental à vida das pessoas, participa, enquanto forma de arte, na formação da visão de mundo do público que a prestigia. Está aí a responsabilidade das bandas jovens.
E, a meu ver, Charlie Brown é exemplo. É claro que ninguém é obrigado a concordar, também sabemos que todo artista comete lá os seus deslizes. Mas o rock do Charlie Brown está explicitamente mais maduro e a maioria de suas letras pregam o amor. Ora, achando clichê ou não, qual é a outra solução que se vê em tempos difíceis como os nossos, senão o amor?
As músicas têm acompanhado a evolução da banda, ainda que a maioria dos fãs prefira “as antigas”, o que se percebe é que a batida rebelde com letra provocadora tem dado lugar à sons mais melodiosos e à letras com mensagens de paz. É fácil notar tal maturidade através da comparação de dois grandes hits, a idealista “Lugar ao sol”, de 2001 e a atual música de trabalho “Uma criança com o seu olhar”.

“Que bom viver, como é bom sonhar
E o que ficou pra trás passou e eu não me importei
Foi até melhor, tive que pensar em algo novo que fizesse sentido
Ainda vejo o mundo com os olhos de criança
Que só quer brincar e não tanta responsa
Mas a vida cobra sério e realmente não dá pra fugir
Livre pra poder sorrir, sim
Livre pra poder buscar o meu lugar ao sol”

“(...) nós não somos mais crianças
Um dia acontece, a gente tem que crescer
Temos que encarar a responsa
Eu não deixei de achar graça nas coisas
Simplesmente hoje eu quero ser levado a sério
As coisas mudam sempre, mas a vida não é só como eu espero
Existe um dom natural que todos temos
Nossas escolhas vão dizer pra onde iremos(...)
Armadilhas do tempo são como o vento
Levando as folhas para lugares distantes,
O meu pensamento é o mesmo que o seu
Mas hoje meu coração bate mais forte que antes”

Se repararmos bem, as duas músicas têm muito em comum, inclusive pelo som, tanto Lugar ao sol, quanto Uma criança com o seu olhar, são as mais melodiosas de seus respectivos álbuns. A proposta também é a mesma, porém na segunda, a luta pelos objetivos foi encarada de forma mais “pé no chão”, sem deixar de lado a identidade da banda, enquanto banda jovem.
O ardil de Chorão e companhia consiste em pregar o amor como a força que nos leva a lutar pelos sonhos, o amor pelo que se é, pelo que se faz, o amor pelas raízes e pelo esporte. O fato deles viverem isto é o que torna ainda mais fascinante e verdadeira a trajetória do grupo até aqui.
Nunca vou me esquecer do que vi e senti naquela noite. De certa forma, posso dizer que eu mudei.
Abro minha mente para novas possibilidades e me abstenho de preconceitos. Curtindo o som ou não, sendo culturalmente enriquecedor ou não, sendo som para maloqueiro ou não, seja qual for a sua opinião (acredite, ela provavelmente seja bem parecida com a que eu tinha antes), é necessário que se observe.
Música é questão de gosto, assim como qualquer arte, e, sendo questão de gosto, não agradará à gregos e troianos, por isso temos tantos críticos de arte por aí. E antes que você diga: “Mas este rock do asfalto, totalmente sem conteúdo, não é arte”, pare e pense sobre o que você anda ouvindo ultimamente, será que é verdadeiro, ou você está apenas enriquecendo ainda mais a indústria fonográfica? Ou ainda, você, provavelmente, diga: “Boa música é MPB. É Tom, Elis é Chico Buarque...”.
Ok. Concordo, e em hipótese alguma desmereço. Mas é extremamente necessário que se tenha consciência de que a música POP está aí e é tão brasileira quanto a MPB, e, muito provavelmente, mais ouvida. E se traz verdade, se tem identidade, fé no que se faz e no que se tem a dizer, então, merece nosso crédito. Ou, no mínimo, respeito.
Quanto ao que eu aprendi, os estilos populares também podem ser libertadores:

O que vale nessa vida é o que se vive é o que se faz
Mas o que pode se esperar de uma pessoa que não pode
sonhar?
Como ele pode ter o que dele está tão longe?
Na vitrine coisas que ele nunca vai poder ter
Se ninguém o ajudar o que ele vai fazer?
Onde vai morar e o que vai ser quando crescer?
Quando vem da rua,
que é sua, que é minha, que é de ninguém
É tudo uma ilusão e você sabe muito bem
Impunidade, hipocrisia, dançam de mãos dadas
O hino nacional de uma nação condenada
A sociedade prega o bem
Mas o sistema só alimenta o que é mal
Se a nossa cara é prosperar,
o povo tem que evoluir também
Quase de manhã, mais uma noite no vazio
me auto-desafio, lá fora o mundo louco
sem perdão nem compaixão
A combustão em rota de colisão
A sinfonia da destruição
Vivendo o sonho e também o pesadelo
Vendo o mundo regredindo entre a fé e o dinheiro
Saudades do meu pai e dos amigos que morreram
Mas o que o velho me ensinou eu jamais me esqueço
Seja lá como for, na vida tudo tem seu preço
No mundo, o falso e o verdadeiro se confundem
Mas os que sabem jamais se iludem
Não é fácil encontrar o caminho
Mas é bom olhar pro lado e ver que não estou sozinho...
Todo o mal que é dirigido a nós
Nos fortalece e eu não vou desistir
(O que vale nessa vida é o que se vive é o que se faz)
Nas armadilhas que eu cai
Eu fiquei só e ninguém viu
(O que vale nessa vida é o que se vive é o que se faz)
O que pode se esperar de um ser humano perdido?
Que ele viva como se nunca fosse morrer?
Ou que ele morra como se nunca tivesse vivido?
O que pode se esperar de uma pessoa que não pode
sonhar?

I wanna think about tomorrow
'Cause tomorrow I want to be with you
Don't wanna live in quite sorrow
But that's the way the world will follow
It's all in my mind
Just wanna be myself for sometimes
Just wanna be myself

Acostumado desde cedo com a desgraça
em temporada de caça, um subnutrido
vítima da farsa, se formou na escola do crime
hoje o oprimido é quem oprimi
Uma alma carregada de ódio e amor
Mas muito mais ódio que amor
O aluno é também o professor
que ensina qualquer um que não sabe dar valor
à vida que tem ou à casa que mora
que vive sorrindo enquanto ele chora
Só mais um de milhares que se espalham
vítima dos nossos governantes que falharam
Todo o mal que é dirigido a nós
Nos fortalece e eu não vou desistir
(O que vale nessa vida é o que se vive é o que se faz)
Nas armadilhas que eu cai
Eu fiquei só e ninguém viu
(O que vale nessa vida é o que se vive é o que se faz)

I just wanna be myself...
Yeah! Yeah! Play your position
'Cause the world does the man
Little kids visions
May my sins be forgiven
Gotta have faith so
You can do what you wanna do
Gotta be this way So don't fool
'Cause the world is Cruel
Live by the sword, then you die by the sword
When I'm asking for peace in the middle of a war
Between blacks and whites, between rich and poor
So we can stop the mess overseas and all

Trabalho muito, vivo a vida, skateboard estilo de vida
um brilho intenso e a humildade de uma mente evoluída.

(Be Myself, Chorão e Thiago Castanho)