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sexta-feira, 2 de março de 2012

Sem rumo




Levantou-se, dirigindo-se à janela. Debruçou-se no batente, olhando para o nada.
O céu estava branco como naquelas manhãs em que tanto o sol, quanto a chuva se escondem.
Lembrou-se de um certo autor aclamado que escreveu sobre uma tal cegueira branca. Imaginou que ela devia ser parecida com isso. Sus-pirou...
Fechou a janela e caminhou de volta à cama. Sentou, chorou. Calçou os sapatos e, sem se importar por ainda estar usando pijamas, abriu a porta. Primeiro a do quarto, depois a da sala, depois o portão de casa.
E ganhou as ruas, estranhamente claras, caminhando com pressa.
A cada novo passo, mais valocidade impelia à caminhada, andando com vigor quase desesperado sem saber, no entanto, aonde queria chegar.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Oitenta e poucos


Naquela manhã o sol invadiu o quarto com uma luminosidade maior do que em qualquer outra manhã de Janeiro. Deitada na pequena cama de solteiro com lençóis e fronhas brancas, a velha senhora se virou com dificuldade, abrindo os olhos que mal conseguiam enxergar a essa altura de sua vida. O quarto era desconhecido e a senhora sentiu-se um pouco assustada, com movimentos muito lentos e pouco articulados, ela procurou se levantar, calçando os chinelos de pano e dirigindo-se à penteadeira de mogno à esquerda da porta. Com mais passos do que o necessário, ela atingiu o beiral da plataforma, onde havia alguns frascos de colônias e hidratantes, apoiando as mãos enrugadas nela. No espelho oval surgia, receoso, um rosto que nem com algum esforço ela conseguiu reconhecer. Um rosto flácido, marcado com várias manchas escuras, manchas de muitos anos de agressão do sol. Com as mãos trêmulas, a velha toca o espelho gélido, ainda sem se dar conta. Em seguida toca o próprio rosto. A textura gelatinosa da pele sob suas mãos finalmente a traz para realidade e, enfim, ela conclui que o rosto no espelho é o seu próprio. Ela continuava ali, imóvel mesmo depois de vários minutos, parecia não entender como nem quando havia se tornado aquela figura refletida no espelho. Também não fazia idéia de onde estava, de que quarto era aquele. Pensou em abrir a porta, mas teve medo do que poderia encontrar lá fora. Deu um passo em direção ao grande pedaço de madeira pintado de cinza, mas hesitou e antes que pudesse se mover mais um milímetro a porta se abriu. Um homem alto, grisalho, de uns quarenta e poucos, talvez cinquenta anos, atravessou o batente. Pavor. O que este desconhecido estaria fazendo em seu quarto? A velha inspirou com força a maior quantidade de ar que pôde para formar o grito mais alto que conseguiria. Ela gritou, gritou, gritou desesperadamente, se não podia correr, talvez alguém a salvasse. O homem, ouvindo a velha gritar aproximou-se, e mesmo vendo-a recuar a abraçou no intuito de acalmá-la, inutilmente. Ela gritava cada vez mais. "Calma mãe, sou eu o Chico. Vim lhe trazer o café da manhã, também trouxe flores, afinal hoje é um dia especial. Feliz aniversário, mãe!" Ela parou por um instante enquanto ele falava, fixou os olhos na expressão assustada do homem, o encarou por alguns segundos e depois recomeçou a gritaria. Ele então, percebendo que sua presença não era bem vinda, colocou o buquê de rosas vermelhas (as preferidas da mãe) sobre a cama e deixou o quarto, desconcertado, esbarrando nas pessoas que vinham umas atrás das outras ver o que estava acontecendo. A velha permanecia parada numa espécie de estado de choque, mas subitamente um tufão de pensamentos desconexos surgiam em sua cabeça: Uma garota loira desengonçada, um jovem rapaz, uma moça vestida de noiva, uma sala cheia de diplomas, livros, uma sala ampla clara como aquele quarto de asilo, risadas, um berço e um bebê. Um bebê chamado Francisco. Uma lágrima escorreu pelo rosto da velha ao lembrar do dia em que batizou o seu primeiro filho.

sábado, 13 de dezembro de 2008

O Toque


Ela acordou sentindo-se diferente, apesar de não saber dizer o que, algo nela havia mudado, mas num bom sentido. Talvez porque tenha dormido bem, ou pela ensolarada manhã de domingo, ou talvez pela viagem de trem.
Ela sempre achou os trens incrivelmente românticos, mesmo estes trens modernos que em nada se parecem com as antigas e inspiradoras marias-fumaça.
Parada final: Jundiaí.
Se lembrou da brincadeira com a qual sempre provocava a amiga de lá:
- Muito gostoso ir para o interior de trem!
- Que interior menina? Desde quando Jundiaí é interior?
Oito e meia da manhã, a garota um tanto entusiasmada, um tanto introspectiva deixava São Paulo ainda dormindo, rumo ao clima quase bucólico da pequena cidade vizinha, perguntando-se se chegaria muito tarde para o encontro com a amiga.
Desembarcou do primeiro trem dirigindo-se diretamente à plataforma 2.
O segundo trem é mais encardido, os bancos menos confortáveis. O incômodo do desconforto a afasta ainda mais da atmosfera da metrópole, é curioso que isto acentue sua paixão por viagens de trem.
Apesar de não se imaginar vivendo em outro lugar, ela definitivamente não gosta de São Paulo e quando alguém a questiona sobre o motivo, ela costuma responder que é por causa do frio.
Embarcou assim meio desorientada, com o pensamento longe e sentou-se no primeiro banco disponível. Procurou alguma coisa na bolsa, em seguida sacou um livro.
Abriu bem na página marcada, onde havia uma dedicatória:
“Amor,
ainda que se sinta perdida em meio a multidão de estátuas de mármore
e o frio da tarde chuvosa atresse sua pele cortando-lhe o corpo,
mesmo que cercada de um punhado infinito de formas metálicas e de gigantescas muralhas de vidro
que a fazem sentir cada vez mais gelada,
lembre-se das palavras do poeta:
'O amor é o fogo que arde sem se ver'
E então feche os olhos e sinta: eu estou te tocando.
Num toque quente, sinta seu rosto entre minhas mãos, olhe-me nos olhos.
Veja-me face a face, como nos teus sonhos.
Eu serei sempre o rosto humano em meio as incontáveis faces de mármore.
Eu serei sempre o calor do fogo que te aquece em todos os teus dias.
E saiba que enquanto eu respirar, não faltará a ti o que falta a estes habitantes de andar robótico na terra do metal e do vidro: o toque.”
Fechou o livro deixando cair as folhas umas sobre as outras acompanhando a lágrima teimosa que caía sobre a sua face corada. Estava nervosa, não queria que as pessoas percebessem seu choro.
Enxugando os olhos, ela se concentrou na difícil tarefa de pensar em qualquer coisa que não lembrasse o ex. Não conseguiu. Levantou a cabeça e olhou ao redor para se certificar de que ninguém havia notado aquela lágrima que deixara cair.
Como havia imaginado, ninguém percebeu.
“Não se sinta fria em meio à multidão de estátuas de mármore.”
Novamente sentiu vontade de chorar, mas dessa vez segurou. Mais uma vez percorreu o vagão com os olhos, foi então que viu do outro lado, bem no canto, um garoto moreno, comum, um tanto tímido mas seu rosto não era como os outros, ele a encarava, ou melhor, ele era o único ali que a percebia.
Eles permaneceram alguns instantes assim, se olhando.
Ele fez menção de se levantar, não pensou, apenas caminhou em direção a ela.
Enquanto o garoto desconhecido andava em sua direção, ela pôde perceber em suas mãos algo que logo em seguida julgou ser um DVD, leu o título:
“Antes do pôr do sol”
Viagens de trem são mesmo muito românticas, pensou.
Ele se sentou no banco vazio ao lado dela, olhando-a nos olhos. E assim sem dizer nada, seus dedos foram tocando os dela...
A garota sentiu-se estranhamente completa. Ela nem se quer estava mais gelada.
Apenas um pensamento ecoava, insistente, em sua cabeça:
“O que falta às pessoas é o toque.”
Acordou meio sobressaltada com o trem chegando à estação, fechou o livro e desceu dirigindo-se ao encontro da amiga.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

[ ]



- Pry, você tem alguma coisa pra fazer no intervalo?
- Não nada.
- É que faz tanto tempo que a gente não conversa...
- É verdade.
- Eu sinto tanta falta dos nossos “papos furados”, Pry!
- Eu também.
- Podemos passar o intervalo juntas então?
- Claro que sim, vai ser ótimo!
*

- Então, Pry, é isso que está acontecendo.
- Vixi, Marina! Nem sei o que dizer, eu sempre achei esse menino muito estranho, você sabe.
- Aiiii, Pry... calma que ele tá vindo aí.
- Ahahaha, essa é boa! Quem tem que ficar calma é você!
- Oi linda!
- Oi Paulo. Esta é a Pry, minha amiga.
- Oi, tudo bem?
- Tudo.
- Nossa Má, o que você fez? Seus olhos estão diferentes.
- É a maquiagem.
- Tá lindo! Você deveria fazer sempre. Pensando bem, sempre não, só às vezes, pra mudar um pouco! Não acha?
- Acho, acho. – a Pry respondeu fazendo força para segurar o riso.
- Tá indo pra aula de quê?
- Matemática e você?
- Nem sei... que aula a gente tem agora, Pry?
- Num lembro.
- Putz é mesmo, eu tenho muita coisa para resolver antes da aula, melhor eu ir.
- Vai lá.
- Beijo.
*

- Ahahahahaha
- Que foi, Pry, tá rindo do quê?
- Ah, Má, você vai ter que me desculpar, mas é ridículo!
- Ah, que bom! Agora você tá caçoando de mim!
- Não é de você.
- Do que é então?
- Dos dois.
- Eu pensei que você fosse minha amiga, além de rir de mim, também tá rindo do Paulo, por acaso não acabei de te contar que estou apaixonada por ele?
- Eu sei, Marina, por isso que pedi desculpa, mas tenho que ser sincera...
- ...
- A forma como vocês dois agem um com o outro é, no mínimo, estranha: vocês travam!
- Achei que fosse só eu. Então você acha que ele também fica sem saber o que dizer na minha presença?
- Você deve estar brincando... “devia fazer isso sempre, ou melhor, só de vez em quando pra mudar um pouco, não acha?” ele parecia mais um consultor de moda!
- Ah, Pry, não brinca assim não.
- Não estou brincando, ele perdeu totalmente a noção do ridículo com você!
- É uma relação estranha mesmo, eu tenho que admitir.
- Exatamente isso.


*Escrito em Agosto de 2006

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Fiz um apanhado de antigos textos meus, os que eu julgar que vale a pena, postarei aqui nos próximos dias, as postagens referentes a estes textos levarão o marcador "textos antigos".
O pequeno conto a seguir foi escrito no segundo semestre de 2006.
***
(Des)encontro

- Ops... Desculpa... Ah! Oi tudo bem? Não vi que era você...
- Tudo bem, e com você?
- Tudo.
- Quanto tempo! O que anda fazendo da vida?
- Nada de mais, só o de sempre!
- Saudade...
- Também estava.
- Você está linda como sempre!
Eu tremia como que em febre, quando ouvi esta frase meu coração disparou... senti um calafrio, meus pés saíram do chão... seus dedos tocaram meu rosto, eu estava imóvel, ele colocou meu cabelo, que caía displicentemente pela face, atrás da orelha...
- Imagina! São seus olhos.
Eu estava mais atrasada do que antes, subi as escadas correndo, com o coração batendo ainda mais rápido, cheguei na sala, abri a porta ofegante:
- Professora, posso entrar?
- Atrasada de novo? Pode entrar, mas vai ficar com falta nesta aula.
- Tudo bem professora, prometo que não vai mais acontecer!
Eu fiz tal promessa sabendo que não iria conseguir cumprir, sempre tive problemas com os meus horários, não por falta de responsabilidade, mas porque o tempo é algo que sempre fugiu ao meu controle, algo muito influente que eu nunca entendi direito.
Mas eu não estava preocupada com promessa nenhuma, nem com aula nenhuma, naquele momento eu só conseguia pensar em uma coisa: aquela boca que há pouco esteve tão perto da minha...
- O que aconteceu Marina? Você está pálida!
- Você não vai acreditar...
- O que o Paulinho fez desta vez?
- Ah não, Pry, eu sou tão transparente assim?
- A verdade?
- ...
- É!

terça-feira, 10 de junho de 2008

Que gosto tem o mel?


À Helô, minha mais nova querida amiga de todas as horas


Encho minhas narinas com o ar de um novo dia.
Não está ensolarado hoje, mas é bom poder respirar este ar.
Sento-me aqui nesta cadeira porque senti necessidade de falar sobre o que sinto. Ontem à noite voltando da faculdade pensei em escrever, mas já era muito tarde e eu estava exausta.

O meu coração anda batendo tão acelerado, só pode ser estresse...
Hoje quero abrir mão das metáforas que eu tanto aprecio, da linguagem poética, do vocabulário rebuscado, quero falar do que sinto. E o que sinto é tão simples, seu sentido está neste ar que eu respiro, não em palavras sofisticadas, por isso talvez seja tão difícil falar sobre sentimentos.
Entender é que é difícil. E às vezes dói, ontem à noite doeu.

É bonito, tão bonito que dói. Mas também é esquisito, triste. Eu não sei, mas queria saber.
Já desisti porque nunca consigo, embora no fundo, eu saiba que a resposta está muito perto, o que geralmente faço é fechar os olhos para ela, mas quem não faz isso?
Eu estou insegura e totalmente rendida, não é fácil admitir a impotência diante de mim mesma, “mentir para si mesmo é sempre a pior mentira”, por outro lado, é difícil lidar com a verdade, seja ela qual for. Quem diria, logo eu que sempre abominei a mentira! Surpreendo-me mentindo (mais uma vez!).
Nos olhos dele há uma ternura tão grande, não é possível que só eu perceba o quanto ele é um homem solitário. E não precisei conhecê-lo para saber disso, percebi no primeiro momento que o vi. Olhar para os olhos dele me desconcentra e mexe profundamente comigo, pensei inclusive em não encará-lo de frente, mas desisti da idéia, não sei por que, é melhor olhar do que não olhar. De qualquer forma, essas atitudes denotam certo medo, eu acho. Mas é que naqueles olhos não é difícil se perder, olhando para eles ontem viajei para longe, muito longe. Era um lugar onde tocava música, MPB, como ouço agora. Durante todo o tempo meus olhos não o deixaram, mesmo quando eu não olhava para ele, podia vê-lo, eu sempre o observo.
Ele não é bonito, talvez até seja, mas não no meu estilo (a estas alturas, já não sei mais se tenho um), não sei dizer o que vejo quando olho para ele, quem sabe eu não veja, apenas sinta.
Gosto do movimento de seus lábios enquanto fala, gosto do formato de seus dentes, mas principalmente adoro tudo o que o que vem de sua boca, cada palavra! Confesso, antes não era assim.
Ele não é atlético, mas tem um corpo simétrico, gracioso, bonito de ver, e o estilo de quem não está nem aí para a roupa que veste: “Danem-se, pensem o que quiserem de mim!”. *

Observo sua leitura compenetrada. Penso na pessoa que está ali sentada, no pai, no filho, no homem, no intelectual. Transporto-me para outra dimensão, uma realidade só minha, onde a gente caminha pisando no céu, neste lugar os sonhos são possíveis e as loucuras verdadeiras, vividas intensamente, sem medo. Lá não há correntes amarrando meus pulsos e eu posso abraçá-lo, é um sentimento puro, sem interesse. Eu sinto seu coração batendo, há alguém ali, alguém humano, não superior, mas imperfeito, como eu. Um estalo me traz de volta à realidade.* Parece interessante o que ele lê, está ali: “o que será que ele está pensado?”
Há tanta expressão em seu rosto, mais do que em qualquer outro. Tudo nele me atrai. São vontades estranhas que sinto quando olho para ele, quando o ouço falar, a voz, o vocabulário, o jeito... eu quero rir e chorar ao mesmo tempo, como se fosse possível. Mas não. Eu posso afirmar que não estou apaixonada, imagina, nem poderia! Se me apaixonasse, seria paixão e só, é um sentimento que já me é familiar, muito familiar, algo que fica aqui dentro um tempo, aumenta e depois vai embora. Mas dessa vez é diferente, eu sinto e não sei o que, mas vai ser só para mim.
O tempo passa numa velocidade inacreditável. É um tempo surreal, não cronológico. Tudo remete ao fim, parece que essa noite está doida para ir embora e me deixar, há ansiedade no ar e em alguma coisa na voz dele, isso me deixa com raiva, muita raiva. Mas isso já é uma outra história...*
A imagem da sala escura, ele sentado, a perna cruzada, a mão no joelho, esta imagem está aqui dentro e eu vou levar comigo para sempre (até que acabe), seus olhos e seus olhares, seus sorrisos (ele tem vários!), sua boca e o mel. Há mel em sua boca, mas eu acho que é um mel amargo.
Enquanto viajo em sua imagem e penso no gosto que tem o mel, tudo parece fazer sentido bem na minha frente. Mas aqui onde eu estou nada faz sentido.*
Está tão perto, mas está tão longe.
Pelo menos sei que este ar que respiro sai de sua boca, respiro o movimento de seus lábios quando ele fala. Eu poderia beijá-lo (e saber se o mel é mesmo amargo), mas só em pensamento.

**Escrito em Maio de 2008**

terça-feira, 20 de maio de 2008

Serespaperconfi

Maria, Maria. Sempre Maria! Ela era uma garota não muito bem sucedida no amor. Qualquer semelhança com a realidade... (o conto segue nos próximos três posts)



Maria nunca foi muito bem sucedida no amor.
Tanto que um dia chegou a acreditar que estava destinada a ficar para titia.
E ficou, já foi tia antes mesmo de ter idade para namorar.
O primeiro amor de Maria fez xixi na calça no meio da aula. Depois disso a garota desencantou, mesmo a culpa sendo da professora que não o deixou ir ao banheiro.
***
O segundo era um menino lindo, de olhos verdes. Bruno. Acho que ele era meio preconceituoso.
Maria era morena, sabe? Morena-jambo. Ela sempre acreditou que estes eufemismos mascaravam certo racismo.
O Bruno também não serviu.
***
Depois veio o André. Ele não era bonito, não era bom aluno e quase sempre ia para a diretoria por mau comportamento.
Acho que era por isso que ela gostava tanto dele.
***
O Sérgio era popular na escola e ela nunca se esqueceu de seu rosto. Nos intervalos das aulas, suas amigas ameaçam contar a ele sobre sua paixão. Maria nunca tomava seu lanche no recreio, ela costumava passar o tempo todo escondida no banheiro.
***
O Thiago era um grande amigo. Eles viviam conversando. Ele tinha as bochechas mais rosadas que Maria já havia visto. Foi a primeira vez que a garota sentiu o coração bater forte só de olhar para uma pessoa. Ela estava com medo de que estas palpitações que vinha sentindo fossem doença e, percebendo que elas surgiam sempre ligadas à imagem de Thiago, decidiu romper a amizade.
***
Foi assim que passou a reparar no José Carlos, mas ele era filho de professora, não se interessaria por ela. O José Carlos, além de muito inteligente, gostava da Monise que, aliás, era a melhor amiga da Maria.
***
O Diego era da sexta série, ela da quinta.
O mais gostoso em gostar do Diego é que a garota podia dividir este sentimento com a sua meia-irmã, Sandra. A Sandra também estava na quinta série e gostava do Juan, que era da sexta.
As duas passavam o tempo todo falando sobre seus amores impossíveis.
Sandra escrevia poemas, mas nunca os entregava.
Maria desfilava nos intervalos esperando um único olhar de Diego.
Um dia Sandra decidiu entregar os poemas.
Sandra e Juan ficaram juntos.
Maria continuou desfilando para Diego.

Miltinho era do bairro, ele não parecia ser “boa coisa” - era o que a mãe de Maria costumava dizer. Ele era moreno e atlético e sempre “mexia” com ela quando passava.
Ele gosta de mim! – a garota pensava.
Ela sabia onde encontrá-lo e quando o via, ficava feliz.
Apesar disso, ela não o procurava, e o máximo que fizeram foi trocar olhares pelas ruas do bairro. Depois de algum tempo, ela não mais o viu.
***
Maria não era precoce como as outras garotas do colégio e por isso na sétima série era considerada aberração por nunca ter beijado ninguém.
A sétima série foi difícil em vários aspectos para ela. Entre eles, talvez esteja sua paixão pelo Nilson, a quem, carinhosamente, chamava de Nilsinho. O Nilsinho era do segundo ano e vivia rastejando – como ela costumava dizer- atrás de uma loira que não ligava para ele, que por sua vez, não ligava para Maria.
O mais insuportável nesta história, além da paixão não correspondida, era ter que agüentar o chato do irmão do Nilson, que vivia dizendo à garota: “Até parece que o meu irmão vai se interessar por uma garota como você, não vê que você é feia?”.
Maria fingia que não se importava e seguia em frente.
Ela nunca esqueceu o Nilson.
***
Foi quando surgiu o Bruno. Outro Bruno.
(Brunos e Andrés é o que não falta mundo, eu, particularmente, conheci vários.).
Ela se interessou por ele logo no primeiro dia de aula. Ele estava sempre junto com a Beatriz, Maria chegou a acreditar que eles eram namorados. Tão logo os quatro se tornaram amigos (Bruno, Beatriz, Maria e Carol, amiga antiga de Maria), como deveria ser. Não demorou para a garota descobrir que Bruno e Beatriz não namoravam e menos ainda para que os dois (Bruno e Maria) se tornassem amigos íntimos.
Um dia ela decidiu contar a ele sobre o que sentia. E antes mesmo de darem o primeiro beijo, já estavam namorando.
O namoro durou quatro dias.
Depois de algum tempo, Maria ficou sabendo que Bruno era gay.
No cursinho preparatório para a escola técnica, Maria “conheceu” o Murilo. Conheceu assim mesmo entre aspas, porque ela nunca o conheceu de verdade. Mas também nunca sentiu algo que se assemelhasse tanto ao que julgava ser amor, quanto sentia por ele.
Foi apenas um mês e ela nunca falou sobre isso, exceto com as meninas com quem costumava conversar.
Depois que o curso acabou, Maria julgou que nunca mais o veria, mas, para sua surpresa, o encontrou algumas vezes no ônibus. Maria sentiu vontade de falar, mas não falou.
***
Era tudo tão novo para ela - um mundo paralelo - esta nova escola.
Havia, na garota, certa “urgência”, nova escola sempre traz novos amores e dessa vez ela tinha certeza de que daria tudo certo. O príncipe viria, num cavalo branco, finalmente.
Uma das pessoas da nova turma com a qual Maria mais conversava era Cláudio. Ele dizia que em menos de seis meses ela estaria com um cara legal. Não demorou para que a garota se apaixonasse por ele. A Paty também gostava do Cláudio, elas conversaram e Maria resolveu que seria melhor contar ao garoto.
Foi difícil como nunca falar sobre seus sentimentos.
Depois de ouvir, Cláudio passou a ignorar a garota.
Com o tempo, eles se tornaram grandes amigos. E ela já não sabia mais o que realmente sentiu um dia.
***
O nome “Renato” remetia Maria a coisas boas. Lembrava música boa, seu compositor favorito.
Mas este Renato não era o que se podia chamar de "cara legal".
Era bonito. E só.
Bem que sua amiga, que era da turma dele, tentou ajudar. Mas acabou atrapalhando.
Eu faço este favor a ela – disse ele.
Maria sentiu vontade de cuspir na cara dele.
***
Dos amores da garota, Júlio, sem dúvida, foi o mais intrigante.
Havia mistério em seus olhos... sombra. Ele, certamente, era diferente da maioria das pessoas com quem Maria estava acostumada a se relacionar. Ela precisava explicar o que de tão inexplicável exprimia-se através daquele olhar, sempre tão dúbio, acintoso.
Era manhã e o sol refletia em seus cabelos claros e uma luz particularmente especial minava de seus olhos cor-de-mel. Foi então que Maria soube que precisava descobri-lo. Mas descobriu demais...
Ele era absolutamente igual aos outros.
Esqueceu. Não, não esqueceu, tentou sufocá-lo em beijos apaixonados...
Maurício surgiu como o príncipe que Maria imaginava. Prometeu-lhe amor eterno. E por isso ela acreditava que gostava dele.
Na verdade acho que ela gostava é de saber que ele estava ali. Ou gostava mesmo dele?
O fato é que acabou. E não poderia haver motivo mais banal.
Mas que banalidade é esta que destrói um amor eterno?
Não está mais me fazendo bem estar com você, é melhor terminarmos. – ela.
Também acho. E é melhor pararmos por aqui se quer que ainda reste amizade. – ele.
Uma semana depois, ele estava "se pegando" no granado da escola com uma ruiva pedante.
***
O Daniel surgiu assim como desapareceu, do nada.
Ele dizia que não queria compromisso, que já tinha se decepcionado muito e por isso nunca mais iria envolver-se com alguém.
Maria jurou que também não se envolveria, não dessa vez.
O Daniel sumiu, mas, alguns meses depois, a garota soube que ele estava namorando sério.
***
Muito tempo passou. Maria estava mudada, não era mais uma menininha, via o mundo com outros olhos.
Mas em sua bagagem estava toda esta história, um trauma, talvez. Mas não, ela não gostava de pensar assim.
Certa vez ouviu de sua tia que as mulheres da família estavam condenadas a uma maldição: ficar sozinhas. Fazia sentido. Avó e tias viúvas, mãe divorciada, primas solteironas.
Parecia que a garota trazia em si uma marca, como tatuagem.
É o que dizem: Azar no amor, sorte no jogo.
Não tardaria para que Maria enriquecesse.
Certamente, em breve, ganharia na loteria.