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terça-feira, 1 de setembro de 2009

Poema de Agosto

O oco continua ecoando
Preenchendo o buraco interior do corpo
Mais uma tarde inane de agosto

O sol continua batendo na janela
E ainda nem conhecemos o dia
Mais uma tarde desperdiçada de agosto

A música continua tocando no rádio
Mas ninguém parece escutar
Mais uma tarde surda de agosto

A mesa continua cheia de papéis
O trabalho continua sem sentido
A gente continua se sentindo
Um tanto - completamente - fora do lugar
Mais uma tarde angustiada de agosto

A gente continua sem vontade
(sem parar) Continua
Mais uma tarde repetitiva de agosto

A cadeira ao lado continua vazia...

Mais uma tarde solitária de agosto

O coração continua batendo, cansado
Mas não a ponto de parar
E a gente vai levando...
Mais uma tarde enfadonha de agosto

Um torpor profundo continua devastando o ser
Pesando os membros
Fazendo cair as pálpebras
Sufocando os pulmões
Mas a gente continua respirando

O eco continua soando oco no espaço...

Tum-tum. Tum-tum. Tum-tum.

Mais um coração batendo errante, procurando sentido
Em mais uma tarde perdida de agosto

Continuamos presos antes do primeiro passo
enquanto o tempo passa
Deixo de sentir o gosto do que gosto
Não passo de ser vil
para servir
Mais uma tarde de agosto que não passa...
Desperdiço um tempo que não sobra para aprender
Não sei nem se quer de mim
Sei apenas que Agosto
não gosta de partir.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009



"Eu 'acho' que tenho certeza daquilo que eu quero agora, daquilo que mando embora, daquilo que me demora."

(Criado mudo, O teatro mágico)


Não existe verdade, o que existe são pontos de vista. Devo concluir, então, que a dúvida é mais sensata do que a certeza. Ainda assim, dúvida e certeza disputam um lugar no âmago do encontro.


Ei, você, vem conversar comigo?
Venha. Mas venha inteiro.
Não traga apenas corpo, traga alma.
Traga palavra.
Palavra é espelho.
E se a palavra cala, não se preocupe, a falta também fala.
Silêncio é espelho.
Se me permitir, posso ver através de você
Com olhos transcendentais,
enxergo o que está por trás de sua pele rígida,
endurecida pela dor.
Enquanto olho-te nos olhos,
uma linha invisível que sai dos meus
forma, contigo, uma metafísica e incontestável intersecção
Encontro a mim no mesmo instante que encontro a ti,
em algum ponto do espelho entre e em nós.
Assim, me constituo no espaço entre o eu e o outro
Espaço que a palavra abriu para nós
Sou aquilo que me diz
Diferente, todavia, daquilo que escuto,
Portanto novo.
E aquilo que não diz,
Cala.
Mas ainda sou capaz de ouvir com outros olhos
Meus olhos transcendentais.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Parto-me


As amarras ferem cada vez mais
Os pulsos sangram hemorragicamente,
Enquanto estas pesadas mãos em minha boca
sufocam o grito!
Preciso encontrar a válvula,
Senão a panela explode!
Deixa sair o ar, devagar...
Deixa sair o ar.
Deixar escapar a pressão
Deixo.
Não!
Bum!
Vai ao ar
Perco as rédeas de mim
Cavalo alado, atinge as nuvens
E quando volta ao chão
Já não é mais o mesmo
Pois agora conhece os perigos dos céus.
Quando volto ao chão, estou nudado, estou perdido

Leve-me de volta para mim!

O relógio continua produzindo seus barulhentos tic-tac's
Depois...
O silêncio
E então o sono.
O tempo opera milagres.
O tempo conserta.
Será?
De volta ao controle
A panela vai ao fogo "como antes"
E então?
...Pressão...
A pressão nunca pára
Ou pára, mas só quando o fogo apaga
Por ora a chama está alta,
pelos menos até onde os olhos enxergam
E se a válvula não estiver boa?
Cuidado!
A panela explode...
Bum!

"Leve-me de volta para mim".

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Só mais um... (grito!)

*Sufocado. O mais fraco soluço do mais fraco.*

Nós pequenos
Que vivemos à sombra de gigantes
Sofremos pela imperfeição
que são os filhos de Deus
Graças à Eva tudo é como é
Será?
É fácil culpar os outros
E abster-se de toda a responsabilidade
E assim caminha a humanidade,
Ouvindo os ecos (des)ordenados
Da classe superior:
Preto quando não caga na entrada, caga na saída
E os brancos, não cagam?
No mínimo são entupidos

Esses estúpidos
Só não vê aquele que não quer

Eu não sou uma máquina,
Falhar é inevitável
Perfeição?
Deixe de querer ser deus
Você não é.

Deixe de querer possuir o controle de tudo.
Me diga por que estou tão triste.

A culpa é de quem?
Repressão?
Opressão?
Outro dia me perguntaram a diferença,
Nem pensei, respondi: que importa?
Sufocação!
A pior cobrança começa dentro.
Estas correntes envolvem o meu corpo
E não me deixam viver plenamente.
Estes parafusos em meu sorriso
Imitam uma certa felicidade.
Só é feliz aquele que é livre!
Eu, ainda menino, ouvia ao fundo as palavras da catequista:
Sua liberdade termina onde começa a do próximo.
Mas que liberdade é essa?
Eu não conheço.
E dou um beijo em quem disser que é livre.
Estranho é ver as pessoas buscando felicidade
No meio de tanta sujeira
Os ricos são felizes?
Minha mãe tem nojo do dinheiro.
O ditado diz:
Dinheiro não traz felicidade, mas compra.
Ouça. mais ecos...
...Ignorância...

Sempre vem de baixo?
Enquanto isso, crianças tocam violão no pátio
E cantam uma canção qualquer
É lindo ver a esperança
Que há na juventude
Jovem e cheia de vida!
Feliz?
Lá vem a inspetora.
“Vocês não podem cantar aqui,
estão atrapalhando a aula.”


Escrito em Janeiro de 2008

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Séria Demais


"A arte de escrever sem pensar”


Estive pensando...
meus textos são sérios demais.
Só tenho dezoito
e penso demais.
Penso.
É tudo tão atemporal,
até minha forma de pensar.
E a vida é uma ilusão.
Uma brincadeira
Onde cada momento se perde
na brevidade do piscar.
Quem dera meus olhos fossem as lentes de uma câmera
E que tudo, cada detalhe, ficasse registrado.
Quem dera a vida parasse para curtir o momento.
Quem sabe aquele tempo em que fui feliz (e não sabia)
não teria ido embora...
Mas quantas vezes fui feliz?
Todo dia, pelo menos uma vez.
E quando fecho os olhos,
lembro- me daquela poesia
Ou das palavras soltas pela sala
itinerante do museu da língua
Ou da voz suave daquele cantor
Ou do rodopiar da bailarina
Da conversa descompromissada com as amigas
Das risadas sem motivo
Ou das aulas de psicologia.
E se a vida parasse naquele momento
Em que seus olhos cheios de ternura
diziam que gostavam de mim?
E você, tremendo todo, pálido, parecia sincero
E pela primeira vez eu senti que podia ser amada.
E se a vida parasse no momento do primeiro beijo?
Ou no fim daquele filme que falou à alma,
Ou quando eu olhava para você?
E quem sabe a vida não parou, realmente...
Eu penso demais e sinto mais ainda
O mundo inteiro é feito de impressões digitais
E quanto mais escrevo e penso a vida,
mais percebo que o registro não se registra
A gente só sabe sentir.
Quem dera pudéssemos elevar
cognições à amplitude de sensações.
Pensamentos são apenas pensamentos.
Rabiscos na folha são apenas rabiscos.
E desisto, não dá para dividir com você
E vice – versa.
Escrever é sério demais.
Mas não desta vez...
E a frase vem à cabeça,
os dedos apenas correm pelo teclado sem pretensão alguma
E então assumo a minha idade.
Hoje escrevo, mas sem pensar.

*Escrito em 08 de Setembro


Ocorre-me agora:

A seriedade faz fronteira com o surto.

Todo excesso é patológico.

Um sopro esclarecedor ecoa em meus ouvidos...

"A vida não pode ser levada tão a sério"

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Medíocre



À Rafael Nunes, o poeta anônimo


Eu sou poética demais
Para gostar do concreto
Números são (exatos) demais
Enquanto palavras são (imprecisas) de menos
Eu sou sentimental demais
Para compreender a lógica
Não há espaço para filosofia
Quando o coração está repleto.
Prefiro pensar com o coração
Limito-me a isso
Assim como minha poesia é limitada,
Pois meu ser é simples
Simples existência sem razão
Em meio à multidão sem chão,
Correndo às voltas (sem intenção), na imensidão
Multidão, sem expressão
Presa a mais números (o que já são).
As horas passam... Apenas unidades de medida.
Eles te controlam.
Vida?
É esta a vida que temos.
E nada mais.
Nunca devo ter problemas com o tempo
Aquilo que dita o que você é: Seu saldo bancário
Quantos diplomas você tem?
Quantas horas - extra trabalhou?
Estes são os registros gerais da ignorância humana
Que classificam pessoas com código de barras
Não admito ser mais 1 número
Que ironia, já sou
Nasci em seis do quatro
e ganhei uma certidão por isso
Tornar-se-á o registro um arquivo
E estes números, pó,
No fim.
Por ora, dedico - me a ser quem sou
E a fazer o que faço.
Fui inspirada (a escrever) por um poeta anônimo
Mais um Zé - Ninguém falando para ninguém ouvir
Ele nem se quer tem idade para votar
Mas é muito mais gente do que muita gente grande por aí.
Talvez eu não devesse fazer o que faço
Mas sempre que tento fugir,
sou levada, forçada a continuar...
e gosto!
Pronto
Admiti.
Assinei a minha condenação,
Não vou mais negar, não quero mais mentir
Sou uma pessoa de palavra
E confesso
Respiro poesia, durmo poesia, almoço poesia
Vivo poesia
E isto é tudo o que importa para mim, neste momento
São estas raízes
São as raízes de minha vil existência cravadas
na abstratez das palavras.


*Escrito em Novembro de 2007

terça-feira, 24 de junho de 2008

Identidade


Às queridas Helô e Evanda, pelas visitas ao circo, ao museu e, principalmente, pela companhia neste semestre

"[...] Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero há calma e frescura na superfície intacta. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consuma com seu poder de palavra e seu poder de silêncio [...]"


***

Ouve sem ouvir, está dentro.
Chiu! Cala! Ouve.
Fala, mas sem dizer nada.
Pensa.
Este emaranhado aí dentro é você (que grita)!
Senta e lê Drummond.
Penetra. Pensa.
Está aí. Em você.
Põe pra fora.
Escreva.
Diga
O que quiser.
Deixa sair o som.
Trace as linhas.
Não precisa,
apenas
pensa!
Guarda.
Esta marca vem do ventre materno.
E a pele tatuada atravessa o tempo
Enruga,
recria as figuras em si.
Com a tinta mais colorida, pinta todos os berros do mundo
Todas as canções
Todas as poesias
Deixando o rastro das cores
não na pele do homem, mas na epiderme da Terra.
Circula pela corrente sangüínea.
Ele cala.
Mas sua voz ecoa
eternamente
mente...
mente...
mente.
Mas não continua estática.
Modula, modelo, modela.
Neologismo.
E estes novantigos fonemas desconexos
Saltam, se beijam.
São seres.
A possessão.
Veja como elas te possuem
Aliás, vocês possuem-se mutuamente.
Pára e contempla esta maravilhosa
Inversão de papéis:
Ela penetra você.
Acintosamente sopra desconhecidos símbolos em seu ouvido.
Mascara-se, transforma-se.
Te seduz...
e te provoca.
Fecha o livro.
Atordoado de sentido.
Senta para não cair.
E procura a chave.
Palavra s.f. 1. Fonema ou grupo de fonemas com uma significação; termo, vocábulo.
2. Sua representação gráfica. 3. Manifestação verbal ou escrita. 4. Faculdade de expressar idéias por meio de sons articulados, fala. 5. Modo de falar.
Questiona o Aurélio
retoricamente.
Será?

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Existência Extraterrestre


O que o ser humano mais aspira é tornar-se um ser humano.
Clarice Lispector


Marcianos invadem a Terra.
São os marcianos que invadem,
Ou nós que somos os marcianos na Terra?
Por que olho no espelho
E não me reconheço mais?
Sou a sombra do que fui um dia
Ou estou me tornando uma pessoa?
Toca Raul.
Eu sou uma metamorfose ambulante
E isso assusta.
Quando foi que aconteceu?

Quando?
Fui abduzida pelos extraterrestres da Terra
E eles alimentam-me
De uma imundície
Que me embrulha o estômago,

Prejudica-me a saúde.
Estamos todos à mercê deles,
Estamos à mercê de nós mesmos.
Porque somos assim
E aceitamos sê-lo!
Continuo em mutação.
Metamorfose ambulante.
Não quero me tornar um deles:
Capturar a sua alma
E manipular o seu cérebro,
Controlar os frágeis, iguais a mim;
Impor as minhas leis.
Matar a esmo,
E rir sobre o sangue em minhas mãos.
E o espírito num frasco.
Não faça chorar.
Jogue, mas não sem antes examinar:
O bumerangue sempre volta pra você.
Quisera eu viver em Marte!
Pego minha nave espacial
E me mudo para lá.
Quem sabe, eu encontre vida em Marte.
Quem sabe (?)

Encontre gente.
E sorrisos menos pérfidos
E vidas menos oprimidas
E almas menos segregadas...



*Escrito em Janeiro de 2008*

terça-feira, 13 de maio de 2008

Permita-me um instante de êxtase

à alguém que (sem saber) tem me ensinado muito

Será que posso ter o meu momento agora,
Meu instante etéreo de arrebatamento?
Eu preciso beber desta fonte,
As águas que escorrem pelo teu punho.
Cada sílaba, cada ponto e vírgula
(ele não deixa de pingar os is).
E eu amo cada palavra que vem dele.
Me deixa?
É meu instante poético do qual eu não abro mão.
É bonito e toca fundo como nada jamais me tocou
Nem os versos de Drummond,
Nem a prosa de Clarice.
Ele não é poeta, talvez nem seja escritor.
Ele não possui a escrita,
É a escrita que o possui
(E por meio dela, ele possui a mim).
E é tão intimista, tão reflexivo,
Tão purista.
É meigo.
É um tapa na cara.
É tudo junto.
É tudo ao mesmo tempo.
Já passou.
É agora
(Tão bonito que dói).
E me pego sonhando de novo...
É o pássaro branco que chega afrouxando as amarras de minha alma
É o coração que pode bater com a intensidade que bem entender.
Assim, percebo a importância das relações.
Foi o Tom quem disse
“É impossível ser feliz sozinho”.
Ser feliz (é possível?)...
São raros estes encontros realmente verdadeiros
em nossas vidas.
Ironia.
Os desencontros são tão comuns!
Mas tudo é sempre muito relativo, não é mesmo?
E ele ainda diz que não quer confete.
Respondo: À ti nada mais tenho a oferecer, senão aplausos.