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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A saída

Esta manhã notei que há muito tempo não sonhava. A ficha ainda não caiu muito bem, mas o medo e o vazio já começam a bater na porta. Apesar de alguns dizerem que é o começo, outros o meio, é, na verdade, o fim das coisas o momento mais complicado, mas também o mais libertador.
Hoje acordei às 10:15 com o despertador tocando. É claro que não precisava, mas acho que há anos não sei o que é acordar espontâneamente. Mal acordar e já enfrentar a correria da cidade, o mundo todo despertando e se dirigindo para o trabalho (como zumbis). A imensa maioria triste, insatisfeita, cansada. Eu estava cansada.
Que bom atualizar o anti-vírus, encontrar de novo as páginas azuis do orkut, marcar consulta médica para o horário que bem entender. Que bom abrir o Word e voltar a escrever, ir de van pra faculdade, não perder mais aulas, nem chegar atrasada. Que bom poder de novo ser eu. Poder de novo pensar e sentir como eu. Não como máquina, não como assalariada. O trabalho cega, sufoca, aliena. Marx estava coberto de razão. É uma pena que nem todos o conheçam. Se conhecessem, talvez fossem capazes de enxergar o problema. Talvez tivessem força para vencer o medo, para ser subversivo. Talvez não.
Me dê apenas um motivo para fazer o que não gosto em troca de dinheiro.
Não havia mais motivos. E fiz a minha escolha. Agora aproprio-me de novo de mim mesma. Estou novamente livre para pensar! Posso agora dormir sem ter hora para acordar. E partir de agora, quem sabe, possa voltar a sonhar.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A construção primeira do eu


Do que eu sempre julguei que sabia e queria, restou algo que, inevitavelmente, seria o início de tudo que hoje penso que sei e que sou.
Quanto ao futuro, eu ainda temia estar errada...
Sorte é perceber que este "algo" é, indubitavelmente, o que me possibilita, hoje, dizer: eu nunca fui tão eu quanto sou agora, desde então.
Quanto ao futuro, ainda temo estar errada...



"O saber é um trabalho. Por ser um trabalho, é uma negação reflexionante, isto é, uma negação que, por sua própria força interna, transforma algo que lhe é externo, resistente e opaco. O saber é o trabalho para elevar à dimensão do conceito uma situação de não-saber, isto é, a experiência imediata cuja obscuridade pede o trabalho da clarificação. A obscuridade de uma experiência nada mais é senão seu caráter necessariamente indeterminado e o saber nada mais é senão o trabalho para determinar essa indeterminação, isto é, para torná-la inteligível. Só há saber quando a reflexão aceita o risco da indeterminação que a faz nascer, quando aceita o risco de não contar com garantias prévias e exteriores à própria experiência e à própria reflexão que a trabalha."

(Marilena Chauí, Cultura e Democracia)


terça-feira, 24 de junho de 2008

Identidade


Às queridas Helô e Evanda, pelas visitas ao circo, ao museu e, principalmente, pela companhia neste semestre

"[...] Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero há calma e frescura na superfície intacta. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consuma com seu poder de palavra e seu poder de silêncio [...]"


***

Ouve sem ouvir, está dentro.
Chiu! Cala! Ouve.
Fala, mas sem dizer nada.
Pensa.
Este emaranhado aí dentro é você (que grita)!
Senta e lê Drummond.
Penetra. Pensa.
Está aí. Em você.
Põe pra fora.
Escreva.
Diga
O que quiser.
Deixa sair o som.
Trace as linhas.
Não precisa,
apenas
pensa!
Guarda.
Esta marca vem do ventre materno.
E a pele tatuada atravessa o tempo
Enruga,
recria as figuras em si.
Com a tinta mais colorida, pinta todos os berros do mundo
Todas as canções
Todas as poesias
Deixando o rastro das cores
não na pele do homem, mas na epiderme da Terra.
Circula pela corrente sangüínea.
Ele cala.
Mas sua voz ecoa
eternamente
mente...
mente...
mente.
Mas não continua estática.
Modula, modelo, modela.
Neologismo.
E estes novantigos fonemas desconexos
Saltam, se beijam.
São seres.
A possessão.
Veja como elas te possuem
Aliás, vocês possuem-se mutuamente.
Pára e contempla esta maravilhosa
Inversão de papéis:
Ela penetra você.
Acintosamente sopra desconhecidos símbolos em seu ouvido.
Mascara-se, transforma-se.
Te seduz...
e te provoca.
Fecha o livro.
Atordoado de sentido.
Senta para não cair.
E procura a chave.
Palavra s.f. 1. Fonema ou grupo de fonemas com uma significação; termo, vocábulo.
2. Sua representação gráfica. 3. Manifestação verbal ou escrita. 4. Faculdade de expressar idéias por meio de sons articulados, fala. 5. Modo de falar.
Questiona o Aurélio
retoricamente.
Será?

terça-feira, 3 de junho de 2008

Acredito que seja notória, em minhas produções atuais, a marca que esta nova fase tem deixado em mim.
Meu olhar tem mudado de forma surpreendente a cada dia. Há, então aqui, toda manhã, uma Mara diferente...
Confesso que dou graças à Deus por estarem terminando os trabalhos, já estava sufocada, parecia uma interminável bateria de loucuras com prazo de validade. A partir de amanhã ânimos renovados para o mundo, para a agitação do dia-a-dia, para enfrentar, sem grandes fraturas, o clima sempre tão tenso do ambiente de trabalho.
Mas dou graças à Deus, também, pelas noites mal dormidas, pelos finais de semana sacrificados, por todo este estresse... cada minuto tem valido a pena.
Sempre digo que somos eternamente responsáveis pela construção do que somos. Espero, sinceramente, que eu tenha razão.
Eu nunca tive tanta certeza de estar no caminho certo.