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quinta-feira, 23 de julho de 2009

Lembranças Póstumas

Baseada no filme "Sete Vidas"


"Viver intensamente envolve, inclusive, viver a dor."



Sim. Sinto-me culpado, mas não é por isso que faço o que faço. A culpa por si só não justificaria. Faço isso pra viver, pois sei que depois de fazê-lo não haverá mais vida, não para mim.
Não quero, de maneira alguma, ser um mártir, quero apenas devolver aquilo que roubei.
Só assim poderei ser quem sou em plenitude. Desde que ela se foi não tenho sido senão um vegetal.
Não quero, de maneira alguma, ser um bom samaritano, um super herói, quero apenas suportar os dias sabendo que não cruzei os braços, ou simplesmente ignorei como a maioria.
Só assim poderei alcançar a morte com alguma dignidade, não me considerando um inválido, ou pior, um ingrato, alguém que foi agraciado com uma alma, ar, água e luz e nada ofereceu em troca.
Juro, não é apenas a culpa que me move a fazer o que faço, não quero me redimir de nada, afinal não há o que possa libertar-me de meu pecado.
Não faço isso esperando que meus atos sejam redentores, ao contrário, aceito minha pena. Todos os dias agradeço por estar sendo punido da maneira mais severa, a falta dela me mata em vida, mas eu mereço, afinal.
Quero que quando chegue a hora de partir eu não leve nada, pois não tenho nada. O que tenho não é meu.
Não quero nem sequer morrer com a consciência tranqüila, pois isso já não tenho desde que aquele acidente mudou a minha vida.
Eu fui o único sobrevivente, mas em breve as coisas irão mudar. Poderei dar vida a outras pessoas, não ligo se para isso tiver de abrir mão da minha própria, aliás, este é o plano, devolver o que não é meu.
Sete vidas desperdiçadas. Sete pessoas mortas por conta da minha imprudência, da minha ganância.
Eu que achava que tinha a vida perfeita, o emprego dos sonhos, hoje sou assombrado pelos fantasmas das sete pessoas que foram roubadas por mim, não é justo que elas tenham morrido e eu continue aqui. Mas estou, e não suportarei fechar os olhos e continuar ignorando.


Foi assim que abandonei uma carreira estável e promissora, assumi uma identidade falsa e ajudei as pessoas, mas apenas aquelas que realmente mereciam, as almas boas, dignas, corretas e que tinham esperança na vida.
Dei tudo o que tinha: bens, tempo, afeto, sangue, órgãos... queria sentir a dor que eles sentiam. Doei medula sem anestesia, pensei sobre a morte como uma presença iminente e íntima, tal como ela é para um paciente terminal.
Quase perdi, pela segunda vez, um grande amor. Assim, chegou a minha hora, salvei a mulher que amava.
A morte não é tão ruim quando ela vem para trazer vida, meu coração continuou batendo depois que parti. No peito do meu grande amor, eu estava vivo. Vivo como nunca.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Quem somos nós?



Até onde vai o poder humano? Qual é o limite entre o controle e descontrole?

Por uma questão de necessidade, diariamente, milhares de pessoas ao redor do mundo acabam por confiar suas vidas à especialidade de outros seres humanos, subjugando uma série de fatores sobre os quais nenhuma ação de nossa natureza é capaz de prever ou dominar.
Mais de 250 pessoas estavam a bordo do avião cuja rota de mais de dez horas era percorrida em grande parte num sobrevôo ao oceano Atlântico.
De fato, no que concerne ao transporte de pessoas a longas distâncias, o avião é nossa melhor ferramenta. “Mais seguro que o elevador!”. Quem sou eu pra discordar? Enfim, a questão aqui é outra. Apesar da consciência, que muitas vezes se comprova em dados, de nossa imperfeição e das falhas de nossas criações, demonstramos uma tendência à ascensão indiscriminada da prepotência que nos é inerente. Confiamos inadvertidamente em nossos produtos, em nossa ciência, desprezando o fato de que o humano e todos os seus derivados estão submetidos à operação de diversas forças que definitivamente vão muito além do que permite nossas competências compreender e controlar, ainda que co-existamos com a nossa própria ilusão de domínio das circunstâncias.
Assim, por não termos outra opção, deixamos que vidas simplesmente desapareçam pelos ares, o equívoco é justamente o oposto: acreditar que temos como dar conta disso. Não há responsabilidade pelo acidente, afinal, em acidentes não existem responsáveis. Solução não há, pelo menos não há uma que esteja ao nosso alcance.
O que é, de fato, necessidade primeira é que aceitemos o inaceitável, o impensável: há coisas (e não são poucas) que simplesmente não cabe a nós compreender, explicar e acima de tudo prover.
É assustador que uma dessas coisas seja a nossa própria existência.
Não é fácil admitir, mas todos estamos entregues à sorte, ao acaso, ao destino ou, chame você do que quiser. Na verdade o nome que se dá é o que menos importa.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Em Primeira Pessoa


Há um tempo não escrevo. Quase sempre surpreendo-me tentando encontrar o motivo. Não se trata de falta de assunto, muito menos de vontade, há tanto o que falar que nem sei!
Penso que quando a gente produz, seja lá o que for, não basta apenas uma idéia e a intenção de objetivá-la, a criação precisa ser “cuspida”. É como um parto, há que se colocar o incômodo para fora, mas não sem certa dor. Talvez por isso não tenha escrito, por medo da dor.
Cada linha escrita representa mais um centímetro no corte que rasga a pele do escritor, no fim do último parágrafo pode-se dizer que sua alma está exposta.
Quanto a mim, ando tão vulnerável que a última coisa de que preciso é abrir ainda mais o buraco que permite ver o que há por baixo de minha pele marcada. E tenho tanto medo de transparecer que acabo transparecendo cada vez mais, e a única razão para ser é que preciso disso. Eu sou assim. Cheguei a me deprimir ao pensar que talvez eu não mais escrevesse. Como se não fosse melhor assim... Me pouparia da dor.
Mas ciente de todas as dores que a escolha de minha conduta pudesse me causar, escolhi, ainda assim, a verdade. É minha sina. Essa sinceridade exacerbada que me despe diante dos olhos dos outros, essa nudez que vive a me violentar. Enfim. Eu sei que o que digo será usado contra mim, no tribunal diário do juízo alheio.
Não venha me dizer do direito ao silêncio, sinto-me sufocada é pelo dever do silêncio! Permaneçamos calados então, como criminosos.
Mas se viver de fato é crime, assino agora minha sentença. E se gritar, se me fazer notar através minhas palavras, tal como sou e penso, será a minha condenação, então já estou condenada.
Estou despida, deixo os meus conflitos, os meus sentimentos, a minha angústia para a vossa apreciação, sem medo. Eu tenho este direito! Não quero o direito ao silêncio, quero antes o direito ao grito!
É minha alma que agora berra. E quem sou eu para calar os berros da alma?

* Escrito em 02 de Janeiro de 2009

domingo, 4 de janeiro de 2009

(D)esperança

"Quem espera, desespera." - Autoria Desconhecida.

2009 é um novo ano e tudo promete ser diferente, parece ser uma oportunidade que se abre para nós, uma oportunidade de fazer tudo diferente, de consertar o que está errado, como um rito de passagem entre o que é e o que vai ser...

“mas o que vai ser não vai ser porque é um novo ano, porque são novos ares ou porque a nossa sorte vai mudar, mas o que vai ser, será, única e exclusivamente, porque nós faremos com que seja!
Os dias são todos iguais, 31 de Dezembro de 2008 não é diferente de 01 de Janeiro de 2009 e de nenhum outro dia de qualquer ano, nada faz com que os dias sejam especiais, exceto as nossas ações.

'temos todo o tempo do mundo, não temos tempo a perder. Nosso suor sagrado é bem mais belo que este sangue amargo'

A minha grande questão é: Por que esperar para que no ano que vem as coisas mudem?
Por que adiar a felicidade?

E se nosso tempo for escasso?
O tempo é ágil e hábil na arte de apagar, dores, mas também alegrias, ódio, mas também amor. Temo que ele passe e vá varrendo tudo o que hoje é bonito.
Tenho medo de que as coisas mudem, de que eu mude, meus sentimentos, porque eles são tão efêmeros, tão inconstantes, tão voláteis, que posso perder a oportunidade de me sentir como no sonho, quando tudo parece fazer sentido e, no momento seguinte, percebo que perdi a chance.
É uma pena a forma como deixamos as oportunidades escaparem, é triste...
Por nos importarmos tanto com o futuro, não vivemos o presente em plenitude. Vamos deixando, pro futuro, pro futuro, para ser melhor, no futuro.
Se no futuro vai ser ou não diferente, não importa tanto assim, o que importa, por ora é o presente, então qual a razão para não deixarmos o futuro no futuro?
Falando assim parece simples, é tudo tão bonito no reino das palavras (e é exatamente por isso que eu gosto tanto dele), pena que não seja assim no plano do real.
Mas, na minha opinião, fugir do tempo, matar o tempo, não enfrentá-lo é um gesto de covardia, porque aproveitar ou não o momento, aquele momento em que o coração bate mais forte e a mente parece fugir do controle, pode inclusive determinar o rumo de nossas vidas de forma positiva, ou causar destruição.
'Do jeito que tiver que ser, será.' Será?
Eu estive pensando em como esta 'filosofia' é passiva, covarde, afinal por que adiamos as coisas, senão por medo? O medo me parece a justificativa mais plausível para que não busquemos a felicidade. Medo de não encontrá-la.
A gente perde em não aceitar que a vida é feita de riscos e se não nos arriscarmos, talvez nunca saberemos o que é, de fato, viver... é o medo do fracasso que impede a felicidade humana, embora saibamos que o fracasso é inerente a um ser humano imperfeito.
Preciso aprender a lidar com o tempo e tudo o que eu peço é uma chance. Tudo o que queremos é uma oportunidade de viver as coisas, independente do tempo. Não vejo razão para não 'fazer no hoje' o que eu mais desejo. A única razão é a ignorância. O medo é ignorância!
Preciso aprender a lidar com o tempo, respeitar o meu tempo e o tempo do outro, mas isso tudo não parece fazer muito sentido pra mim e tenho uma razão para isso: a nossa própria finitude. Não somos imortais, e definitivamente o que eu não quero é morrer frustrada por viver dando tempo ao tempo que não temos.
Por enquanto, para mim, o Carpe Diem faz mais sentido!”

quarta-feira, 26 de novembro de 2008


Lá pelas sete o sol nasceu para mim. Era um novo dia, uma nova manhã.
O cheiro da manhã é de liberdade.
E o coração batia pela primeira vez neste novo dia. (Luz) agora posso ver novamente meu rosto no espelho...
Um segundo rosto. O sol iluminou a face dele em diagonal. E o corpo iluminado transfigurou-se em corpo luminoso.
O cheiro da luz é de liberdade.
Abro a janela do quarto e, logo ali, voando baixinho num céu azul turquesa antes nunca visto, um solitário pássaro branco. E agora descubro o quanto é frágil minha normalidade muda. Patológico?
Descubro agora que não sou boa o bastante. Que minha vida não é boa o bastante.
Fecho a janela.
O vôo do pássaro termina cedo. Às seis o sol já está se pondo.
Estou com sede, vou até a cozinha. Mas a cozinha não resolve, pois minha sede é de conceitos.
Os conceitos, as cozinhas, tudo é tão perecível e eu nem se quer preciso disso. Dessa água não. Não beberei. Mas estou com sede. Enquanto ouço uma voz lá dentro falando de preconceito. O Pré - conceito vem antes. Patológico? É dessa fonte que bebemos.
A tristeza vem antes da felicidade.
Na verdade nunca se sabe o que vem depois.
Parece fácil. Depois do Pré, o Pós. Depois da manhã, a tarde, depois da tarde, a noite. Depois da vida...
Ontem à noite eu tive um sonho. Sonhei que a porta se abriu e era exatamente quem eu esperava. Sonhei que o pássaro branco entrou pela janela e trouxe a luz da manhã. O corpo iluminado, transfigurou-se em fonte de luz.
E eu sonhei e só. Depois do Pré, o Pós. Depois do sonho, a realidade.
Na verdade a gente nunca sabe o que vem antes e o que vem depois.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Traslado


* De Corpo e Alma*

Abnegação. Algumas pessoas nascem com sorte no amor, outras não. Parece ser muito complicado, mas não é.
A única vez em que tive a impressão de que tudo estava dando certo, foi também, e não por acaso, quando senti que tudo estava meio fora do prumo.
É algo tão intocável, incolor e inodoro que só se pode pensar que não é real.
E quando, finalmente, a cegueira da paixão decide nos deixar em paz, essa perfeição toda nos apresenta sua face deformada.
Enfim, não é exatamente disto que me proponho a falar, e sim sobre aquela tal “missão” que dizem motivar esta existência, na maioria das vezes, tão esvaziada de sentido. Pois bem, não se trata de uma hipótese. Trata-se de um fato. Há certas panelas que, por defeito de fabricação ou não, simplesmente vêm sem a tampa, o que não significa que elas não sirvam para cozinhar, e tampouco se deve forçar a elas tampas que não lhes sirvam.
Não sei se me faço clara, também nem era essa a intenção.
Acontece que sinto uma coisa, hoje, pela primeira vez.
Bem-estar. Abnegação.
É possível ser feliz amando, mesmo quando você parece não ter predisposição a isso. Ora, o amor se apresenta sob várias faces, formas, conteúdos, e amar é não esperar nada em troca, muito menos amor.
Quantas as formas de ser feliz e de se sentir útil que não necessariamente recaem sobre aquela eterna busca pelo outro que, de forma mascarada, nada mais é do que a busca por si mesmo, ou por aquilo que parece completar o que falta no eu?
Às vezes o caminho destinado a você é justamente o oposto. Resignação.
Quem sabe você sinta, como hoje pude sentir, a cálida paz diante dos estranhos no espelho e entenda que é preciso ter calma. A sabedoria é um engenho. E o reconhecimento dos estranhos pode, enfim, acontecer se aprendermos novas formas de buscar.
Quando os meus olhos procuram os teus e finalmente os encontra, posso ver, em sua íris, o reflexo de minha própria imagem. Quando ouço o que você tem a dizer é como se eu que falasse, quando chora, seguro o nó na garganta e não deixo a lágrima, que nasce teimosa no canto do olho, escapar. Não posso. O forte desta história sou eu. Assumo uma postura profissional e me mantenho como uma rocha.
Mas quando você sorri, meus lábios trêmulos não me obedecem mais, acabam por revelar meus dentes, esta sou eu e para sê-lo, aqui estou. Completa, enfim.
Dentre todas as formas de amar, resigno-me e só assim sou feliz.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Hoje não escrevo


Hoje faz exatos vinte dias que não publico nada novo. Precisava de um tempo para mim. Quando escrever deixa de ser um hobby para vestir a roupa da necessidade, sinal de que algo está errado. Desde que criei este blog, há apenas quatro meses, me deixei levar por mais um vício, e então passei a postar, quase sempre, duas vezes por semana. Esgota. A mim e a vocês.
Aproveito o ensejo para expressar minha sincera gratidão pelas mais de seiscentas visitas (tá, as minhas próprias visualizações de perfil não contam!), aos que comentam e aos que apenas lêem, para estes últimos devo dizer que o fato de lerem, por si só, é uma grande recompensa. E aos comentadores assíduos, saibam que é uma honra “ouvir” o que vocês têm a dizer.
O fato é que eu já não consigo mais ficar longe deste espaço por muito tempo.
Mas hoje não escrevo. Não sou eu quem fala hoje, me calo para, junto a vocês, ouvir as palavras deste gênio da linguagem e da metafísica (e quem sabe aprender com elas...).
E dedico meu silêncio aos leitores deste blog.


*A crônica se segue no próximo post.*

Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos.

Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.
O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a maior cara-de-pau (“com isenção de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego - às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles.
Ah, você participa com palavras? Sua escrita - por hipótese - transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever O Capital é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu O Capital. Não é todos os dias que se mete uma idéia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação.


Claro, você aprovou as valentes ações dos outros, sem se dar ao incômodo de praticá-las. Desaprovou as ações nefandas, e dispensou-se de corrigir-lhe os efeitos. Assim é fácil manter a consciência limpa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação, que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua protegida pessoa, eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel.
E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado de espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia... explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar, se não nos concedem tempo para isso entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Não é redator de boletim político, não é comentarista internacional, colunista especializado, não precisa esgotar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Você é o marginal ameno, sem responsabilidade na instrução ou orientação do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Concluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não corta de verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira, assuntando, assuntando...

Então hoje não tem crônica.


Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O Livro Riscado


Tomei emprestado da biblioteca municipal um certo livro que me haviam recomendado.
Agora, com todo zelo, corro meus dedos leves por sua capa ocre onde há duas palavras escritas em letra sóbria. Lê-se seu título letárgico em vermelho.
Inicio o meu voraz passeio pelas páginas que trazem em si o amarelado do tempo.
Paro o olhar na terceira delas, onde se pode ler, acima do tombo, uma única frase escrita à mão: Livro com várias páginas riscadas a caneta 04/06/07.
Viro a página. Mergulho no enredo pintado num tom entre o amarelo e o laranja. Um estado de abatimento profundo intensifica-se em mim a cada página virada, a cada capítulo.
Neste livro não há pontos finais, apenas vírgulas. A verdade é que a vida não pára compadecida pelo seu sofrimento.
Capítulo cinco. Sou subitamente arrancada da atmosfera apática da obra novelesca por um pensamento escapista. Interrompo a leitura. Há algo secretamente íntimo unindo-me ao autor daqueles riscos traçados a tinta azul.
Os livros são rabiscos no mundo - a idéia invade meu ser surdamente.- E estes riscos em mim, ao lê-lo, encadeiam, em misteriosos anéis invisíveis, todas as pessoas que já leram este livro, que já correram os olhos por estas palavras...
As nuvens da tarde chuvosa de terça deixam o céu e eu, embriagada pela claridão da verdade (a minha pelo menos), me deixo conduzir pelos pés que antes acreditei estarem me levando à faculdade.
Já não importa mais para onde estou indo. Agora posso ver o caminho neutro do asfalto por onde meus tênis pisam firmes, causando ensurdecedores baques na avenida movimentada, portanto, penso, qualquer destino é bem-vindo.
Outro insight. Vêm à mente as palavras de Vergílio Ferreira, lidas no dia anterior: ... Era necessário que todos os homens vivessem em estado de lucidez; se libertassem das pedras, chegassem ao milagre de ver. Era absolutamente necessário que a vida se iluminasse na evidência da morte.
A máxima lembra-me: Eu deveria estar lendo Ensaio sobre a cegueira. Mas ao invés disto, leio este maldito livro rabiscado.

Os rabiscos incomodam, não?
Voltando à lucidez...
Obrigada, Raduan. Obrigada por arrancar de mim as vendas.
Penso, então, em tudo o que antecedeu e sucedeu àquele momento em que ali, chacoalhada frente à Lavoura, chego à grande evidência de uma breve existência ainda iniciante:
"A vida toda é um livro rabiscado".

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Na Gaveta da Memória




Aos amigos queridos dos quais sempre sentirei saudade


Mas... você nunca vai perder o seu lugar em mim, ainda que queira abrir mão dele.
Sabe que tudo o que temos na vida são nossas lembranças. Nós somos feitos de lembranças, tudo o que somos, toda a bagagem adquirida e tudo que aprendemos na vida fica guardado na gaveta da memória.
Não pretendo ser repetitiva ao dizer que as pessoas são insubstituíveis, mas sou levada a fazê-lo, pois elas verdadeiramente o são. Ninguém, absolutamente ninguém, é igual ao outro, e é este o grande barato da vida! E ainda tem gente que não enxerga. E pior, que não respeita. Não entro nestes méritos, o assunto aqui é outro. Estava falando de nós. Você e eu.
Pessoas como você, vêm e vão em nossas vidas, mas quando vão, não vão por inteiro, sempre deixam parcelas de si sorvidas em nós. Somos um grande aglomerado da vivência do mundo! E especialmente de pessoas que significaram mais um passo rumo a este “algo mais” do qual estamos constantemente em busca.
Repito, a despeito de qualquer outra questão humana, isto é tudo o que temos para sobreviver. Estes retalhos. Estas bolsas repletas de recortes desordenados dos quais nos apropriamos para tecer nossa própria colcha pessoal.
Daí a importância de falarmos em nós. Você nunca deixará de ser parte do que sou, mesmo não estando aqui agora. É que quero que tome consciência desta marca ao mesmo tempo tão sutil e significativa que tatuou em mim.
É por isso também que se deve dizer o que se sente e deixar sempre quem amamos ciente deste sentimento, não só com palavras, mas com atitudes, pois é assim que seremos lembrados. Tudo fica guardado na minha gaveta. E na sua também.
Tudo está definitivamente escrito na jornada do tempo, os momentos que passamos juntos (os bons e os ruins também), ninguém poderá apagá-los e nada, absolutamente nada, pode mudá-los.


sexta-feira, 25 de abril de 2008

Resposta à Lista*


*Vide Música "A Lista", de Oswaldo Montenegro



E depois de muito pensar no que se foi, descobri que o importante não é o que se foi, mas o que ficou.

***

Fiz uma lista dos grandes amigos que tinha a dez anos atrás, e descobri que eles não ficaram no passado, mas sim aqui dentro.

Fiz uma lista dos sonhos que tinha, e percebi que muitos deles deixaram de ser sonhos e se tornaram realidade, enquanto outros tiveram de ceder seus lugares a novos sonhos.

Fiz uma lista dos amores que jurei eternos e que não duraram para sempre, e percebi que eles, mesmo breves, foram eternos enquanto duraram.

Hoje me olho no espelho e não vejo a Mara de dez anos atrás, não me reconheço, sou uma pessoa nova e muito melhor, evoluída, uma pessoa que estou aprendendo ainda a chamar de "EU". Me olho na foto antiga e abro mão do que eu fui para assumir aquilo que sou, e mais do que isso, admiro aquilo que eu fui porque aquilo que fui, tornou-me o que sou.
Hoje não sou do jeito que achei que seria, mas com certeza sou do jeito que devo ser.

Quantos amigos eu joguei fora?
Nenhum, amigos são marcas eternas, são cicatrizes que nem cirugia plástica remove, eles se tornam parte do que nós nos tornamos.

Os mistérios que sondava não são mais mistérios para mim, porque eu cresci e aprendi seus significados e significantes.

E os meus segredos do passado, bobos no presente, não deixaram de ter sua importância, porque ficaram guardados em algum momento no tempo e no espaço e se removam a cada, pois fazem parte da minha história, daquilo que fui e que sou.

Aprendi a viver com as mentiras que ontem condenei, o que não significa que hoje eu as aprove, apenas descobri que as mentiras também têm contexto, assim como as verdades, a minha verdade é essa, qual é a sua?

Se meus defeitos sanados eram o melhor em mim, por que extingüiram-se? O melhor em mim está aqui dentro, bem no fundo, e isto eu vou levar para além da eternidade, pois a essência das coisas nunca se perde, apenas se transforma.
(Eu sou uma metamorfose ambulante e tento a cada dia me acostumar com isto.)

E as canções que hoje canto é o que eu tenho para viver, é o que eu plantei no passado e agora colho. Minha vida é assim porque EU a construí assim, não é o que sonhei (não sei nem o que eu sonhei), mas é o melhor que eu pude fazer.

O amor não se perde, também ele é coisa transitória, camufla-se, adapta-se, mostra outras faces que não conhecíamos, ou simplesmente, adormece. Os amores passados, correspondidos ou não, estão aqui no registro do que sou e marcam com profundidade no íntimo das pessoas que foram, são amadas, que amaram, amam.


Quanto às pessoas que dizem "EU TE AMO" no presente, o mínimo que minha subjetividade conturbada me permite é acreditar em suas palavras, e se puder retribuir, senão com o mesmo amor (pois ninguém ama igual a ninguém), com tudo aquilo que minha alma me permita oferecer, eu o farei.