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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Palavra

(Fernando Anitelli)


"Palavra
Tenho que escolher a mais bonita
Para poder dizer coisas do coração
Da letra e de quem lê
Toda palavra escrita, rabiscada
Um joelho, guardanapo, chão
Ponto, pula linha, travessão


E a palavra vem
Pequena
Querendo se esconder no silêncio
Querendo se fazer de oração
Baixinha com altura de intenção,
Da segurança
Virgula, parênteses, exclamação
Ponto, pula linha, travessão


E a palavra vem
Vem sozinha
Que a minha frase invento pra te convencer
Vem sozinha
Se o texto é curto, aumento pra te convencer
Palavra
Simples como qualquer palavra
Que eu já não precise falar
Simples como qualquer palavra
Que de algum modo pude mostrar
Simples como qualquer palavra
Como qualquer palavra"


*


(que cala)

Falta palavra,
mas falta também é palavra.

(não me desespero. Tudo que se espera um dia há de vir!)



sexta-feira, 18 de julho de 2008

Medíocre



À Rafael Nunes, o poeta anônimo


Eu sou poética demais
Para gostar do concreto
Números são (exatos) demais
Enquanto palavras são (imprecisas) de menos
Eu sou sentimental demais
Para compreender a lógica
Não há espaço para filosofia
Quando o coração está repleto.
Prefiro pensar com o coração
Limito-me a isso
Assim como minha poesia é limitada,
Pois meu ser é simples
Simples existência sem razão
Em meio à multidão sem chão,
Correndo às voltas (sem intenção), na imensidão
Multidão, sem expressão
Presa a mais números (o que já são).
As horas passam... Apenas unidades de medida.
Eles te controlam.
Vida?
É esta a vida que temos.
E nada mais.
Nunca devo ter problemas com o tempo
Aquilo que dita o que você é: Seu saldo bancário
Quantos diplomas você tem?
Quantas horas - extra trabalhou?
Estes são os registros gerais da ignorância humana
Que classificam pessoas com código de barras
Não admito ser mais 1 número
Que ironia, já sou
Nasci em seis do quatro
e ganhei uma certidão por isso
Tornar-se-á o registro um arquivo
E estes números, pó,
No fim.
Por ora, dedico - me a ser quem sou
E a fazer o que faço.
Fui inspirada (a escrever) por um poeta anônimo
Mais um Zé - Ninguém falando para ninguém ouvir
Ele nem se quer tem idade para votar
Mas é muito mais gente do que muita gente grande por aí.
Talvez eu não devesse fazer o que faço
Mas sempre que tento fugir,
sou levada, forçada a continuar...
e gosto!
Pronto
Admiti.
Assinei a minha condenação,
Não vou mais negar, não quero mais mentir
Sou uma pessoa de palavra
E confesso
Respiro poesia, durmo poesia, almoço poesia
Vivo poesia
E isto é tudo o que importa para mim, neste momento
São estas raízes
São as raízes de minha vil existência cravadas
na abstratez das palavras.


*Escrito em Novembro de 2007

terça-feira, 24 de junho de 2008

Identidade


Às queridas Helô e Evanda, pelas visitas ao circo, ao museu e, principalmente, pela companhia neste semestre

"[...] Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero há calma e frescura na superfície intacta. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consuma com seu poder de palavra e seu poder de silêncio [...]"


***

Ouve sem ouvir, está dentro.
Chiu! Cala! Ouve.
Fala, mas sem dizer nada.
Pensa.
Este emaranhado aí dentro é você (que grita)!
Senta e lê Drummond.
Penetra. Pensa.
Está aí. Em você.
Põe pra fora.
Escreva.
Diga
O que quiser.
Deixa sair o som.
Trace as linhas.
Não precisa,
apenas
pensa!
Guarda.
Esta marca vem do ventre materno.
E a pele tatuada atravessa o tempo
Enruga,
recria as figuras em si.
Com a tinta mais colorida, pinta todos os berros do mundo
Todas as canções
Todas as poesias
Deixando o rastro das cores
não na pele do homem, mas na epiderme da Terra.
Circula pela corrente sangüínea.
Ele cala.
Mas sua voz ecoa
eternamente
mente...
mente...
mente.
Mas não continua estática.
Modula, modelo, modela.
Neologismo.
E estes novantigos fonemas desconexos
Saltam, se beijam.
São seres.
A possessão.
Veja como elas te possuem
Aliás, vocês possuem-se mutuamente.
Pára e contempla esta maravilhosa
Inversão de papéis:
Ela penetra você.
Acintosamente sopra desconhecidos símbolos em seu ouvido.
Mascara-se, transforma-se.
Te seduz...
e te provoca.
Fecha o livro.
Atordoado de sentido.
Senta para não cair.
E procura a chave.
Palavra s.f. 1. Fonema ou grupo de fonemas com uma significação; termo, vocábulo.
2. Sua representação gráfica. 3. Manifestação verbal ou escrita. 4. Faculdade de expressar idéias por meio de sons articulados, fala. 5. Modo de falar.
Questiona o Aurélio
retoricamente.
Será?