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domingo, 12 de julho de 2009

Milionário versus Benjamin Button


Depois de meses ensaiando, finalmente assisti ao ganhador do Oscar deste ano. Estava ansiosa para vê-lo, mas a oportunidade não vinha.
Antes da premiação, tinha a idéia de assistir aos indicados a fim de obter parâmetros para fazer minha própria avaliação. Como nos outros anos, a idéia não se concretizou e acabei por ver apenas o “Curioso Caso de Benjamin Button”, filme que não apenas despertou uma profunda admiração, como conquistou o topo da minha lista de favoritos. Indubitavelmente, uma obra prima do cinema americano da última década.
Foi impossível esconder a decepção quando a estatueta não veio. Controlei a indignação até que pudesse tirar conclusões menos injustas. Enfim a oportunidade chegou.
Bem, vamos então ao ganhador: Slumdog millionaire (Reino Unido/Índia, 2008) se trata de um projeto revolucionário que foge aos padrões hollywoodianos, não apenas pelo baixo orçamento e por ter sido rodado muito longe das fronteiras americanas, mas sobretudo, pela roupagem. O que, em minha opinião, foi o grande acerto do filme. Inovador e, pelas próprias condições, surpreendente.
Algumas tomadas, logo no início, me lembraram um estilo muito explorado pelo cinema nacional, a cena dos garotos correndo pelas vielas da favela, filmadas quase sempre de frente ou de cima, com cortes secos e uma maior velocidade na mudança de ângulos, compele dinamismo e ação à cena e causa uma sensação de impaciência e aflição aos expectadores. A estética documental e veloz remetem ao filme "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, a diferença se observa numa fotografia mais trabalhada, que torna as imagens menos cruas e mais suaves, causando a impressão de um sutil desbotamento responsável pela instauração de uma atmosfera poético-moderna nas cenas.
Mas o que de fato teria feito de “Quem quer ser um milionário” merecedor da estatueta de melhor filme? A principal razão talvez tenha sido o fato de que a produção, valendo-se de um argumento tão pífio quanto um programa televisivo de entretenimento de massa, o transformou numa história de valor digna de ser não apenas assistida, mas admirada.
Não fosse pela brilhante maneira com que a história foi contada, ela estaria condenada à mediocridade, aliás, se pensarmos em termos do enredo em si, e desconsiderarmos a proeza artística de Danny Boyle, podemos dizer que a história do garoto pobre, porém bondoso e perseverante e da mocinha sofredora e submissa, não caracteriza nenhuma inovação no cinema, muito pelo contrário, trata-se de uma repetição desgastada. A própria “história de amor impossível”, chapada, sem nenhum diferencial das outras tantas espalhadas por aí, teria sido capaz de tornar o filme um fiasco, caso ele se resumisse a isso, o que não ocorre.
Bonito e interessante, “Quem quer ser um milionário” revela o verdadeiro princípio do saber humano, deixando claro que o aprendizado nada tem a ver com o simples preenchimento de uma vaga na escola, ou com as oportunidades proporcionadas pelo dinheiro, mas com as experiências e o sentimento experimentado em cada situação vivida.
Há muito mais pra se falar sobre o filme, a montagem, a direção de som, a edição, são alguns de seus destaques, contudo, inicialmente esta crítica tinha outra intenção.
Se fosse eu a julgar, Benjamin Button teria levado o prêmio, sobretudo porque como já disse, para mim se trata de um filme completo.
“Benjamin” possui um bom argumento, um roteiro bem lapidado, ademais de a direção ter acertado em cheio, boas atuações e uma direção de arte formidável tornaram o filme profundo, além de comovente. Um filme que nos inspira e que a cada vez que se assiste, percebe-se algo novo acerca da condição e das relações humanas. Ao contrário de “Milionário”, não tem um final feliz, mas sim melancólico, justamente porque se aproxima mais da realidade, ao mesmo tempo em que se distancia pelo fantástico da obra. Só mais uma diferença: Benjamin Button não é um filme burguês disfarçado de plebeu.
De um lado, uma produção quase que independente, contando com um orçamento mínimo, gravado na Índia e com um elenco desprovido de atores consagrados, porém com uma história movida pela ideologia capitalista.
De outro, um filme tipicamente hollywoodiano, produzido com um orçamento generoso, roteirizado e dirigido por grandes nomes e protagonizado por Brad Pitt e Cate Blanchett.
É fato que este ano a academia surpreendeu (mas nem tanto). Também o é, que eu própria esteja surpresa por ter preferido o segundo, geralmente a simplicidade artística condiz mais com o meu estilo. Mas dessa vez, caro leitor, fico com a legitimidade.
Enfim, lanço a seguinte questão: a avaliação que define o “melhor filme” não deve levar em consideração o conjunto da obra? Pois bem, pelo conjunto da obra “Milionário” deixou a desejar, contudo vale assistir uma segunda vez, afinal bons filmes se renovam a cada sessão.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Benjamin Button, a metáfora do tempo



"Cada vez menos aparecem filmes que satisfazem num grau tão poderoso como este, então é preciso valorizá-los cada vez mais. “O Curioso Caso de Benjamin Button” estréia na temporada de prêmios e promete levar vários; merecidamente." - Ricardo Prado, crítico de cinema.


“Inacreditavelmente completo” é uma boa forma de definir O curioso caso de Benjamin Button (EUA, 2008), mas ainda assim, não é a ideal. Trata-se de um filme tão bem lapidado que seria injusto tentar enquadrá-lo numa única definição.
O que muitos podem considerar um deslize que impede a perfeição do roteiro é a duração de quase três horas de filme, o que de fato o torna um tanto cansativo, porém, a meu ver, esta pode ser considerada uma ferramenta da própria história, como uma parte do enredo capaz de otimizar o envolvimento do expectador na realidade dos personagens, fazendo com que ele “sinta” o escorregar sorrateiro do tempo impregnado na história, do primeiro ao último minuto. Alguns dos pontos fortes além da história em si é a competência técnica da direção de arte nos quesitos fotografia, efeitos especiais e, sobretudo, maquiagem.
David Fincher (Seven e Clube da Luta) e Eric Roth (Forrest Gump), diretor e roteirista do filme respectivamente, contam com excelência a história de uma vida (ou de várias) de chegadas e partidas, paixões e tragédias, tecida e amarrada tal como estão sutil e perfeitamente entrelaçadas as vidas de todos nós; e narrada pelos sibilos do surreal, onde a ficção se mostra surpreendentemente capaz de contar a realidade.
De fato, como seria a vida vivida ao contrário (se é que não seja assim que a vivemos)?
A sucessão de fatos e acontecimentos no tempo é o grande barato da vida, apesar e alheia ao próprio tempo. Nas idas e vindas dela, as histórias se cruzam, algumas por pouco tempo, outras por toda a existência, mas nunca sem um propósito. Alguns chamam isso de acaso, outros de destino.
E enquanto cresço e envelheço, vou vivendo ou não, amando ou não, me transformando interiormente ou teimando em permanecer a mesma, mas, apesar e independentemente de qualquer coisa, meu corpo caminha para o fim, que sempre parece justificar o começo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Madrugada Plim Plim


Os anos 80 e 90 foram, sem dúvida, grandes marcos na história do cinema mundial. Com o calcanhar nos roteiros inteligentes dos preto e branco e a ponta dos pés nos efeitos especiais, a indústria cinematográfica asiática, francesa e principalmente norte americana, produziram centenas de grandes obras.
No Brasil o cenário era, literalmente, outro: o cinema nacional começava a dar seus primeiros passos rumo ao reconhecimento internacional.
Bem, o fato é que, com ou sem grandes investimentos, estas décadas foram tão significativas que romperam fronteiras, porém é impossível negar a hegemonia hollywoodiana em termos de produção cinematográfica.
Não deixo de tirar o chapéu para produções milionárias, mas esta está longe de ser uma questão essencial. É possível se fazer um ótimo filme com muito menos, aliás a simplicidade é o que muitas vezes traz o charme para a produção. E quando digo simplicidade, me refiro a roteiros "trabalhados", sem grandes firulas e com um olhar para questões inerentes ao ser humano, onde é possível "ousar", trazendo temas que possibilitem a identificação do público através do clima lúdico da ficção e da fronteira tênue que esta demarca com a realidade. Uma direção de arte que explore mais a natureza das coisas e das pessoas do que se preocupe com saltos estilo Matrix ou náufragos a la Titanic. Um diretor que preze por grandes atuações seja no drama, na comédia ou na ação.
E já que afirmo que grandes obras não implicam necessariamente em grandes investimentos e em roteiros complexos, vou vender o peixe da Sessão Corujão.
Alguns dos melhores filmes que já assisti foram nas madrugadas das líderes de audiência, e dentre eles, há alguns dos quais eu nem se quer lembro o nome e que dificilmente eu vá ver de novo.
Dos que me lembro e já procurei que nem doida, em tentativas fracassadas, estão Silver Strand e Threesome (os títulos originais são mais charmosos), se você tiver sorte de encontrar, assista, eu recomendo.
Sabe que até hoje me pergunto por que filmes bons passam tão tarde?
Na verdade, a resposta é simples: o estilo Globo de televisão preza pelo capital, e os brockbusters da Tela Quente são os que atraem o grande público e é tudo o que eles querem. Filme inédito, boa audiência; boa audiência, massificação cultural; massificação cultural, padrão, padrão globo de manipulação. Um ciclo sem fim...

E veja como é irônico, justamente a TV aberta que é o único recurso em termos de acesso à informação e à cultura que chega até a maioria brutal dos brasileiros, se ocupa não de apresentar a diversidade de visões de mundo nas várias manifestações de cultura, mas de tornar padrão uma única visão de mundo; a do capital, e, portanto, das grandes produções.
O SBT segue a mesma linha, se já passa das duas da madrugada, vá correndo ligar a televisão no canal quatro antes que mudem a programação pela terceira vez no mês na tentativa de vencer a Globo.
Diante desta situação, o que me resta senão lamentar? Passar a noite acordada esperando pelos "filmes alternativos" que provavelmente não vou encontrar na locadora e muito raramente encontro para comprar?
Não. Com certeza não. Amanhã preciso acordar cedo para trabalhar, afinal não podemos sair do padrão. A ordem é o lucro, então, mãos à obra!
A torcida é para que eu seja acometida por uma crise de insônia, ligue a TV e seja aclamada com uma oportunidade única de assistir a uma dessas verdadeiras jóias do cinema.


segunda-feira, 28 de julho de 2008

Música sem preconceitos


Tenho passado por uma pequena fase de bloqueio criativo. Digo pequena porque espero que passe logo, pois apesar de ter vários textos não publicados, gostaria de algo novo neste espaço. A "tentativa" de crítica a seguir custou a ser escrita, portanto não esperem muito dela. Aproveito para registrar os meus sinceros agradecimentos aos leitores deste blog, são vocês que me impulsionam a continuar.

“Aqui estou na difícil missão de levar a você uma mensagem que possa ser como uma luz ou um mantra, nós não somos mais crianças. Um dia acontece, a gente tem que crescer, temos que encarar a ‘responsa’. Eu não deixei de achar graça nas coisas, simplesmente hoje eu quero ser levado a sério; as coisas mudam sempre, mas a vida não é só como eu espero.”


Por volta de quatro horas da tarde de terça-feira toca o celular, ainda no trabalho, eu, sem reconhecer o número no visor, atendo um tantinho intrigada.
- Alô.
- Marinha, sou eu, a Ná.
- Ah... oi Ná, tudo bem?
- Tudo. Marinha, será que você conseguiria sair mais cedo do trabalho amanhã?

*

Já passava das nove da noite, em plena quarta-feira. E a platéia, ansiosa devido às mais de duas horas de espera, entoava, em coro, seu apelo impaciente:

- Charlie Brown, Charlie Brown, Charlie Brown…

As luzes do palco, que já haviam sido apagadas há algum tempo, não eram índice de que o show fosse, finalmente, começar.
De súbito, ouve-se uma voz que, reconhecida imediatamente, causa ainda mais frisson:

- Que pressa é essa?

O show era resultado da promoção de uma famosa rádio de São Paulo. Duzentos felizardos aniversariantes e seus dois convidados iriam curtir Charlie Brown Jr., num evento exclusivo.
Confesso que, como grande parte das pessoas, tinha certo preconceito com relação à banda, mas é claro que eu não poderia recusar um convite desses. Primeiro, porque vinha da Ná, uma grande amiga, segundo, porque eu sabia que seria uma experiência legal, afinal não é todo dia que temos a oportunidade de ir a um show exclusivo e com tudo “na faixa”.
O surpreendente foi que eu gostei muito mais do que pensei que gostaria, e digo mais, a espera valeu a pena. Calma, explico.
A dois metros do palco não há quem não se emocione. Ponho minha mão no fogo como, até o mais devoto dos amigos cult que tenho, balançaria com a emoção de estar ali. E acredito que o principal motivo seja a sinceridade que os caras espiram. É nítida a crença que eles têm em seu próprio trabalho, e não poderia ser diferente, digo o porquê.
Havia ali, em torno de quatrocentos jovens que cresceram ouvindo suas músicas, que sabiam todas as letras de cor e que vibravam com a energia positiva em torno deles.
A questão aqui é bastante delicada, estamos falando de um público jovem, uma galera que curte um som que tenha a sua cara e o rock é o estilo musical que tem embalado jovens, de vários cantos do mundo, há mais de meio século.
Temos que encarar a ‘responsa’. Perceba como esta letra é verdadeira, de fato, as bandas de rock carregam a enorme responsabilidade de compor o cenário conturbado da adolescência e, além de falar aos jovens, devem ter a consciência de que é nessa fase que firmamos nosso caráter. E a música, sendo uma das ferramentas de expressão mais acessíveis à grande massa e elemento fundamental à vida das pessoas, participa, enquanto forma de arte, na formação da visão de mundo do público que a prestigia. Está aí a responsabilidade das bandas jovens.
E, a meu ver, Charlie Brown é exemplo. É claro que ninguém é obrigado a concordar, também sabemos que todo artista comete lá os seus deslizes. Mas o rock do Charlie Brown está explicitamente mais maduro e a maioria de suas letras pregam o amor. Ora, achando clichê ou não, qual é a outra solução que se vê em tempos difíceis como os nossos, senão o amor?
As músicas têm acompanhado a evolução da banda, ainda que a maioria dos fãs prefira “as antigas”, o que se percebe é que a batida rebelde com letra provocadora tem dado lugar à sons mais melodiosos e à letras com mensagens de paz. É fácil notar tal maturidade através da comparação de dois grandes hits, a idealista “Lugar ao sol”, de 2001 e a atual música de trabalho “Uma criança com o seu olhar”.

“Que bom viver, como é bom sonhar
E o que ficou pra trás passou e eu não me importei
Foi até melhor, tive que pensar em algo novo que fizesse sentido
Ainda vejo o mundo com os olhos de criança
Que só quer brincar e não tanta responsa
Mas a vida cobra sério e realmente não dá pra fugir
Livre pra poder sorrir, sim
Livre pra poder buscar o meu lugar ao sol”

“(...) nós não somos mais crianças
Um dia acontece, a gente tem que crescer
Temos que encarar a responsa
Eu não deixei de achar graça nas coisas
Simplesmente hoje eu quero ser levado a sério
As coisas mudam sempre, mas a vida não é só como eu espero
Existe um dom natural que todos temos
Nossas escolhas vão dizer pra onde iremos(...)
Armadilhas do tempo são como o vento
Levando as folhas para lugares distantes,
O meu pensamento é o mesmo que o seu
Mas hoje meu coração bate mais forte que antes”

Se repararmos bem, as duas músicas têm muito em comum, inclusive pelo som, tanto Lugar ao sol, quanto Uma criança com o seu olhar, são as mais melodiosas de seus respectivos álbuns. A proposta também é a mesma, porém na segunda, a luta pelos objetivos foi encarada de forma mais “pé no chão”, sem deixar de lado a identidade da banda, enquanto banda jovem.
O ardil de Chorão e companhia consiste em pregar o amor como a força que nos leva a lutar pelos sonhos, o amor pelo que se é, pelo que se faz, o amor pelas raízes e pelo esporte. O fato deles viverem isto é o que torna ainda mais fascinante e verdadeira a trajetória do grupo até aqui.
Nunca vou me esquecer do que vi e senti naquela noite. De certa forma, posso dizer que eu mudei.
Abro minha mente para novas possibilidades e me abstenho de preconceitos. Curtindo o som ou não, sendo culturalmente enriquecedor ou não, sendo som para maloqueiro ou não, seja qual for a sua opinião (acredite, ela provavelmente seja bem parecida com a que eu tinha antes), é necessário que se observe.
Música é questão de gosto, assim como qualquer arte, e, sendo questão de gosto, não agradará à gregos e troianos, por isso temos tantos críticos de arte por aí. E antes que você diga: “Mas este rock do asfalto, totalmente sem conteúdo, não é arte”, pare e pense sobre o que você anda ouvindo ultimamente, será que é verdadeiro, ou você está apenas enriquecendo ainda mais a indústria fonográfica? Ou ainda, você, provavelmente, diga: “Boa música é MPB. É Tom, Elis é Chico Buarque...”.
Ok. Concordo, e em hipótese alguma desmereço. Mas é extremamente necessário que se tenha consciência de que a música POP está aí e é tão brasileira quanto a MPB, e, muito provavelmente, mais ouvida. E se traz verdade, se tem identidade, fé no que se faz e no que se tem a dizer, então, merece nosso crédito. Ou, no mínimo, respeito.
Quanto ao que eu aprendi, os estilos populares também podem ser libertadores:

O que vale nessa vida é o que se vive é o que se faz
Mas o que pode se esperar de uma pessoa que não pode
sonhar?
Como ele pode ter o que dele está tão longe?
Na vitrine coisas que ele nunca vai poder ter
Se ninguém o ajudar o que ele vai fazer?
Onde vai morar e o que vai ser quando crescer?
Quando vem da rua,
que é sua, que é minha, que é de ninguém
É tudo uma ilusão e você sabe muito bem
Impunidade, hipocrisia, dançam de mãos dadas
O hino nacional de uma nação condenada
A sociedade prega o bem
Mas o sistema só alimenta o que é mal
Se a nossa cara é prosperar,
o povo tem que evoluir também
Quase de manhã, mais uma noite no vazio
me auto-desafio, lá fora o mundo louco
sem perdão nem compaixão
A combustão em rota de colisão
A sinfonia da destruição
Vivendo o sonho e também o pesadelo
Vendo o mundo regredindo entre a fé e o dinheiro
Saudades do meu pai e dos amigos que morreram
Mas o que o velho me ensinou eu jamais me esqueço
Seja lá como for, na vida tudo tem seu preço
No mundo, o falso e o verdadeiro se confundem
Mas os que sabem jamais se iludem
Não é fácil encontrar o caminho
Mas é bom olhar pro lado e ver que não estou sozinho...
Todo o mal que é dirigido a nós
Nos fortalece e eu não vou desistir
(O que vale nessa vida é o que se vive é o que se faz)
Nas armadilhas que eu cai
Eu fiquei só e ninguém viu
(O que vale nessa vida é o que se vive é o que se faz)
O que pode se esperar de um ser humano perdido?
Que ele viva como se nunca fosse morrer?
Ou que ele morra como se nunca tivesse vivido?
O que pode se esperar de uma pessoa que não pode
sonhar?

I wanna think about tomorrow
'Cause tomorrow I want to be with you
Don't wanna live in quite sorrow
But that's the way the world will follow
It's all in my mind
Just wanna be myself for sometimes
Just wanna be myself

Acostumado desde cedo com a desgraça
em temporada de caça, um subnutrido
vítima da farsa, se formou na escola do crime
hoje o oprimido é quem oprimi
Uma alma carregada de ódio e amor
Mas muito mais ódio que amor
O aluno é também o professor
que ensina qualquer um que não sabe dar valor
à vida que tem ou à casa que mora
que vive sorrindo enquanto ele chora
Só mais um de milhares que se espalham
vítima dos nossos governantes que falharam
Todo o mal que é dirigido a nós
Nos fortalece e eu não vou desistir
(O que vale nessa vida é o que se vive é o que se faz)
Nas armadilhas que eu cai
Eu fiquei só e ninguém viu
(O que vale nessa vida é o que se vive é o que se faz)

I just wanna be myself...
Yeah! Yeah! Play your position
'Cause the world does the man
Little kids visions
May my sins be forgiven
Gotta have faith so
You can do what you wanna do
Gotta be this way So don't fool
'Cause the world is Cruel
Live by the sword, then you die by the sword
When I'm asking for peace in the middle of a war
Between blacks and whites, between rich and poor
So we can stop the mess overseas and all

Trabalho muito, vivo a vida, skateboard estilo de vida
um brilho intenso e a humildade de uma mente evoluída.

(Be Myself, Chorão e Thiago Castanho)






sexta-feira, 11 de julho de 2008

O amor é uma força da natureza.


Passados mais de dois anos de sua estréia nos cinemas nacionais, assisti, na última sexta-feira, ao filme, do cineasta taiwanês Ang Lee, “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005), como foi chamado no Brasil.
Longe de ser um clássico, o filme, para a redenção de Ang Lee, está ainda mais longe de se encaixar nos moldes do entretenimento de massa, como foi Hulk, uma das últimas produções do diretor.
Para quem procura ação, com certeza, eu não recomendaria Brokeback. Há quem diga que seu roteiro é “arrastado”, a meu ver, este “marasmo” é uma estratégia inteligente e indispensável ao desenvolvimento do enredo. Brokeback é, ao contrário, um filme emotivo.
A produção recebeu oito indicações ao oscar, incluindo melhor filme, sendo considerado o favorito a vencer nessa categoria (não que isto seja de extrema relevância para mim, mas o oscar é sempre uma referência, se este é um fator positivo ou não, já é outra história).
Mas para o desapontamento da crítica, Brokeback não levou a estatueta, senão pela direção de Ang Lee, cabe dizer que, este foi o primeiro oscar do cineasta. Além da categoria “melhor diretor”, o filme levou mais duas estatuetas: Melhor roteiro adaptado e melhor trilha sonora original, sem contar inúmeras premiações em eventos estrangeiros.
Confesso que nada disso importou quando fiz a escolha do filme: foi totalmente ao acaso e à seco; não li a sinopse, apenas aluguei.
Mencionei este detalhe porque o considero indispensável para a minha posterior impressão, na qual é fundamentada toda esta crítica.
As belas paisagens montanhosas do Estado de Wyoming, no meio-oeste americano e do, também interiorano, Texas, foram o cenário utilizado para trazer às telas a controversa e polêmica temática da homossexualidade.
Brokeback é baseado no conto homônimo da jornalista e escritora americana Annie Proulx e conta a história de Ennis Del Mar e Jack Twist, dois jovens cowboys que se conhecem durante um emprego temporário no verão de 1963.
Isolados do mundo no alto da Montanha Brokeback, e tendo como companhia apenas dois cavalos, cães e o rebanho de ovelhas que foram contratados para proteger, os diálogos entre os personagens centrais são sempre bastante densos, o que faz com que cresça, de forma hiper sutil, uma amizade e um companheirismo instintivo e conflituoso que culmina, surpreendentemente, num urgente encontro sexual entre os dois.
O roteiro, igualmente perturbado, parece seguir à risca o estado de humor dos personagens, que, mesmo apaixonados, são obrigados a seguir caminhos diferentes.
Embora a sutileza seja a marca registrada nas relações entre os personagens, e, de fato, há um clima de tensão do primeiro ao último minuto, o que dá charme à Brokeback é justamente o contraste dado pelas atitudes sempre tão extremadas dos personagens, após longos períodos de repressão dos sentimentos.
O grande trunfo da obra-prima de Ang Lee, além das brilhantes atuações do falecido ator australiano Heath Ledger e do americano Jake Gyllenhaal, é, sem dúvida, a sensibilidade e a concisão com que o enredo se desenvolve.
O filme é todo uma grande surpresa, a começar por se tratar da história de amor entre dois cowboys, o que, de certa forma, subverte a antiga imagem de homens machões que se tem dos cowboys desde os antigos westerns.
E realmente, até a primeira cena de sexo do filme, o que menos se imagina é que eles sejam gays, na realidade, é necessário que se enfatize, nem os próprios sabiam disso.
Brokeback é um filme de poucas palavras e repleto de sentidos implícitos.
E, aproveitando-se desta atmosfera silenciosa, dispara um tiro certeiro que atinge paradigmas sociais complexos. Com um roteiro provocante, o filme levanta questões difíceis, tocando também em profundos e delicados princípios individuais, e se não exagero, desequilibrando padrões de pensamento, leva os espectadores a rever certos conceitos. E a questão vai muito além do preconceito e da homofobia.
O Segredo de Brokeback Mountain é, antes de mais nada, um filme sobre amor.
E se o amor é mesmo uma força da natureza (como são os instintos); se amar não se aprende, não se renega, apenas se ama, então Brokeback talvez seja uma das obras que trouxe com mais propriedade a temática do amor enquanto tal, na história do cinema. Isto, claro, na minha leiga e humilde opinião.
Quanto ao medo e aos opostos, este duelo impregnado na atmosfera do filme vem ilustrando o que, a meu ver, caracteriza o grande dilema humano:
Arriscar-se à felicidade ou passar a vida se escondendo?
Ennis Del Mar e Jack Twist fizeram suas escolhas. E o final é óbvio, mas ainda assim, surpreendente (e também neste sentido a arte imita a vida), como não poderia deixar de ser.




Leia o conto de Annie Proulx na íntegra.