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quarta-feira, 2 de julho de 2008

Alusão à Clarice



O trecho que se segue é um fragmento da obra, de Clarice Lispector, “A hora da estrela” e entre todos os seus significados para mim, três deles merecem destaque.
Primeiro: é Clarice e isto já fala por si só.
Segundo: é A hora da estrela, o último grito da autora. Sou suspeita em dizer, visto a marca que este texto deixou em mim, que esta talvez seja a melhor obra da pessoa que soube, como ninguém, traduzir em palavras o universo feminino. Cada uma dessas tão genialmente traçadas linhas, falam diretamente à alma, à minha alma. E creio que também a todos aqueles que apreciam as formas de expressão da arte, seja ela qual for.
E terceiro: Esta parte introdutória do livro foi adaptada para o teatro por uma grande amiga, Juliana Gregolin, para uma peça intitulada "Quimera", da qual eu tive a honra de ser co-roteirista e a última da Companhia de Artes Salada Mista, da qual, orgulhosamente, fui membro por três anos.
Dedico este cantinho do meu blog aos meus queridos amigos, colegas de sala e companheiros de grupo.
Nós tivemos a sorte de ser etianos e mais do que isto, de termos uns aos outros.
Aos quinze, éramos jovens engajados e, por um objetivo em comum, nos unimos numa parceria que durou até o fim do Ensino Médio.
O terceiro H fez história. Quem dera que todos aproveitassem as oportunidades que a vida nos dá, como nós fizemos...
Hoje somos "gente grande", seguimos nosso caminho, alguns na faculdade, alguns trabalhando, mas cada qual com seu projeto particular de vida. Mas sabe, essa parceria não durou, como eu disse, apenas três anos, há um pedacinho de cada um marcado para sempre no outro.
E quem sabe não haja mesmo a reapresentação, que tanto queríamos, em agosto?
Mesmo com algumas pessoas longe, o coração carrega, ainda, o sentimento do mundo.

“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.
Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré história já havia monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique. Meu coração se esvaziou de todo desejo e reduz-se ao próprio último ou primeiro pulsar. A dor de dentes que perpassa essa história deu uma fisgada funda em plena boca nossa. Então eu canto alto agudo uma melodia sincopada e estridente – é a minha própria dor, eu que carrego o mundo e a falta de felicidade. Felicidade? Nunca vi palavra mais doida [...]”



* Veja a lista de links ao lado, na seção: “... e nasceu uma grande parceria”.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Resposta à Lista*


*Vide Música "A Lista", de Oswaldo Montenegro



E depois de muito pensar no que se foi, descobri que o importante não é o que se foi, mas o que ficou.

***

Fiz uma lista dos grandes amigos que tinha a dez anos atrás, e descobri que eles não ficaram no passado, mas sim aqui dentro.

Fiz uma lista dos sonhos que tinha, e percebi que muitos deles deixaram de ser sonhos e se tornaram realidade, enquanto outros tiveram de ceder seus lugares a novos sonhos.

Fiz uma lista dos amores que jurei eternos e que não duraram para sempre, e percebi que eles, mesmo breves, foram eternos enquanto duraram.

Hoje me olho no espelho e não vejo a Mara de dez anos atrás, não me reconheço, sou uma pessoa nova e muito melhor, evoluída, uma pessoa que estou aprendendo ainda a chamar de "EU". Me olho na foto antiga e abro mão do que eu fui para assumir aquilo que sou, e mais do que isso, admiro aquilo que eu fui porque aquilo que fui, tornou-me o que sou.
Hoje não sou do jeito que achei que seria, mas com certeza sou do jeito que devo ser.

Quantos amigos eu joguei fora?
Nenhum, amigos são marcas eternas, são cicatrizes que nem cirugia plástica remove, eles se tornam parte do que nós nos tornamos.

Os mistérios que sondava não são mais mistérios para mim, porque eu cresci e aprendi seus significados e significantes.

E os meus segredos do passado, bobos no presente, não deixaram de ter sua importância, porque ficaram guardados em algum momento no tempo e no espaço e se removam a cada, pois fazem parte da minha história, daquilo que fui e que sou.

Aprendi a viver com as mentiras que ontem condenei, o que não significa que hoje eu as aprove, apenas descobri que as mentiras também têm contexto, assim como as verdades, a minha verdade é essa, qual é a sua?

Se meus defeitos sanados eram o melhor em mim, por que extingüiram-se? O melhor em mim está aqui dentro, bem no fundo, e isto eu vou levar para além da eternidade, pois a essência das coisas nunca se perde, apenas se transforma.
(Eu sou uma metamorfose ambulante e tento a cada dia me acostumar com isto.)

E as canções que hoje canto é o que eu tenho para viver, é o que eu plantei no passado e agora colho. Minha vida é assim porque EU a construí assim, não é o que sonhei (não sei nem o que eu sonhei), mas é o melhor que eu pude fazer.

O amor não se perde, também ele é coisa transitória, camufla-se, adapta-se, mostra outras faces que não conhecíamos, ou simplesmente, adormece. Os amores passados, correspondidos ou não, estão aqui no registro do que sou e marcam com profundidade no íntimo das pessoas que foram, são amadas, que amaram, amam.


Quanto às pessoas que dizem "EU TE AMO" no presente, o mínimo que minha subjetividade conturbada me permite é acreditar em suas palavras, e se puder retribuir, senão com o mesmo amor (pois ninguém ama igual a ninguém), com tudo aquilo que minha alma me permita oferecer, eu o farei.