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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A saída

Esta manhã notei que há muito tempo não sonhava. A ficha ainda não caiu muito bem, mas o medo e o vazio já começam a bater na porta. Apesar de alguns dizerem que é o começo, outros o meio, é, na verdade, o fim das coisas o momento mais complicado, mas também o mais libertador.
Hoje acordei às 10:15 com o despertador tocando. É claro que não precisava, mas acho que há anos não sei o que é acordar espontâneamente. Mal acordar e já enfrentar a correria da cidade, o mundo todo despertando e se dirigindo para o trabalho (como zumbis). A imensa maioria triste, insatisfeita, cansada. Eu estava cansada.
Que bom atualizar o anti-vírus, encontrar de novo as páginas azuis do orkut, marcar consulta médica para o horário que bem entender. Que bom abrir o Word e voltar a escrever, ir de van pra faculdade, não perder mais aulas, nem chegar atrasada. Que bom poder de novo ser eu. Poder de novo pensar e sentir como eu. Não como máquina, não como assalariada. O trabalho cega, sufoca, aliena. Marx estava coberto de razão. É uma pena que nem todos o conheçam. Se conhecessem, talvez fossem capazes de enxergar o problema. Talvez tivessem força para vencer o medo, para ser subversivo. Talvez não.
Me dê apenas um motivo para fazer o que não gosto em troca de dinheiro.
Não havia mais motivos. E fiz a minha escolha. Agora aproprio-me de novo de mim mesma. Estou novamente livre para pensar! Posso agora dormir sem ter hora para acordar. E partir de agora, quem sabe, possa voltar a sonhar.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Com Tudo

Contudo, todavia, entretanto a exceção à regra. Metáfora, desde o instante de outrora em diante. Estamos fadados à contradição. Somos o dito e o não dito, somos silêncio e som, como diria Lulu. Vírgula, ponto e principalmente interrogação. Somos passado e futuro, mas quase nunca presente. Paradoxo entre o que foi e o que virá a ser. Será? Somos saudade e antecipação. Escolha é abnegação. Medo é solução, estratégia ou desculpa. Tira a culpa de mim por estas palavras. A história não é minha, minha vida é uma repetição. Reprise medíocre, novela da tarde. Mais do mesmo. Reinventar implica sempre uma primeira invenção. Quem inventou o amor, me explica, por favor? Provavelmente tenha sido a mesma pessoa que inventou o ódio e a solidão. E a dor e o sofrimento... e o desejo? Mas o que seria eu, senão uma junção de todas estas coisas? Aliás se souber me dizer o que seria, antes me diga que sou. Quero ser apenas o que quiser de mim. Prefiro não quebrar a cabeça tentando adivinhar. Se me dissesse, ficaria mais fácil. Mas não me diz. Eu estou aqui, podia me encontrar. Ou então deixe que eu te encontre, não se esconda de mim. Estou apenas suplicando redenção, tentando organizar a confusão, compreender o excesso de informação, o excesso de lixo e cultura. Não estou conseguindo fazer a distinção. Onde termina um e começa o outro. Este sou eu, ou será você? Talvez sejamos nós. Mas sozinha não posso desfazer os nós e me encontrar. É preciso antes um outro encontro. Primeiro o outro, depois o eu. É assim que funciona a máquina da contradição, do paradoxo. Do esperto ao contrário, para lembrar Estamira. Esta sábia, esse olho que está à mira de todos nós, de novo os nós. Que se danem! Ana Carolina, Maria ou qualquer outra. Na verdade ninguém sabe o que é. Nomes são apenas nomes. Designações, ilusão. Ter um nome não significa ser alguém. Melhor ou pior, criativo ou apenas um repetidor, um plagiador como eu. Como você.
Então vem comigo e vamos juntos construir o que somos se é que um dia poderemos sê-lo.
Vem e me beije, deixe que eu diga ou não. “Sinto sua falta” quer dizer que eu já te amo, antes mesmo de encontrá-lo.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

O Eu ideal



Ele estava exausto, mas tinha certeza de que se conseguisse dormir jamais teria um sono tranqüilo.
Então voltou pra casa com a cabeça a mil, antecipando a noite que passaria às claras, tentando descobrir onde errou, ou pior, não aceitando o erro.
Não sabia se o cansaço era proveniente da insônia ou a insônia do cansaço, a verdade era que ele não sabia mais, estava desarmado diante si mesmo.
O problema não era a nota "baixa", que seria a responsável por essa noite mal dormida, o problema eram as outras noites.
Enfim a cabeça pesada, pulsando de frustração, despencou sobre o travesseiro, e o corpo rígido, virava de um lado para o outro na cama, sem encontrar posição.
Não queria mais pensar, mas o "não querer" o fazia pensar ainda mais.
Aos poucos se dava conta de algumas coisas que faziam outras tantas ficarem ainda mais privadas de compreensão, ele havia se resumido a isso: caos.
Estava difícil controlar as idéias que pulsavam incessante e repetidamente em sua cabeça. Não ter o dez, não ter namorada, não ter um carro, não ter, simplesmente não ter. Pela equivalência neurótica, lembrava das aulas sobre psicanálise, não ter é não ser.
Estava claro como nunca que, apesar de não saber quando nem como, ele havia se tornado um obsessivo sufocado por um severo sentimento de inferioridade do qual tentava desesperadamente se defender, a cada ato.
O cabelo impecável, a compulsão por sapatos, a preocupação descomedida com as roupas que jurava não ter, as horas de estudo, os gastos irrefreados com presentes, a necessidade aflita de agradar, as incansáveis revisões de tarefas, a fixação pelo reconhecimento.
Você é um lixo – uma voz lá dentro dizia - Você está todo corrompido, estragado. Disfarce o estrago antes que os outros percebam.
E quanto mais tentava disfarçar, mais temia ser descoberto. Inútil.
De fato, essa noite ele não dormiria.
E nas outras também não, não enquanto as retóricas que ecoavam dentro de si (e que insistia em projetar) permanecessem sem resposta. Mas o problema é que retóricas não buscam respostas.
“A quem se dirige a pergunta?”
A quem quer que seja capaz de não tentar respondê-la. Como não saber incomoda, frustra, continuo buscando saber mesmo sabendo que jamais saberei. Saber é ter e ter é ser. Assim, a falta é o que impulsiona a vida.
E volto à primeira pessoa, afinal a essas alturas você já deve ter percebido o óbvio: o rapaz sou eu, apesar de, “paradoxalmente”, ser uma garota.
O motivo pelo qual tenho me colocado numa posicão masculina já não é mais uma incógnita pra mim, pelo menos em termos. Mas como eu havia dito, as conclusões são capazes de dar margens à tantas outras dúvidas, das quais grande parte permanecerá em caráter de dúvida.


E, mesmo depois de tanto esforço, o dez não veio. Mas por que mesmo eu precisava dele?
Para provar o quanto eu sou boa?
Provar pra quem?

domingo, 18 de janeiro de 2009

Em Primeira Pessoa


Há um tempo não escrevo. Quase sempre surpreendo-me tentando encontrar o motivo. Não se trata de falta de assunto, muito menos de vontade, há tanto o que falar que nem sei!
Penso que quando a gente produz, seja lá o que for, não basta apenas uma idéia e a intenção de objetivá-la, a criação precisa ser “cuspida”. É como um parto, há que se colocar o incômodo para fora, mas não sem certa dor. Talvez por isso não tenha escrito, por medo da dor.
Cada linha escrita representa mais um centímetro no corte que rasga a pele do escritor, no fim do último parágrafo pode-se dizer que sua alma está exposta.
Quanto a mim, ando tão vulnerável que a última coisa de que preciso é abrir ainda mais o buraco que permite ver o que há por baixo de minha pele marcada. E tenho tanto medo de transparecer que acabo transparecendo cada vez mais, e a única razão para ser é que preciso disso. Eu sou assim. Cheguei a me deprimir ao pensar que talvez eu não mais escrevesse. Como se não fosse melhor assim... Me pouparia da dor.
Mas ciente de todas as dores que a escolha de minha conduta pudesse me causar, escolhi, ainda assim, a verdade. É minha sina. Essa sinceridade exacerbada que me despe diante dos olhos dos outros, essa nudez que vive a me violentar. Enfim. Eu sei que o que digo será usado contra mim, no tribunal diário do juízo alheio.
Não venha me dizer do direito ao silêncio, sinto-me sufocada é pelo dever do silêncio! Permaneçamos calados então, como criminosos.
Mas se viver de fato é crime, assino agora minha sentença. E se gritar, se me fazer notar através minhas palavras, tal como sou e penso, será a minha condenação, então já estou condenada.
Estou despida, deixo os meus conflitos, os meus sentimentos, a minha angústia para a vossa apreciação, sem medo. Eu tenho este direito! Não quero o direito ao silêncio, quero antes o direito ao grito!
É minha alma que agora berra. E quem sou eu para calar os berros da alma?

* Escrito em 02 de Janeiro de 2009

terça-feira, 28 de outubro de 2008

De volta pra casa


O problema é o seu único amigo e ele está de volta novamente

Faz seu corpo parecer mais velho do que realmente é
E ela diz que está tarde e precisa ir
Não temos muito o que dizer nesse momento
O problema é o único caminho para a tristeza.
Tão forte como você era
Carrego você
Estou vendo que você respira...
Pela última vez
Uma canção para seu coração
E quando ele está tranquilo
Sei o que significa
Se ela tivesse asas, voaria para longe
E algum dia sei que Deus lhe dará.
O problema é o único caminho para a tristeza.
Tão forte como você era
Carrego você
Estou vendo que você respira...
Pela última vez
Uma canção para seu coração
E quando ele está tranquilo
sei o que significa
Eu vou levar você para casa
Eu vou levar você para casa
Todos querem ver a beleza das
luzes da cidade de Nova York.
E os verões foram tirados do mundo da garotinha
Esta noite
Carrego você
Estou vendo que você respira...
Pela última vez
Tão forte como você era
Carrego você
Estou vendo que você respira...
Pela última vez
E eu vou levar você para casa
Eu vou levar você para casa

(Carry You Home, James Blunt)

terça-feira, 29 de abril de 2008

Carpe Diem



"Carpe Diem" quer dizer "colha o dia". Colha o dia como se fosse um fruto maduro que amanhã estará podre. A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente.

Rubem Alves