quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Hoje não escrevo


Hoje faz exatos vinte dias que não publico nada novo. Precisava de um tempo para mim. Quando escrever deixa de ser um hobby para vestir a roupa da necessidade, sinal de que algo está errado. Desde que criei este blog, há apenas quatro meses, me deixei levar por mais um vício, e então passei a postar, quase sempre, duas vezes por semana. Esgota. A mim e a vocês.
Aproveito o ensejo para expressar minha sincera gratidão pelas mais de seiscentas visitas (tá, as minhas próprias visualizações de perfil não contam!), aos que comentam e aos que apenas lêem, para estes últimos devo dizer que o fato de lerem, por si só, é uma grande recompensa. E aos comentadores assíduos, saibam que é uma honra “ouvir” o que vocês têm a dizer.
O fato é que eu já não consigo mais ficar longe deste espaço por muito tempo.
Mas hoje não escrevo. Não sou eu quem fala hoje, me calo para, junto a vocês, ouvir as palavras deste gênio da linguagem e da metafísica (e quem sabe aprender com elas...).
E dedico meu silêncio aos leitores deste blog.


*A crônica se segue no próximo post.*

Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos.

Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.
O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a maior cara-de-pau (“com isenção de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego - às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles.
Ah, você participa com palavras? Sua escrita - por hipótese - transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever O Capital é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu O Capital. Não é todos os dias que se mete uma idéia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação.


Claro, você aprovou as valentes ações dos outros, sem se dar ao incômodo de praticá-las. Desaprovou as ações nefandas, e dispensou-se de corrigir-lhe os efeitos. Assim é fácil manter a consciência limpa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação, que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua protegida pessoa, eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel.
E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado de espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia... explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar, se não nos concedem tempo para isso entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Não é redator de boletim político, não é comentarista internacional, colunista especializado, não precisa esgotar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Você é o marginal ameno, sem responsabilidade na instrução ou orientação do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Concluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não corta de verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira, assuntando, assuntando...

Então hoje não tem crônica.


Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A construção primeira do eu


Do que eu sempre julguei que sabia e queria, restou algo que, inevitavelmente, seria o início de tudo que hoje penso que sei e que sou.
Quanto ao futuro, eu ainda temia estar errada...
Sorte é perceber que este "algo" é, indubitavelmente, o que me possibilita, hoje, dizer: eu nunca fui tão eu quanto sou agora, desde então.
Quanto ao futuro, ainda temo estar errada...



"O saber é um trabalho. Por ser um trabalho, é uma negação reflexionante, isto é, uma negação que, por sua própria força interna, transforma algo que lhe é externo, resistente e opaco. O saber é o trabalho para elevar à dimensão do conceito uma situação de não-saber, isto é, a experiência imediata cuja obscuridade pede o trabalho da clarificação. A obscuridade de uma experiência nada mais é senão seu caráter necessariamente indeterminado e o saber nada mais é senão o trabalho para determinar essa indeterminação, isto é, para torná-la inteligível. Só há saber quando a reflexão aceita o risco da indeterminação que a faz nascer, quando aceita o risco de não contar com garantias prévias e exteriores à própria experiência e à própria reflexão que a trabalha."

(Marilena Chauí, Cultura e Democracia)


terça-feira, 5 de agosto de 2008

Um voto pela expansão da lei seca.


Se beber não dirija...
E nem tente filosofar.

Ontem, voltando da faculdade, pude entender melhor, e na prática, o tipo de situação que provavelmente inspirou a autoria da expressão popular "filosofia de botequim".
Tarde da noite, a agitada rua do bairro parece mais cenário de filme de suspense, escura e pouquíssimo movimentada, as únicas pessoas que ainda estão acordadas são alguns bêbados na porta do bar, falando alto e intimidando quem passa sozinho e a pé.
O papo parece realmente interessante, pois há uma estridência espasmódica em suas vozes, mas pudera, nestas condições...
Ao passo que me aproximo, posso ouvir o discurso de um dos indivíduos, que diz:
"Na vida, só tem dois tipos de pessoas. Ou você é o jogador, ou é a bola. Um nasce para chutar, o outro, para ser chutado."
Continuo caminhando, cada vez mais depressa devido ao horário, mas agora, surpreendo-me chegando a uma conclusão:
É por essas e outras que o Brasil é o país do futebol.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Música sem preconceitos


Tenho passado por uma pequena fase de bloqueio criativo. Digo pequena porque espero que passe logo, pois apesar de ter vários textos não publicados, gostaria de algo novo neste espaço. A "tentativa" de crítica a seguir custou a ser escrita, portanto não esperem muito dela. Aproveito para registrar os meus sinceros agradecimentos aos leitores deste blog, são vocês que me impulsionam a continuar.

“Aqui estou na difícil missão de levar a você uma mensagem que possa ser como uma luz ou um mantra, nós não somos mais crianças. Um dia acontece, a gente tem que crescer, temos que encarar a ‘responsa’. Eu não deixei de achar graça nas coisas, simplesmente hoje eu quero ser levado a sério; as coisas mudam sempre, mas a vida não é só como eu espero.”


Por volta de quatro horas da tarde de terça-feira toca o celular, ainda no trabalho, eu, sem reconhecer o número no visor, atendo um tantinho intrigada.
- Alô.
- Marinha, sou eu, a Ná.
- Ah... oi Ná, tudo bem?
- Tudo. Marinha, será que você conseguiria sair mais cedo do trabalho amanhã?

*

Já passava das nove da noite, em plena quarta-feira. E a platéia, ansiosa devido às mais de duas horas de espera, entoava, em coro, seu apelo impaciente:

- Charlie Brown, Charlie Brown, Charlie Brown…

As luzes do palco, que já haviam sido apagadas há algum tempo, não eram índice de que o show fosse, finalmente, começar.
De súbito, ouve-se uma voz que, reconhecida imediatamente, causa ainda mais frisson:

- Que pressa é essa?

O show era resultado da promoção de uma famosa rádio de São Paulo. Duzentos felizardos aniversariantes e seus dois convidados iriam curtir Charlie Brown Jr., num evento exclusivo.
Confesso que, como grande parte das pessoas, tinha certo preconceito com relação à banda, mas é claro que eu não poderia recusar um convite desses. Primeiro, porque vinha da Ná, uma grande amiga, segundo, porque eu sabia que seria uma experiência legal, afinal não é todo dia que temos a oportunidade de ir a um show exclusivo e com tudo “na faixa”.
O surpreendente foi que eu gostei muito mais do que pensei que gostaria, e digo mais, a espera valeu a pena. Calma, explico.
A dois metros do palco não há quem não se emocione. Ponho minha mão no fogo como, até o mais devoto dos amigos cult que tenho, balançaria com a emoção de estar ali. E acredito que o principal motivo seja a sinceridade que os caras espiram. É nítida a crença que eles têm em seu próprio trabalho, e não poderia ser diferente, digo o porquê.
Havia ali, em torno de quatrocentos jovens que cresceram ouvindo suas músicas, que sabiam todas as letras de cor e que vibravam com a energia positiva em torno deles.
A questão aqui é bastante delicada, estamos falando de um público jovem, uma galera que curte um som que tenha a sua cara e o rock é o estilo musical que tem embalado jovens, de vários cantos do mundo, há mais de meio século.
Temos que encarar a ‘responsa’. Perceba como esta letra é verdadeira, de fato, as bandas de rock carregam a enorme responsabilidade de compor o cenário conturbado da adolescência e, além de falar aos jovens, devem ter a consciência de que é nessa fase que firmamos nosso caráter. E a música, sendo uma das ferramentas de expressão mais acessíveis à grande massa e elemento fundamental à vida das pessoas, participa, enquanto forma de arte, na formação da visão de mundo do público que a prestigia. Está aí a responsabilidade das bandas jovens.
E, a meu ver, Charlie Brown é exemplo. É claro que ninguém é obrigado a concordar, também sabemos que todo artista comete lá os seus deslizes. Mas o rock do Charlie Brown está explicitamente mais maduro e a maioria de suas letras pregam o amor. Ora, achando clichê ou não, qual é a outra solução que se vê em tempos difíceis como os nossos, senão o amor?
As músicas têm acompanhado a evolução da banda, ainda que a maioria dos fãs prefira “as antigas”, o que se percebe é que a batida rebelde com letra provocadora tem dado lugar à sons mais melodiosos e à letras com mensagens de paz. É fácil notar tal maturidade através da comparação de dois grandes hits, a idealista “Lugar ao sol”, de 2001 e a atual música de trabalho “Uma criança com o seu olhar”.

“Que bom viver, como é bom sonhar
E o que ficou pra trás passou e eu não me importei
Foi até melhor, tive que pensar em algo novo que fizesse sentido
Ainda vejo o mundo com os olhos de criança
Que só quer brincar e não tanta responsa
Mas a vida cobra sério e realmente não dá pra fugir
Livre pra poder sorrir, sim
Livre pra poder buscar o meu lugar ao sol”

“(...) nós não somos mais crianças
Um dia acontece, a gente tem que crescer
Temos que encarar a responsa
Eu não deixei de achar graça nas coisas
Simplesmente hoje eu quero ser levado a sério
As coisas mudam sempre, mas a vida não é só como eu espero
Existe um dom natural que todos temos
Nossas escolhas vão dizer pra onde iremos(...)
Armadilhas do tempo são como o vento
Levando as folhas para lugares distantes,
O meu pensamento é o mesmo que o seu
Mas hoje meu coração bate mais forte que antes”

Se repararmos bem, as duas músicas têm muito em comum, inclusive pelo som, tanto Lugar ao sol, quanto Uma criança com o seu olhar, são as mais melodiosas de seus respectivos álbuns. A proposta também é a mesma, porém na segunda, a luta pelos objetivos foi encarada de forma mais “pé no chão”, sem deixar de lado a identidade da banda, enquanto banda jovem.
O ardil de Chorão e companhia consiste em pregar o amor como a força que nos leva a lutar pelos sonhos, o amor pelo que se é, pelo que se faz, o amor pelas raízes e pelo esporte. O fato deles viverem isto é o que torna ainda mais fascinante e verdadeira a trajetória do grupo até aqui.
Nunca vou me esquecer do que vi e senti naquela noite. De certa forma, posso dizer que eu mudei.
Abro minha mente para novas possibilidades e me abstenho de preconceitos. Curtindo o som ou não, sendo culturalmente enriquecedor ou não, sendo som para maloqueiro ou não, seja qual for a sua opinião (acredite, ela provavelmente seja bem parecida com a que eu tinha antes), é necessário que se observe.
Música é questão de gosto, assim como qualquer arte, e, sendo questão de gosto, não agradará à gregos e troianos, por isso temos tantos críticos de arte por aí. E antes que você diga: “Mas este rock do asfalto, totalmente sem conteúdo, não é arte”, pare e pense sobre o que você anda ouvindo ultimamente, será que é verdadeiro, ou você está apenas enriquecendo ainda mais a indústria fonográfica? Ou ainda, você, provavelmente, diga: “Boa música é MPB. É Tom, Elis é Chico Buarque...”.
Ok. Concordo, e em hipótese alguma desmereço. Mas é extremamente necessário que se tenha consciência de que a música POP está aí e é tão brasileira quanto a MPB, e, muito provavelmente, mais ouvida. E se traz verdade, se tem identidade, fé no que se faz e no que se tem a dizer, então, merece nosso crédito. Ou, no mínimo, respeito.
Quanto ao que eu aprendi, os estilos populares também podem ser libertadores:

O que vale nessa vida é o que se vive é o que se faz
Mas o que pode se esperar de uma pessoa que não pode
sonhar?
Como ele pode ter o que dele está tão longe?
Na vitrine coisas que ele nunca vai poder ter
Se ninguém o ajudar o que ele vai fazer?
Onde vai morar e o que vai ser quando crescer?
Quando vem da rua,
que é sua, que é minha, que é de ninguém
É tudo uma ilusão e você sabe muito bem
Impunidade, hipocrisia, dançam de mãos dadas
O hino nacional de uma nação condenada
A sociedade prega o bem
Mas o sistema só alimenta o que é mal
Se a nossa cara é prosperar,
o povo tem que evoluir também
Quase de manhã, mais uma noite no vazio
me auto-desafio, lá fora o mundo louco
sem perdão nem compaixão
A combustão em rota de colisão
A sinfonia da destruição
Vivendo o sonho e também o pesadelo
Vendo o mundo regredindo entre a fé e o dinheiro
Saudades do meu pai e dos amigos que morreram
Mas o que o velho me ensinou eu jamais me esqueço
Seja lá como for, na vida tudo tem seu preço
No mundo, o falso e o verdadeiro se confundem
Mas os que sabem jamais se iludem
Não é fácil encontrar o caminho
Mas é bom olhar pro lado e ver que não estou sozinho...
Todo o mal que é dirigido a nós
Nos fortalece e eu não vou desistir
(O que vale nessa vida é o que se vive é o que se faz)
Nas armadilhas que eu cai
Eu fiquei só e ninguém viu
(O que vale nessa vida é o que se vive é o que se faz)
O que pode se esperar de um ser humano perdido?
Que ele viva como se nunca fosse morrer?
Ou que ele morra como se nunca tivesse vivido?
O que pode se esperar de uma pessoa que não pode
sonhar?

I wanna think about tomorrow
'Cause tomorrow I want to be with you
Don't wanna live in quite sorrow
But that's the way the world will follow
It's all in my mind
Just wanna be myself for sometimes
Just wanna be myself

Acostumado desde cedo com a desgraça
em temporada de caça, um subnutrido
vítima da farsa, se formou na escola do crime
hoje o oprimido é quem oprimi
Uma alma carregada de ódio e amor
Mas muito mais ódio que amor
O aluno é também o professor
que ensina qualquer um que não sabe dar valor
à vida que tem ou à casa que mora
que vive sorrindo enquanto ele chora
Só mais um de milhares que se espalham
vítima dos nossos governantes que falharam
Todo o mal que é dirigido a nós
Nos fortalece e eu não vou desistir
(O que vale nessa vida é o que se vive é o que se faz)
Nas armadilhas que eu cai
Eu fiquei só e ninguém viu
(O que vale nessa vida é o que se vive é o que se faz)

I just wanna be myself...
Yeah! Yeah! Play your position
'Cause the world does the man
Little kids visions
May my sins be forgiven
Gotta have faith so
You can do what you wanna do
Gotta be this way So don't fool
'Cause the world is Cruel
Live by the sword, then you die by the sword
When I'm asking for peace in the middle of a war
Between blacks and whites, between rich and poor
So we can stop the mess overseas and all

Trabalho muito, vivo a vida, skateboard estilo de vida
um brilho intenso e a humildade de uma mente evoluída.

(Be Myself, Chorão e Thiago Castanho)






sexta-feira, 18 de julho de 2008

Medíocre



À Rafael Nunes, o poeta anônimo


Eu sou poética demais
Para gostar do concreto
Números são (exatos) demais
Enquanto palavras são (imprecisas) de menos
Eu sou sentimental demais
Para compreender a lógica
Não há espaço para filosofia
Quando o coração está repleto.
Prefiro pensar com o coração
Limito-me a isso
Assim como minha poesia é limitada,
Pois meu ser é simples
Simples existência sem razão
Em meio à multidão sem chão,
Correndo às voltas (sem intenção), na imensidão
Multidão, sem expressão
Presa a mais números (o que já são).
As horas passam... Apenas unidades de medida.
Eles te controlam.
Vida?
É esta a vida que temos.
E nada mais.
Nunca devo ter problemas com o tempo
Aquilo que dita o que você é: Seu saldo bancário
Quantos diplomas você tem?
Quantas horas - extra trabalhou?
Estes são os registros gerais da ignorância humana
Que classificam pessoas com código de barras
Não admito ser mais 1 número
Que ironia, já sou
Nasci em seis do quatro
e ganhei uma certidão por isso
Tornar-se-á o registro um arquivo
E estes números, pó,
No fim.
Por ora, dedico - me a ser quem sou
E a fazer o que faço.
Fui inspirada (a escrever) por um poeta anônimo
Mais um Zé - Ninguém falando para ninguém ouvir
Ele nem se quer tem idade para votar
Mas é muito mais gente do que muita gente grande por aí.
Talvez eu não devesse fazer o que faço
Mas sempre que tento fugir,
sou levada, forçada a continuar...
e gosto!
Pronto
Admiti.
Assinei a minha condenação,
Não vou mais negar, não quero mais mentir
Sou uma pessoa de palavra
E confesso
Respiro poesia, durmo poesia, almoço poesia
Vivo poesia
E isto é tudo o que importa para mim, neste momento
São estas raízes
São as raízes de minha vil existência cravadas
na abstratez das palavras.


*Escrito em Novembro de 2007

quarta-feira, 16 de julho de 2008

[ ]



- Pry, você tem alguma coisa pra fazer no intervalo?
- Não nada.
- É que faz tanto tempo que a gente não conversa...
- É verdade.
- Eu sinto tanta falta dos nossos “papos furados”, Pry!
- Eu também.
- Podemos passar o intervalo juntas então?
- Claro que sim, vai ser ótimo!
*

- Então, Pry, é isso que está acontecendo.
- Vixi, Marina! Nem sei o que dizer, eu sempre achei esse menino muito estranho, você sabe.
- Aiiii, Pry... calma que ele tá vindo aí.
- Ahahaha, essa é boa! Quem tem que ficar calma é você!
- Oi linda!
- Oi Paulo. Esta é a Pry, minha amiga.
- Oi, tudo bem?
- Tudo.
- Nossa Má, o que você fez? Seus olhos estão diferentes.
- É a maquiagem.
- Tá lindo! Você deveria fazer sempre. Pensando bem, sempre não, só às vezes, pra mudar um pouco! Não acha?
- Acho, acho. – a Pry respondeu fazendo força para segurar o riso.
- Tá indo pra aula de quê?
- Matemática e você?
- Nem sei... que aula a gente tem agora, Pry?
- Num lembro.
- Putz é mesmo, eu tenho muita coisa para resolver antes da aula, melhor eu ir.
- Vai lá.
- Beijo.
*

- Ahahahahaha
- Que foi, Pry, tá rindo do quê?
- Ah, Má, você vai ter que me desculpar, mas é ridículo!
- Ah, que bom! Agora você tá caçoando de mim!
- Não é de você.
- Do que é então?
- Dos dois.
- Eu pensei que você fosse minha amiga, além de rir de mim, também tá rindo do Paulo, por acaso não acabei de te contar que estou apaixonada por ele?
- Eu sei, Marina, por isso que pedi desculpa, mas tenho que ser sincera...
- ...
- A forma como vocês dois agem um com o outro é, no mínimo, estranha: vocês travam!
- Achei que fosse só eu. Então você acha que ele também fica sem saber o que dizer na minha presença?
- Você deve estar brincando... “devia fazer isso sempre, ou melhor, só de vez em quando pra mudar um pouco, não acha?” ele parecia mais um consultor de moda!
- Ah, Pry, não brinca assim não.
- Não estou brincando, ele perdeu totalmente a noção do ridículo com você!
- É uma relação estranha mesmo, eu tenho que admitir.
- Exatamente isso.


*Escrito em Agosto de 2006

P.S.:

  • Acaso: Conjunto de causas independentes entre si que, por leis ignoradas, determinam um acontecimento qualquer.

  • Destino: Sucessão de fatos que podem ou não ocorrer, e que constituem a vida do homem, considerados como resultantes de causas independentes de sua vontade.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Fiz um apanhado de antigos textos meus, os que eu julgar que vale a pena, postarei aqui nos próximos dias, as postagens referentes a estes textos levarão o marcador "textos antigos".
O pequeno conto a seguir foi escrito no segundo semestre de 2006.
***
(Des)encontro

- Ops... Desculpa... Ah! Oi tudo bem? Não vi que era você...
- Tudo bem, e com você?
- Tudo.
- Quanto tempo! O que anda fazendo da vida?
- Nada de mais, só o de sempre!
- Saudade...
- Também estava.
- Você está linda como sempre!
Eu tremia como que em febre, quando ouvi esta frase meu coração disparou... senti um calafrio, meus pés saíram do chão... seus dedos tocaram meu rosto, eu estava imóvel, ele colocou meu cabelo, que caía displicentemente pela face, atrás da orelha...
- Imagina! São seus olhos.
Eu estava mais atrasada do que antes, subi as escadas correndo, com o coração batendo ainda mais rápido, cheguei na sala, abri a porta ofegante:
- Professora, posso entrar?
- Atrasada de novo? Pode entrar, mas vai ficar com falta nesta aula.
- Tudo bem professora, prometo que não vai mais acontecer!
Eu fiz tal promessa sabendo que não iria conseguir cumprir, sempre tive problemas com os meus horários, não por falta de responsabilidade, mas porque o tempo é algo que sempre fugiu ao meu controle, algo muito influente que eu nunca entendi direito.
Mas eu não estava preocupada com promessa nenhuma, nem com aula nenhuma, naquele momento eu só conseguia pensar em uma coisa: aquela boca que há pouco esteve tão perto da minha...
- O que aconteceu Marina? Você está pálida!
- Você não vai acreditar...
- O que o Paulinho fez desta vez?
- Ah não, Pry, eu sou tão transparente assim?
- A verdade?
- ...
- É!

sexta-feira, 11 de julho de 2008

O amor é uma força da natureza.


Passados mais de dois anos de sua estréia nos cinemas nacionais, assisti, na última sexta-feira, ao filme, do cineasta taiwanês Ang Lee, “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005), como foi chamado no Brasil.
Longe de ser um clássico, o filme, para a redenção de Ang Lee, está ainda mais longe de se encaixar nos moldes do entretenimento de massa, como foi Hulk, uma das últimas produções do diretor.
Para quem procura ação, com certeza, eu não recomendaria Brokeback. Há quem diga que seu roteiro é “arrastado”, a meu ver, este “marasmo” é uma estratégia inteligente e indispensável ao desenvolvimento do enredo. Brokeback é, ao contrário, um filme emotivo.
A produção recebeu oito indicações ao oscar, incluindo melhor filme, sendo considerado o favorito a vencer nessa categoria (não que isto seja de extrema relevância para mim, mas o oscar é sempre uma referência, se este é um fator positivo ou não, já é outra história).
Mas para o desapontamento da crítica, Brokeback não levou a estatueta, senão pela direção de Ang Lee, cabe dizer que, este foi o primeiro oscar do cineasta. Além da categoria “melhor diretor”, o filme levou mais duas estatuetas: Melhor roteiro adaptado e melhor trilha sonora original, sem contar inúmeras premiações em eventos estrangeiros.
Confesso que nada disso importou quando fiz a escolha do filme: foi totalmente ao acaso e à seco; não li a sinopse, apenas aluguei.
Mencionei este detalhe porque o considero indispensável para a minha posterior impressão, na qual é fundamentada toda esta crítica.
As belas paisagens montanhosas do Estado de Wyoming, no meio-oeste americano e do, também interiorano, Texas, foram o cenário utilizado para trazer às telas a controversa e polêmica temática da homossexualidade.
Brokeback é baseado no conto homônimo da jornalista e escritora americana Annie Proulx e conta a história de Ennis Del Mar e Jack Twist, dois jovens cowboys que se conhecem durante um emprego temporário no verão de 1963.
Isolados do mundo no alto da Montanha Brokeback, e tendo como companhia apenas dois cavalos, cães e o rebanho de ovelhas que foram contratados para proteger, os diálogos entre os personagens centrais são sempre bastante densos, o que faz com que cresça, de forma hiper sutil, uma amizade e um companheirismo instintivo e conflituoso que culmina, surpreendentemente, num urgente encontro sexual entre os dois.
O roteiro, igualmente perturbado, parece seguir à risca o estado de humor dos personagens, que, mesmo apaixonados, são obrigados a seguir caminhos diferentes.
Embora a sutileza seja a marca registrada nas relações entre os personagens, e, de fato, há um clima de tensão do primeiro ao último minuto, o que dá charme à Brokeback é justamente o contraste dado pelas atitudes sempre tão extremadas dos personagens, após longos períodos de repressão dos sentimentos.
O grande trunfo da obra-prima de Ang Lee, além das brilhantes atuações do falecido ator australiano Heath Ledger e do americano Jake Gyllenhaal, é, sem dúvida, a sensibilidade e a concisão com que o enredo se desenvolve.
O filme é todo uma grande surpresa, a começar por se tratar da história de amor entre dois cowboys, o que, de certa forma, subverte a antiga imagem de homens machões que se tem dos cowboys desde os antigos westerns.
E realmente, até a primeira cena de sexo do filme, o que menos se imagina é que eles sejam gays, na realidade, é necessário que se enfatize, nem os próprios sabiam disso.
Brokeback é um filme de poucas palavras e repleto de sentidos implícitos.
E, aproveitando-se desta atmosfera silenciosa, dispara um tiro certeiro que atinge paradigmas sociais complexos. Com um roteiro provocante, o filme levanta questões difíceis, tocando também em profundos e delicados princípios individuais, e se não exagero, desequilibrando padrões de pensamento, leva os espectadores a rever certos conceitos. E a questão vai muito além do preconceito e da homofobia.
O Segredo de Brokeback Mountain é, antes de mais nada, um filme sobre amor.
E se o amor é mesmo uma força da natureza (como são os instintos); se amar não se aprende, não se renega, apenas se ama, então Brokeback talvez seja uma das obras que trouxe com mais propriedade a temática do amor enquanto tal, na história do cinema. Isto, claro, na minha leiga e humilde opinião.
Quanto ao medo e aos opostos, este duelo impregnado na atmosfera do filme vem ilustrando o que, a meu ver, caracteriza o grande dilema humano:
Arriscar-se à felicidade ou passar a vida se escondendo?
Ennis Del Mar e Jack Twist fizeram suas escolhas. E o final é óbvio, mas ainda assim, surpreendente (e também neste sentido a arte imita a vida), como não poderia deixar de ser.




Leia o conto de Annie Proulx na íntegra.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Alusão à Clarice



O trecho que se segue é um fragmento da obra, de Clarice Lispector, “A hora da estrela” e entre todos os seus significados para mim, três deles merecem destaque.
Primeiro: é Clarice e isto já fala por si só.
Segundo: é A hora da estrela, o último grito da autora. Sou suspeita em dizer, visto a marca que este texto deixou em mim, que esta talvez seja a melhor obra da pessoa que soube, como ninguém, traduzir em palavras o universo feminino. Cada uma dessas tão genialmente traçadas linhas, falam diretamente à alma, à minha alma. E creio que também a todos aqueles que apreciam as formas de expressão da arte, seja ela qual for.
E terceiro: Esta parte introdutória do livro foi adaptada para o teatro por uma grande amiga, Juliana Gregolin, para uma peça intitulada "Quimera", da qual eu tive a honra de ser co-roteirista e a última da Companhia de Artes Salada Mista, da qual, orgulhosamente, fui membro por três anos.
Dedico este cantinho do meu blog aos meus queridos amigos, colegas de sala e companheiros de grupo.
Nós tivemos a sorte de ser etianos e mais do que isto, de termos uns aos outros.
Aos quinze, éramos jovens engajados e, por um objetivo em comum, nos unimos numa parceria que durou até o fim do Ensino Médio.
O terceiro H fez história. Quem dera que todos aproveitassem as oportunidades que a vida nos dá, como nós fizemos...
Hoje somos "gente grande", seguimos nosso caminho, alguns na faculdade, alguns trabalhando, mas cada qual com seu projeto particular de vida. Mas sabe, essa parceria não durou, como eu disse, apenas três anos, há um pedacinho de cada um marcado para sempre no outro.
E quem sabe não haja mesmo a reapresentação, que tanto queríamos, em agosto?
Mesmo com algumas pessoas longe, o coração carrega, ainda, o sentimento do mundo.

“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.
Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré história já havia monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique. Meu coração se esvaziou de todo desejo e reduz-se ao próprio último ou primeiro pulsar. A dor de dentes que perpassa essa história deu uma fisgada funda em plena boca nossa. Então eu canto alto agudo uma melodia sincopada e estridente – é a minha própria dor, eu que carrego o mundo e a falta de felicidade. Felicidade? Nunca vi palavra mais doida [...]”



* Veja a lista de links ao lado, na seção: “... e nasceu uma grande parceria”.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Identidade


Às queridas Helô e Evanda, pelas visitas ao circo, ao museu e, principalmente, pela companhia neste semestre

"[...] Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero há calma e frescura na superfície intacta. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consuma com seu poder de palavra e seu poder de silêncio [...]"


***

Ouve sem ouvir, está dentro.
Chiu! Cala! Ouve.
Fala, mas sem dizer nada.
Pensa.
Este emaranhado aí dentro é você (que grita)!
Senta e lê Drummond.
Penetra. Pensa.
Está aí. Em você.
Põe pra fora.
Escreva.
Diga
O que quiser.
Deixa sair o som.
Trace as linhas.
Não precisa,
apenas
pensa!
Guarda.
Esta marca vem do ventre materno.
E a pele tatuada atravessa o tempo
Enruga,
recria as figuras em si.
Com a tinta mais colorida, pinta todos os berros do mundo
Todas as canções
Todas as poesias
Deixando o rastro das cores
não na pele do homem, mas na epiderme da Terra.
Circula pela corrente sangüínea.
Ele cala.
Mas sua voz ecoa
eternamente
mente...
mente...
mente.
Mas não continua estática.
Modula, modelo, modela.
Neologismo.
E estes novantigos fonemas desconexos
Saltam, se beijam.
São seres.
A possessão.
Veja como elas te possuem
Aliás, vocês possuem-se mutuamente.
Pára e contempla esta maravilhosa
Inversão de papéis:
Ela penetra você.
Acintosamente sopra desconhecidos símbolos em seu ouvido.
Mascara-se, transforma-se.
Te seduz...
e te provoca.
Fecha o livro.
Atordoado de sentido.
Senta para não cair.
E procura a chave.
Palavra s.f. 1. Fonema ou grupo de fonemas com uma significação; termo, vocábulo.
2. Sua representação gráfica. 3. Manifestação verbal ou escrita. 4. Faculdade de expressar idéias por meio de sons articulados, fala. 5. Modo de falar.
Questiona o Aurélio
retoricamente.
Será?

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Existência Extraterrestre


O que o ser humano mais aspira é tornar-se um ser humano.
Clarice Lispector


Marcianos invadem a Terra.
São os marcianos que invadem,
Ou nós que somos os marcianos na Terra?
Por que olho no espelho
E não me reconheço mais?
Sou a sombra do que fui um dia
Ou estou me tornando uma pessoa?
Toca Raul.
Eu sou uma metamorfose ambulante
E isso assusta.
Quando foi que aconteceu?

Quando?
Fui abduzida pelos extraterrestres da Terra
E eles alimentam-me
De uma imundície
Que me embrulha o estômago,

Prejudica-me a saúde.
Estamos todos à mercê deles,
Estamos à mercê de nós mesmos.
Porque somos assim
E aceitamos sê-lo!
Continuo em mutação.
Metamorfose ambulante.
Não quero me tornar um deles:
Capturar a sua alma
E manipular o seu cérebro,
Controlar os frágeis, iguais a mim;
Impor as minhas leis.
Matar a esmo,
E rir sobre o sangue em minhas mãos.
E o espírito num frasco.
Não faça chorar.
Jogue, mas não sem antes examinar:
O bumerangue sempre volta pra você.
Quisera eu viver em Marte!
Pego minha nave espacial
E me mudo para lá.
Quem sabe, eu encontre vida em Marte.
Quem sabe (?)

Encontre gente.
E sorrisos menos pérfidos
E vidas menos oprimidas
E almas menos segregadas...



*Escrito em Janeiro de 2008*

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Na Contramão

“Devemos constantemente mudar nossa visão. Quando você acredita que sabe uma coisa, deve olhar sob outro prisma. Quando ler, não considere apenas a visão do autor, considere o que você pensa. Você deve encontrar sua própria voz, quanto mais demorar a começar, menos chance terá de encontrá-la em plenitude.”

Robim Williams em Dead Poets Society.
**
Não apenas pela homenagem ao compositor, até porque esta letra vai muito além, aliás, não é segredo pra ninguém esta minha paixão, já antiga, pelo Renato Russo e todo o fruto de sua obra que contrbuiu (e muito) para o modo de pensar de tantas Legiões de jovens (do passado, presente e futuro).
Não é apenas porque me identifico ou porque choro ouvindo a letra ou porque meu coração, descompassado, acompanha o descompasso da música (e do mundo).
Não é apenas pelo tanto que tenho aprendido (e que todos estão carecas de saber), não só pelos dias estudando sobre a "Reificação Humana" , ou porque me cheira a trabalho bem-feito, em dose dupla.
Também não pensem que quero pregar a minha verdade para todos que lerem este post, estou consciente da hipocrisia da qual, no entanto, sou fruto.
Não quero reproduzir esta oração.
Não quero (apenas) dizer "amém" no final
Palavras repetidas?
Mas quais são as palavras que nunca são ditas?
Algumas, simplesmente, precisam ser repetidas, quantas vezes for necessário
Portanto (e enquanto não encontro outra saída) faço minhas as palavras do Pensador, a partir de agora:
A Terra tá soterrada de violência
de guerra, de sofrimento, de desespero
a gente tá vendo tudo, tá vendo a gente
tá vendo, no nosso espelho, na nossa frente
tá vendo, na nossa frente, aberração
tá vendo, tá sendo visto, querendo ou não
tá vendo, no fim do túnel, escuridão
tá vendo no fim do túnel escuridão
tá vendo a nossa morte anunciada
tá vendo a nossa vida valendo nada
tô vendo, chovendo sangue no meu jardim
tá lindo o sol caindo, que nem granada
tá vindo um carro-bomba na contramão
tá vindo um carro-bomba na contramão
tá vindo um carro-bomba na contramão
tá rindo o suicida na direção
**
A bomba tá explodindo na nossa mão
o medo tá estampado na nossa cara
o erro tá confirmado, tá tudo errado
o jogo dos sete erros, que nunca pára 7, 8, 9, 10... cem
erros meus, erros seus e de Deus também
estupidez, um erro simplório
a bola da vez, enterro, velório
perda total, por todos os lados
do banco do ônibus ao carro importado
teu filho morreu? meu filho também
morreu assaltando, morreu assaltado
tristeza, saudade, por todos os lados
tortura covarde, humilha e destrói
eu vejo um Bin Laden em cada favela
herói da miséria, vilão exemplar
tortura covarde, por todos os lados
tristeza, saudade, humilha e destrói
as balas invadem a minha janela
eu tava dormindo, tentando sonhar
Sou um grão de areia no olho do furacão
em meio a milhões de grãos
cada um na sua busca, cada bússola num coração
cada um lê de uma forma o mesmo ponto de interrogação
nem sempre se pode ter fé
quando o chão desaparece embaixo do seu pé
acreditando na chance de ser feliz
eterna cicatriz
eterno aprendiz das escolhas que fiz
sem amor, eu nada seria
ainda que eu falasse a língua de todas as etnias
de todas as falanges, e facções
ainda que eu gritasse o grito de todas as Legiões
palavras repetidas
mas quais são as palavras que eu mais quero repetir na vida?
Felicidade, Paz, é...
Felicidade, Paz, Sorte
nem sempre se pode ter Fé,
mas nem sempre a fraqueza que se sente quer dizer que a gente não é forte.
"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
porque se você parar pra pensar na verdade não há"

terça-feira, 10 de junho de 2008

Que gosto tem o mel?


À Helô, minha mais nova querida amiga de todas as horas


Encho minhas narinas com o ar de um novo dia.
Não está ensolarado hoje, mas é bom poder respirar este ar.
Sento-me aqui nesta cadeira porque senti necessidade de falar sobre o que sinto. Ontem à noite voltando da faculdade pensei em escrever, mas já era muito tarde e eu estava exausta.

O meu coração anda batendo tão acelerado, só pode ser estresse...
Hoje quero abrir mão das metáforas que eu tanto aprecio, da linguagem poética, do vocabulário rebuscado, quero falar do que sinto. E o que sinto é tão simples, seu sentido está neste ar que eu respiro, não em palavras sofisticadas, por isso talvez seja tão difícil falar sobre sentimentos.
Entender é que é difícil. E às vezes dói, ontem à noite doeu.

É bonito, tão bonito que dói. Mas também é esquisito, triste. Eu não sei, mas queria saber.
Já desisti porque nunca consigo, embora no fundo, eu saiba que a resposta está muito perto, o que geralmente faço é fechar os olhos para ela, mas quem não faz isso?
Eu estou insegura e totalmente rendida, não é fácil admitir a impotência diante de mim mesma, “mentir para si mesmo é sempre a pior mentira”, por outro lado, é difícil lidar com a verdade, seja ela qual for. Quem diria, logo eu que sempre abominei a mentira! Surpreendo-me mentindo (mais uma vez!).
Nos olhos dele há uma ternura tão grande, não é possível que só eu perceba o quanto ele é um homem solitário. E não precisei conhecê-lo para saber disso, percebi no primeiro momento que o vi. Olhar para os olhos dele me desconcentra e mexe profundamente comigo, pensei inclusive em não encará-lo de frente, mas desisti da idéia, não sei por que, é melhor olhar do que não olhar. De qualquer forma, essas atitudes denotam certo medo, eu acho. Mas é que naqueles olhos não é difícil se perder, olhando para eles ontem viajei para longe, muito longe. Era um lugar onde tocava música, MPB, como ouço agora. Durante todo o tempo meus olhos não o deixaram, mesmo quando eu não olhava para ele, podia vê-lo, eu sempre o observo.
Ele não é bonito, talvez até seja, mas não no meu estilo (a estas alturas, já não sei mais se tenho um), não sei dizer o que vejo quando olho para ele, quem sabe eu não veja, apenas sinta.
Gosto do movimento de seus lábios enquanto fala, gosto do formato de seus dentes, mas principalmente adoro tudo o que o que vem de sua boca, cada palavra! Confesso, antes não era assim.
Ele não é atlético, mas tem um corpo simétrico, gracioso, bonito de ver, e o estilo de quem não está nem aí para a roupa que veste: “Danem-se, pensem o que quiserem de mim!”. *

Observo sua leitura compenetrada. Penso na pessoa que está ali sentada, no pai, no filho, no homem, no intelectual. Transporto-me para outra dimensão, uma realidade só minha, onde a gente caminha pisando no céu, neste lugar os sonhos são possíveis e as loucuras verdadeiras, vividas intensamente, sem medo. Lá não há correntes amarrando meus pulsos e eu posso abraçá-lo, é um sentimento puro, sem interesse. Eu sinto seu coração batendo, há alguém ali, alguém humano, não superior, mas imperfeito, como eu. Um estalo me traz de volta à realidade.* Parece interessante o que ele lê, está ali: “o que será que ele está pensado?”
Há tanta expressão em seu rosto, mais do que em qualquer outro. Tudo nele me atrai. São vontades estranhas que sinto quando olho para ele, quando o ouço falar, a voz, o vocabulário, o jeito... eu quero rir e chorar ao mesmo tempo, como se fosse possível. Mas não. Eu posso afirmar que não estou apaixonada, imagina, nem poderia! Se me apaixonasse, seria paixão e só, é um sentimento que já me é familiar, muito familiar, algo que fica aqui dentro um tempo, aumenta e depois vai embora. Mas dessa vez é diferente, eu sinto e não sei o que, mas vai ser só para mim.
O tempo passa numa velocidade inacreditável. É um tempo surreal, não cronológico. Tudo remete ao fim, parece que essa noite está doida para ir embora e me deixar, há ansiedade no ar e em alguma coisa na voz dele, isso me deixa com raiva, muita raiva. Mas isso já é uma outra história...*
A imagem da sala escura, ele sentado, a perna cruzada, a mão no joelho, esta imagem está aqui dentro e eu vou levar comigo para sempre (até que acabe), seus olhos e seus olhares, seus sorrisos (ele tem vários!), sua boca e o mel. Há mel em sua boca, mas eu acho que é um mel amargo.
Enquanto viajo em sua imagem e penso no gosto que tem o mel, tudo parece fazer sentido bem na minha frente. Mas aqui onde eu estou nada faz sentido.*
Está tão perto, mas está tão longe.
Pelo menos sei que este ar que respiro sai de sua boca, respiro o movimento de seus lábios quando ele fala. Eu poderia beijá-lo (e saber se o mel é mesmo amargo), mas só em pensamento.

**Escrito em Maio de 2008**

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O Livro Riscado


Tomei emprestado da biblioteca municipal um certo livro que me haviam recomendado.
Agora, com todo zelo, corro meus dedos leves por sua capa ocre onde há duas palavras escritas em letra sóbria. Lê-se seu título letárgico em vermelho.
Inicio o meu voraz passeio pelas páginas que trazem em si o amarelado do tempo.
Paro o olhar na terceira delas, onde se pode ler, acima do tombo, uma única frase escrita à mão: Livro com várias páginas riscadas a caneta 04/06/07.
Viro a página. Mergulho no enredo pintado num tom entre o amarelo e o laranja. Um estado de abatimento profundo intensifica-se em mim a cada página virada, a cada capítulo.
Neste livro não há pontos finais, apenas vírgulas. A verdade é que a vida não pára compadecida pelo seu sofrimento.
Capítulo cinco. Sou subitamente arrancada da atmosfera apática da obra novelesca por um pensamento escapista. Interrompo a leitura. Há algo secretamente íntimo unindo-me ao autor daqueles riscos traçados a tinta azul.
Os livros são rabiscos no mundo - a idéia invade meu ser surdamente.- E estes riscos em mim, ao lê-lo, encadeiam, em misteriosos anéis invisíveis, todas as pessoas que já leram este livro, que já correram os olhos por estas palavras...
As nuvens da tarde chuvosa de terça deixam o céu e eu, embriagada pela claridão da verdade (a minha pelo menos), me deixo conduzir pelos pés que antes acreditei estarem me levando à faculdade.
Já não importa mais para onde estou indo. Agora posso ver o caminho neutro do asfalto por onde meus tênis pisam firmes, causando ensurdecedores baques na avenida movimentada, portanto, penso, qualquer destino é bem-vindo.
Outro insight. Vêm à mente as palavras de Vergílio Ferreira, lidas no dia anterior: ... Era necessário que todos os homens vivessem em estado de lucidez; se libertassem das pedras, chegassem ao milagre de ver. Era absolutamente necessário que a vida se iluminasse na evidência da morte.
A máxima lembra-me: Eu deveria estar lendo Ensaio sobre a cegueira. Mas ao invés disto, leio este maldito livro rabiscado.

Os rabiscos incomodam, não?
Voltando à lucidez...
Obrigada, Raduan. Obrigada por arrancar de mim as vendas.
Penso, então, em tudo o que antecedeu e sucedeu àquele momento em que ali, chacoalhada frente à Lavoura, chego à grande evidência de uma breve existência ainda iniciante:
"A vida toda é um livro rabiscado".

terça-feira, 3 de junho de 2008

Acredito que seja notória, em minhas produções atuais, a marca que esta nova fase tem deixado em mim.
Meu olhar tem mudado de forma surpreendente a cada dia. Há, então aqui, toda manhã, uma Mara diferente...
Confesso que dou graças à Deus por estarem terminando os trabalhos, já estava sufocada, parecia uma interminável bateria de loucuras com prazo de validade. A partir de amanhã ânimos renovados para o mundo, para a agitação do dia-a-dia, para enfrentar, sem grandes fraturas, o clima sempre tão tenso do ambiente de trabalho.
Mas dou graças à Deus, também, pelas noites mal dormidas, pelos finais de semana sacrificados, por todo este estresse... cada minuto tem valido a pena.
Sempre digo que somos eternamente responsáveis pela construção do que somos. Espero, sinceramente, que eu tenha razão.
Eu nunca tive tanta certeza de estar no caminho certo.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Na Gaveta da Memória




Aos amigos queridos dos quais sempre sentirei saudade


Mas... você nunca vai perder o seu lugar em mim, ainda que queira abrir mão dele.
Sabe que tudo o que temos na vida são nossas lembranças. Nós somos feitos de lembranças, tudo o que somos, toda a bagagem adquirida e tudo que aprendemos na vida fica guardado na gaveta da memória.
Não pretendo ser repetitiva ao dizer que as pessoas são insubstituíveis, mas sou levada a fazê-lo, pois elas verdadeiramente o são. Ninguém, absolutamente ninguém, é igual ao outro, e é este o grande barato da vida! E ainda tem gente que não enxerga. E pior, que não respeita. Não entro nestes méritos, o assunto aqui é outro. Estava falando de nós. Você e eu.
Pessoas como você, vêm e vão em nossas vidas, mas quando vão, não vão por inteiro, sempre deixam parcelas de si sorvidas em nós. Somos um grande aglomerado da vivência do mundo! E especialmente de pessoas que significaram mais um passo rumo a este “algo mais” do qual estamos constantemente em busca.
Repito, a despeito de qualquer outra questão humana, isto é tudo o que temos para sobreviver. Estes retalhos. Estas bolsas repletas de recortes desordenados dos quais nos apropriamos para tecer nossa própria colcha pessoal.
Daí a importância de falarmos em nós. Você nunca deixará de ser parte do que sou, mesmo não estando aqui agora. É que quero que tome consciência desta marca ao mesmo tempo tão sutil e significativa que tatuou em mim.
É por isso também que se deve dizer o que se sente e deixar sempre quem amamos ciente deste sentimento, não só com palavras, mas com atitudes, pois é assim que seremos lembrados. Tudo fica guardado na minha gaveta. E na sua também.
Tudo está definitivamente escrito na jornada do tempo, os momentos que passamos juntos (os bons e os ruins também), ninguém poderá apagá-los e nada, absolutamente nada, pode mudá-los.


terça-feira, 20 de maio de 2008

Serespaperconfi

Maria, Maria. Sempre Maria! Ela era uma garota não muito bem sucedida no amor. Qualquer semelhança com a realidade... (o conto segue nos próximos três posts)



Maria nunca foi muito bem sucedida no amor.
Tanto que um dia chegou a acreditar que estava destinada a ficar para titia.
E ficou, já foi tia antes mesmo de ter idade para namorar.
O primeiro amor de Maria fez xixi na calça no meio da aula. Depois disso a garota desencantou, mesmo a culpa sendo da professora que não o deixou ir ao banheiro.
***
O segundo era um menino lindo, de olhos verdes. Bruno. Acho que ele era meio preconceituoso.
Maria era morena, sabe? Morena-jambo. Ela sempre acreditou que estes eufemismos mascaravam certo racismo.
O Bruno também não serviu.
***
Depois veio o André. Ele não era bonito, não era bom aluno e quase sempre ia para a diretoria por mau comportamento.
Acho que era por isso que ela gostava tanto dele.
***
O Sérgio era popular na escola e ela nunca se esqueceu de seu rosto. Nos intervalos das aulas, suas amigas ameaçam contar a ele sobre sua paixão. Maria nunca tomava seu lanche no recreio, ela costumava passar o tempo todo escondida no banheiro.
***
O Thiago era um grande amigo. Eles viviam conversando. Ele tinha as bochechas mais rosadas que Maria já havia visto. Foi a primeira vez que a garota sentiu o coração bater forte só de olhar para uma pessoa. Ela estava com medo de que estas palpitações que vinha sentindo fossem doença e, percebendo que elas surgiam sempre ligadas à imagem de Thiago, decidiu romper a amizade.
***
Foi assim que passou a reparar no José Carlos, mas ele era filho de professora, não se interessaria por ela. O José Carlos, além de muito inteligente, gostava da Monise que, aliás, era a melhor amiga da Maria.
***
O Diego era da sexta série, ela da quinta.
O mais gostoso em gostar do Diego é que a garota podia dividir este sentimento com a sua meia-irmã, Sandra. A Sandra também estava na quinta série e gostava do Juan, que era da sexta.
As duas passavam o tempo todo falando sobre seus amores impossíveis.
Sandra escrevia poemas, mas nunca os entregava.
Maria desfilava nos intervalos esperando um único olhar de Diego.
Um dia Sandra decidiu entregar os poemas.
Sandra e Juan ficaram juntos.
Maria continuou desfilando para Diego.

Miltinho era do bairro, ele não parecia ser “boa coisa” - era o que a mãe de Maria costumava dizer. Ele era moreno e atlético e sempre “mexia” com ela quando passava.
Ele gosta de mim! – a garota pensava.
Ela sabia onde encontrá-lo e quando o via, ficava feliz.
Apesar disso, ela não o procurava, e o máximo que fizeram foi trocar olhares pelas ruas do bairro. Depois de algum tempo, ela não mais o viu.
***
Maria não era precoce como as outras garotas do colégio e por isso na sétima série era considerada aberração por nunca ter beijado ninguém.
A sétima série foi difícil em vários aspectos para ela. Entre eles, talvez esteja sua paixão pelo Nilson, a quem, carinhosamente, chamava de Nilsinho. O Nilsinho era do segundo ano e vivia rastejando – como ela costumava dizer- atrás de uma loira que não ligava para ele, que por sua vez, não ligava para Maria.
O mais insuportável nesta história, além da paixão não correspondida, era ter que agüentar o chato do irmão do Nilson, que vivia dizendo à garota: “Até parece que o meu irmão vai se interessar por uma garota como você, não vê que você é feia?”.
Maria fingia que não se importava e seguia em frente.
Ela nunca esqueceu o Nilson.
***
Foi quando surgiu o Bruno. Outro Bruno.
(Brunos e Andrés é o que não falta mundo, eu, particularmente, conheci vários.).
Ela se interessou por ele logo no primeiro dia de aula. Ele estava sempre junto com a Beatriz, Maria chegou a acreditar que eles eram namorados. Tão logo os quatro se tornaram amigos (Bruno, Beatriz, Maria e Carol, amiga antiga de Maria), como deveria ser. Não demorou para a garota descobrir que Bruno e Beatriz não namoravam e menos ainda para que os dois (Bruno e Maria) se tornassem amigos íntimos.
Um dia ela decidiu contar a ele sobre o que sentia. E antes mesmo de darem o primeiro beijo, já estavam namorando.
O namoro durou quatro dias.
Depois de algum tempo, Maria ficou sabendo que Bruno era gay.
No cursinho preparatório para a escola técnica, Maria “conheceu” o Murilo. Conheceu assim mesmo entre aspas, porque ela nunca o conheceu de verdade. Mas também nunca sentiu algo que se assemelhasse tanto ao que julgava ser amor, quanto sentia por ele.
Foi apenas um mês e ela nunca falou sobre isso, exceto com as meninas com quem costumava conversar.
Depois que o curso acabou, Maria julgou que nunca mais o veria, mas, para sua surpresa, o encontrou algumas vezes no ônibus. Maria sentiu vontade de falar, mas não falou.
***
Era tudo tão novo para ela - um mundo paralelo - esta nova escola.
Havia, na garota, certa “urgência”, nova escola sempre traz novos amores e dessa vez ela tinha certeza de que daria tudo certo. O príncipe viria, num cavalo branco, finalmente.
Uma das pessoas da nova turma com a qual Maria mais conversava era Cláudio. Ele dizia que em menos de seis meses ela estaria com um cara legal. Não demorou para que a garota se apaixonasse por ele. A Paty também gostava do Cláudio, elas conversaram e Maria resolveu que seria melhor contar ao garoto.
Foi difícil como nunca falar sobre seus sentimentos.
Depois de ouvir, Cláudio passou a ignorar a garota.
Com o tempo, eles se tornaram grandes amigos. E ela já não sabia mais o que realmente sentiu um dia.
***
O nome “Renato” remetia Maria a coisas boas. Lembrava música boa, seu compositor favorito.
Mas este Renato não era o que se podia chamar de "cara legal".
Era bonito. E só.
Bem que sua amiga, que era da turma dele, tentou ajudar. Mas acabou atrapalhando.
Eu faço este favor a ela – disse ele.
Maria sentiu vontade de cuspir na cara dele.
***
Dos amores da garota, Júlio, sem dúvida, foi o mais intrigante.
Havia mistério em seus olhos... sombra. Ele, certamente, era diferente da maioria das pessoas com quem Maria estava acostumada a se relacionar. Ela precisava explicar o que de tão inexplicável exprimia-se através daquele olhar, sempre tão dúbio, acintoso.
Era manhã e o sol refletia em seus cabelos claros e uma luz particularmente especial minava de seus olhos cor-de-mel. Foi então que Maria soube que precisava descobri-lo. Mas descobriu demais...
Ele era absolutamente igual aos outros.
Esqueceu. Não, não esqueceu, tentou sufocá-lo em beijos apaixonados...
Maurício surgiu como o príncipe que Maria imaginava. Prometeu-lhe amor eterno. E por isso ela acreditava que gostava dele.
Na verdade acho que ela gostava é de saber que ele estava ali. Ou gostava mesmo dele?
O fato é que acabou. E não poderia haver motivo mais banal.
Mas que banalidade é esta que destrói um amor eterno?
Não está mais me fazendo bem estar com você, é melhor terminarmos. – ela.
Também acho. E é melhor pararmos por aqui se quer que ainda reste amizade. – ele.
Uma semana depois, ele estava "se pegando" no granado da escola com uma ruiva pedante.
***
O Daniel surgiu assim como desapareceu, do nada.
Ele dizia que não queria compromisso, que já tinha se decepcionado muito e por isso nunca mais iria envolver-se com alguém.
Maria jurou que também não se envolveria, não dessa vez.
O Daniel sumiu, mas, alguns meses depois, a garota soube que ele estava namorando sério.
***
Muito tempo passou. Maria estava mudada, não era mais uma menininha, via o mundo com outros olhos.
Mas em sua bagagem estava toda esta história, um trauma, talvez. Mas não, ela não gostava de pensar assim.
Certa vez ouviu de sua tia que as mulheres da família estavam condenadas a uma maldição: ficar sozinhas. Fazia sentido. Avó e tias viúvas, mãe divorciada, primas solteironas.
Parecia que a garota trazia em si uma marca, como tatuagem.
É o que dizem: Azar no amor, sorte no jogo.
Não tardaria para que Maria enriquecesse.
Certamente, em breve, ganharia na loteria.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Mais uma pensando no Chuchu


O Texto abaixo trata-se de uma "Pequena Mentira"


Nunca em minha vida escrevi com tanta freqüência. Algo, certamente, não está igual.
Por que tanta inspiração de uma hora para outra? Embora saiba o que é (não sei se sei), prefiro não enxergar, já não é fácil assim, não quero tornar piores as circunstâncias.
Por que olhar para ele me revira o estômago e faz o coração parar nas costas?
(Eu existo e ajo como se não existisse.)
De repente um soco no peito, falta o ar... Ai, dói! Não queria que doesse tanto!
Vou parar de olhar, cutucar, remexer...
Não quero mais encontrar-me com suas lembranças. Não me interessa a sua vida, formação, família, rompimentos, traumas.
Não me interessa suas articulações, suas críticas, nem seu sentimento fetal.
Suas resignações, comparações, visões... não me interessa seus olhares!
(Ontem ele não olhou para mim.)
Já não posso mais, começa a me faltar também a fome.
Já decidi, parei.
Não cutuco, não remexo, não olho,
nunca mais
.
Não invado. Não está certo. Limito-me a ser
apenas o que sou
e nada mais.
Queria verdadeiramente que fosse assim, mas não é.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Parece que tudo que temos são retalhos do passado.



terça-feira, 13 de maio de 2008

Permita-me um instante de êxtase

à alguém que (sem saber) tem me ensinado muito

Será que posso ter o meu momento agora,
Meu instante etéreo de arrebatamento?
Eu preciso beber desta fonte,
As águas que escorrem pelo teu punho.
Cada sílaba, cada ponto e vírgula
(ele não deixa de pingar os is).
E eu amo cada palavra que vem dele.
Me deixa?
É meu instante poético do qual eu não abro mão.
É bonito e toca fundo como nada jamais me tocou
Nem os versos de Drummond,
Nem a prosa de Clarice.
Ele não é poeta, talvez nem seja escritor.
Ele não possui a escrita,
É a escrita que o possui
(E por meio dela, ele possui a mim).
E é tão intimista, tão reflexivo,
Tão purista.
É meigo.
É um tapa na cara.
É tudo junto.
É tudo ao mesmo tempo.
Já passou.
É agora
(Tão bonito que dói).
E me pego sonhando de novo...
É o pássaro branco que chega afrouxando as amarras de minha alma
É o coração que pode bater com a intensidade que bem entender.
Assim, percebo a importância das relações.
Foi o Tom quem disse
“É impossível ser feliz sozinho”.
Ser feliz (é possível?)...
São raros estes encontros realmente verdadeiros
em nossas vidas.
Ironia.
Os desencontros são tão comuns!
Mas tudo é sempre muito relativo, não é mesmo?
E ele ainda diz que não quer confete.
Respondo: À ti nada mais tenho a oferecer, senão aplausos.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Carpe Diem



"Carpe Diem" quer dizer "colha o dia". Colha o dia como se fosse um fruto maduro que amanhã estará podre. A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente.

Rubem Alves



sexta-feira, 25 de abril de 2008

Resposta à Lista*


*Vide Música "A Lista", de Oswaldo Montenegro



E depois de muito pensar no que se foi, descobri que o importante não é o que se foi, mas o que ficou.

***

Fiz uma lista dos grandes amigos que tinha a dez anos atrás, e descobri que eles não ficaram no passado, mas sim aqui dentro.

Fiz uma lista dos sonhos que tinha, e percebi que muitos deles deixaram de ser sonhos e se tornaram realidade, enquanto outros tiveram de ceder seus lugares a novos sonhos.

Fiz uma lista dos amores que jurei eternos e que não duraram para sempre, e percebi que eles, mesmo breves, foram eternos enquanto duraram.

Hoje me olho no espelho e não vejo a Mara de dez anos atrás, não me reconheço, sou uma pessoa nova e muito melhor, evoluída, uma pessoa que estou aprendendo ainda a chamar de "EU". Me olho na foto antiga e abro mão do que eu fui para assumir aquilo que sou, e mais do que isso, admiro aquilo que eu fui porque aquilo que fui, tornou-me o que sou.
Hoje não sou do jeito que achei que seria, mas com certeza sou do jeito que devo ser.

Quantos amigos eu joguei fora?
Nenhum, amigos são marcas eternas, são cicatrizes que nem cirugia plástica remove, eles se tornam parte do que nós nos tornamos.

Os mistérios que sondava não são mais mistérios para mim, porque eu cresci e aprendi seus significados e significantes.

E os meus segredos do passado, bobos no presente, não deixaram de ter sua importância, porque ficaram guardados em algum momento no tempo e no espaço e se removam a cada, pois fazem parte da minha história, daquilo que fui e que sou.

Aprendi a viver com as mentiras que ontem condenei, o que não significa que hoje eu as aprove, apenas descobri que as mentiras também têm contexto, assim como as verdades, a minha verdade é essa, qual é a sua?

Se meus defeitos sanados eram o melhor em mim, por que extingüiram-se? O melhor em mim está aqui dentro, bem no fundo, e isto eu vou levar para além da eternidade, pois a essência das coisas nunca se perde, apenas se transforma.
(Eu sou uma metamorfose ambulante e tento a cada dia me acostumar com isto.)

E as canções que hoje canto é o que eu tenho para viver, é o que eu plantei no passado e agora colho. Minha vida é assim porque EU a construí assim, não é o que sonhei (não sei nem o que eu sonhei), mas é o melhor que eu pude fazer.

O amor não se perde, também ele é coisa transitória, camufla-se, adapta-se, mostra outras faces que não conhecíamos, ou simplesmente, adormece. Os amores passados, correspondidos ou não, estão aqui no registro do que sou e marcam com profundidade no íntimo das pessoas que foram, são amadas, que amaram, amam.


Quanto às pessoas que dizem "EU TE AMO" no presente, o mínimo que minha subjetividade conturbada me permite é acreditar em suas palavras, e se puder retribuir, senão com o mesmo amor (pois ninguém ama igual a ninguém), com tudo aquilo que minha alma me permita oferecer, eu o farei.