terça-feira, 24 de junho de 2008

Identidade


Às queridas Helô e Evanda, pelas visitas ao circo, ao museu e, principalmente, pela companhia neste semestre

"[...] Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero há calma e frescura na superfície intacta. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consuma com seu poder de palavra e seu poder de silêncio [...]"


***

Ouve sem ouvir, está dentro.
Chiu! Cala! Ouve.
Fala, mas sem dizer nada.
Pensa.
Este emaranhado aí dentro é você (que grita)!
Senta e lê Drummond.
Penetra. Pensa.
Está aí. Em você.
Põe pra fora.
Escreva.
Diga
O que quiser.
Deixa sair o som.
Trace as linhas.
Não precisa,
apenas
pensa!
Guarda.
Esta marca vem do ventre materno.
E a pele tatuada atravessa o tempo
Enruga,
recria as figuras em si.
Com a tinta mais colorida, pinta todos os berros do mundo
Todas as canções
Todas as poesias
Deixando o rastro das cores
não na pele do homem, mas na epiderme da Terra.
Circula pela corrente sangüínea.
Ele cala.
Mas sua voz ecoa
eternamente
mente...
mente...
mente.
Mas não continua estática.
Modula, modelo, modela.
Neologismo.
E estes novantigos fonemas desconexos
Saltam, se beijam.
São seres.
A possessão.
Veja como elas te possuem
Aliás, vocês possuem-se mutuamente.
Pára e contempla esta maravilhosa
Inversão de papéis:
Ela penetra você.
Acintosamente sopra desconhecidos símbolos em seu ouvido.
Mascara-se, transforma-se.
Te seduz...
e te provoca.
Fecha o livro.
Atordoado de sentido.
Senta para não cair.
E procura a chave.
Palavra s.f. 1. Fonema ou grupo de fonemas com uma significação; termo, vocábulo.
2. Sua representação gráfica. 3. Manifestação verbal ou escrita. 4. Faculdade de expressar idéias por meio de sons articulados, fala. 5. Modo de falar.
Questiona o Aurélio
retoricamente.
Será?

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Existência Extraterrestre


O que o ser humano mais aspira é tornar-se um ser humano.
Clarice Lispector


Marcianos invadem a Terra.
São os marcianos que invadem,
Ou nós que somos os marcianos na Terra?
Por que olho no espelho
E não me reconheço mais?
Sou a sombra do que fui um dia
Ou estou me tornando uma pessoa?
Toca Raul.
Eu sou uma metamorfose ambulante
E isso assusta.
Quando foi que aconteceu?

Quando?
Fui abduzida pelos extraterrestres da Terra
E eles alimentam-me
De uma imundície
Que me embrulha o estômago,

Prejudica-me a saúde.
Estamos todos à mercê deles,
Estamos à mercê de nós mesmos.
Porque somos assim
E aceitamos sê-lo!
Continuo em mutação.
Metamorfose ambulante.
Não quero me tornar um deles:
Capturar a sua alma
E manipular o seu cérebro,
Controlar os frágeis, iguais a mim;
Impor as minhas leis.
Matar a esmo,
E rir sobre o sangue em minhas mãos.
E o espírito num frasco.
Não faça chorar.
Jogue, mas não sem antes examinar:
O bumerangue sempre volta pra você.
Quisera eu viver em Marte!
Pego minha nave espacial
E me mudo para lá.
Quem sabe, eu encontre vida em Marte.
Quem sabe (?)

Encontre gente.
E sorrisos menos pérfidos
E vidas menos oprimidas
E almas menos segregadas...



*Escrito em Janeiro de 2008*

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Na Contramão

“Devemos constantemente mudar nossa visão. Quando você acredita que sabe uma coisa, deve olhar sob outro prisma. Quando ler, não considere apenas a visão do autor, considere o que você pensa. Você deve encontrar sua própria voz, quanto mais demorar a começar, menos chance terá de encontrá-la em plenitude.”

Robim Williams em Dead Poets Society.
**
Não apenas pela homenagem ao compositor, até porque esta letra vai muito além, aliás, não é segredo pra ninguém esta minha paixão, já antiga, pelo Renato Russo e todo o fruto de sua obra que contrbuiu (e muito) para o modo de pensar de tantas Legiões de jovens (do passado, presente e futuro).
Não é apenas porque me identifico ou porque choro ouvindo a letra ou porque meu coração, descompassado, acompanha o descompasso da música (e do mundo).
Não é apenas pelo tanto que tenho aprendido (e que todos estão carecas de saber), não só pelos dias estudando sobre a "Reificação Humana" , ou porque me cheira a trabalho bem-feito, em dose dupla.
Também não pensem que quero pregar a minha verdade para todos que lerem este post, estou consciente da hipocrisia da qual, no entanto, sou fruto.
Não quero reproduzir esta oração.
Não quero (apenas) dizer "amém" no final
Palavras repetidas?
Mas quais são as palavras que nunca são ditas?
Algumas, simplesmente, precisam ser repetidas, quantas vezes for necessário
Portanto (e enquanto não encontro outra saída) faço minhas as palavras do Pensador, a partir de agora:
A Terra tá soterrada de violência
de guerra, de sofrimento, de desespero
a gente tá vendo tudo, tá vendo a gente
tá vendo, no nosso espelho, na nossa frente
tá vendo, na nossa frente, aberração
tá vendo, tá sendo visto, querendo ou não
tá vendo, no fim do túnel, escuridão
tá vendo no fim do túnel escuridão
tá vendo a nossa morte anunciada
tá vendo a nossa vida valendo nada
tô vendo, chovendo sangue no meu jardim
tá lindo o sol caindo, que nem granada
tá vindo um carro-bomba na contramão
tá vindo um carro-bomba na contramão
tá vindo um carro-bomba na contramão
tá rindo o suicida na direção
**
A bomba tá explodindo na nossa mão
o medo tá estampado na nossa cara
o erro tá confirmado, tá tudo errado
o jogo dos sete erros, que nunca pára 7, 8, 9, 10... cem
erros meus, erros seus e de Deus também
estupidez, um erro simplório
a bola da vez, enterro, velório
perda total, por todos os lados
do banco do ônibus ao carro importado
teu filho morreu? meu filho também
morreu assaltando, morreu assaltado
tristeza, saudade, por todos os lados
tortura covarde, humilha e destrói
eu vejo um Bin Laden em cada favela
herói da miséria, vilão exemplar
tortura covarde, por todos os lados
tristeza, saudade, humilha e destrói
as balas invadem a minha janela
eu tava dormindo, tentando sonhar
Sou um grão de areia no olho do furacão
em meio a milhões de grãos
cada um na sua busca, cada bússola num coração
cada um lê de uma forma o mesmo ponto de interrogação
nem sempre se pode ter fé
quando o chão desaparece embaixo do seu pé
acreditando na chance de ser feliz
eterna cicatriz
eterno aprendiz das escolhas que fiz
sem amor, eu nada seria
ainda que eu falasse a língua de todas as etnias
de todas as falanges, e facções
ainda que eu gritasse o grito de todas as Legiões
palavras repetidas
mas quais são as palavras que eu mais quero repetir na vida?
Felicidade, Paz, é...
Felicidade, Paz, Sorte
nem sempre se pode ter Fé,
mas nem sempre a fraqueza que se sente quer dizer que a gente não é forte.
"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
porque se você parar pra pensar na verdade não há"

terça-feira, 10 de junho de 2008

Que gosto tem o mel?


À Helô, minha mais nova querida amiga de todas as horas


Encho minhas narinas com o ar de um novo dia.
Não está ensolarado hoje, mas é bom poder respirar este ar.
Sento-me aqui nesta cadeira porque senti necessidade de falar sobre o que sinto. Ontem à noite voltando da faculdade pensei em escrever, mas já era muito tarde e eu estava exausta.

O meu coração anda batendo tão acelerado, só pode ser estresse...
Hoje quero abrir mão das metáforas que eu tanto aprecio, da linguagem poética, do vocabulário rebuscado, quero falar do que sinto. E o que sinto é tão simples, seu sentido está neste ar que eu respiro, não em palavras sofisticadas, por isso talvez seja tão difícil falar sobre sentimentos.
Entender é que é difícil. E às vezes dói, ontem à noite doeu.

É bonito, tão bonito que dói. Mas também é esquisito, triste. Eu não sei, mas queria saber.
Já desisti porque nunca consigo, embora no fundo, eu saiba que a resposta está muito perto, o que geralmente faço é fechar os olhos para ela, mas quem não faz isso?
Eu estou insegura e totalmente rendida, não é fácil admitir a impotência diante de mim mesma, “mentir para si mesmo é sempre a pior mentira”, por outro lado, é difícil lidar com a verdade, seja ela qual for. Quem diria, logo eu que sempre abominei a mentira! Surpreendo-me mentindo (mais uma vez!).
Nos olhos dele há uma ternura tão grande, não é possível que só eu perceba o quanto ele é um homem solitário. E não precisei conhecê-lo para saber disso, percebi no primeiro momento que o vi. Olhar para os olhos dele me desconcentra e mexe profundamente comigo, pensei inclusive em não encará-lo de frente, mas desisti da idéia, não sei por que, é melhor olhar do que não olhar. De qualquer forma, essas atitudes denotam certo medo, eu acho. Mas é que naqueles olhos não é difícil se perder, olhando para eles ontem viajei para longe, muito longe. Era um lugar onde tocava música, MPB, como ouço agora. Durante todo o tempo meus olhos não o deixaram, mesmo quando eu não olhava para ele, podia vê-lo, eu sempre o observo.
Ele não é bonito, talvez até seja, mas não no meu estilo (a estas alturas, já não sei mais se tenho um), não sei dizer o que vejo quando olho para ele, quem sabe eu não veja, apenas sinta.
Gosto do movimento de seus lábios enquanto fala, gosto do formato de seus dentes, mas principalmente adoro tudo o que o que vem de sua boca, cada palavra! Confesso, antes não era assim.
Ele não é atlético, mas tem um corpo simétrico, gracioso, bonito de ver, e o estilo de quem não está nem aí para a roupa que veste: “Danem-se, pensem o que quiserem de mim!”. *

Observo sua leitura compenetrada. Penso na pessoa que está ali sentada, no pai, no filho, no homem, no intelectual. Transporto-me para outra dimensão, uma realidade só minha, onde a gente caminha pisando no céu, neste lugar os sonhos são possíveis e as loucuras verdadeiras, vividas intensamente, sem medo. Lá não há correntes amarrando meus pulsos e eu posso abraçá-lo, é um sentimento puro, sem interesse. Eu sinto seu coração batendo, há alguém ali, alguém humano, não superior, mas imperfeito, como eu. Um estalo me traz de volta à realidade.* Parece interessante o que ele lê, está ali: “o que será que ele está pensado?”
Há tanta expressão em seu rosto, mais do que em qualquer outro. Tudo nele me atrai. São vontades estranhas que sinto quando olho para ele, quando o ouço falar, a voz, o vocabulário, o jeito... eu quero rir e chorar ao mesmo tempo, como se fosse possível. Mas não. Eu posso afirmar que não estou apaixonada, imagina, nem poderia! Se me apaixonasse, seria paixão e só, é um sentimento que já me é familiar, muito familiar, algo que fica aqui dentro um tempo, aumenta e depois vai embora. Mas dessa vez é diferente, eu sinto e não sei o que, mas vai ser só para mim.
O tempo passa numa velocidade inacreditável. É um tempo surreal, não cronológico. Tudo remete ao fim, parece que essa noite está doida para ir embora e me deixar, há ansiedade no ar e em alguma coisa na voz dele, isso me deixa com raiva, muita raiva. Mas isso já é uma outra história...*
A imagem da sala escura, ele sentado, a perna cruzada, a mão no joelho, esta imagem está aqui dentro e eu vou levar comigo para sempre (até que acabe), seus olhos e seus olhares, seus sorrisos (ele tem vários!), sua boca e o mel. Há mel em sua boca, mas eu acho que é um mel amargo.
Enquanto viajo em sua imagem e penso no gosto que tem o mel, tudo parece fazer sentido bem na minha frente. Mas aqui onde eu estou nada faz sentido.*
Está tão perto, mas está tão longe.
Pelo menos sei que este ar que respiro sai de sua boca, respiro o movimento de seus lábios quando ele fala. Eu poderia beijá-lo (e saber se o mel é mesmo amargo), mas só em pensamento.

**Escrito em Maio de 2008**

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O Livro Riscado


Tomei emprestado da biblioteca municipal um certo livro que me haviam recomendado.
Agora, com todo zelo, corro meus dedos leves por sua capa ocre onde há duas palavras escritas em letra sóbria. Lê-se seu título letárgico em vermelho.
Inicio o meu voraz passeio pelas páginas que trazem em si o amarelado do tempo.
Paro o olhar na terceira delas, onde se pode ler, acima do tombo, uma única frase escrita à mão: Livro com várias páginas riscadas a caneta 04/06/07.
Viro a página. Mergulho no enredo pintado num tom entre o amarelo e o laranja. Um estado de abatimento profundo intensifica-se em mim a cada página virada, a cada capítulo.
Neste livro não há pontos finais, apenas vírgulas. A verdade é que a vida não pára compadecida pelo seu sofrimento.
Capítulo cinco. Sou subitamente arrancada da atmosfera apática da obra novelesca por um pensamento escapista. Interrompo a leitura. Há algo secretamente íntimo unindo-me ao autor daqueles riscos traçados a tinta azul.
Os livros são rabiscos no mundo - a idéia invade meu ser surdamente.- E estes riscos em mim, ao lê-lo, encadeiam, em misteriosos anéis invisíveis, todas as pessoas que já leram este livro, que já correram os olhos por estas palavras...
As nuvens da tarde chuvosa de terça deixam o céu e eu, embriagada pela claridão da verdade (a minha pelo menos), me deixo conduzir pelos pés que antes acreditei estarem me levando à faculdade.
Já não importa mais para onde estou indo. Agora posso ver o caminho neutro do asfalto por onde meus tênis pisam firmes, causando ensurdecedores baques na avenida movimentada, portanto, penso, qualquer destino é bem-vindo.
Outro insight. Vêm à mente as palavras de Vergílio Ferreira, lidas no dia anterior: ... Era necessário que todos os homens vivessem em estado de lucidez; se libertassem das pedras, chegassem ao milagre de ver. Era absolutamente necessário que a vida se iluminasse na evidência da morte.
A máxima lembra-me: Eu deveria estar lendo Ensaio sobre a cegueira. Mas ao invés disto, leio este maldito livro rabiscado.

Os rabiscos incomodam, não?
Voltando à lucidez...
Obrigada, Raduan. Obrigada por arrancar de mim as vendas.
Penso, então, em tudo o que antecedeu e sucedeu àquele momento em que ali, chacoalhada frente à Lavoura, chego à grande evidência de uma breve existência ainda iniciante:
"A vida toda é um livro rabiscado".

terça-feira, 3 de junho de 2008

Acredito que seja notória, em minhas produções atuais, a marca que esta nova fase tem deixado em mim.
Meu olhar tem mudado de forma surpreendente a cada dia. Há, então aqui, toda manhã, uma Mara diferente...
Confesso que dou graças à Deus por estarem terminando os trabalhos, já estava sufocada, parecia uma interminável bateria de loucuras com prazo de validade. A partir de amanhã ânimos renovados para o mundo, para a agitação do dia-a-dia, para enfrentar, sem grandes fraturas, o clima sempre tão tenso do ambiente de trabalho.
Mas dou graças à Deus, também, pelas noites mal dormidas, pelos finais de semana sacrificados, por todo este estresse... cada minuto tem valido a pena.
Sempre digo que somos eternamente responsáveis pela construção do que somos. Espero, sinceramente, que eu tenha razão.
Eu nunca tive tanta certeza de estar no caminho certo.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Na Gaveta da Memória




Aos amigos queridos dos quais sempre sentirei saudade


Mas... você nunca vai perder o seu lugar em mim, ainda que queira abrir mão dele.
Sabe que tudo o que temos na vida são nossas lembranças. Nós somos feitos de lembranças, tudo o que somos, toda a bagagem adquirida e tudo que aprendemos na vida fica guardado na gaveta da memória.
Não pretendo ser repetitiva ao dizer que as pessoas são insubstituíveis, mas sou levada a fazê-lo, pois elas verdadeiramente o são. Ninguém, absolutamente ninguém, é igual ao outro, e é este o grande barato da vida! E ainda tem gente que não enxerga. E pior, que não respeita. Não entro nestes méritos, o assunto aqui é outro. Estava falando de nós. Você e eu.
Pessoas como você, vêm e vão em nossas vidas, mas quando vão, não vão por inteiro, sempre deixam parcelas de si sorvidas em nós. Somos um grande aglomerado da vivência do mundo! E especialmente de pessoas que significaram mais um passo rumo a este “algo mais” do qual estamos constantemente em busca.
Repito, a despeito de qualquer outra questão humana, isto é tudo o que temos para sobreviver. Estes retalhos. Estas bolsas repletas de recortes desordenados dos quais nos apropriamos para tecer nossa própria colcha pessoal.
Daí a importância de falarmos em nós. Você nunca deixará de ser parte do que sou, mesmo não estando aqui agora. É que quero que tome consciência desta marca ao mesmo tempo tão sutil e significativa que tatuou em mim.
É por isso também que se deve dizer o que se sente e deixar sempre quem amamos ciente deste sentimento, não só com palavras, mas com atitudes, pois é assim que seremos lembrados. Tudo fica guardado na minha gaveta. E na sua também.
Tudo está definitivamente escrito na jornada do tempo, os momentos que passamos juntos (os bons e os ruins também), ninguém poderá apagá-los e nada, absolutamente nada, pode mudá-los.


terça-feira, 20 de maio de 2008

Serespaperconfi

Maria, Maria. Sempre Maria! Ela era uma garota não muito bem sucedida no amor. Qualquer semelhança com a realidade... (o conto segue nos próximos três posts)



Maria nunca foi muito bem sucedida no amor.
Tanto que um dia chegou a acreditar que estava destinada a ficar para titia.
E ficou, já foi tia antes mesmo de ter idade para namorar.
O primeiro amor de Maria fez xixi na calça no meio da aula. Depois disso a garota desencantou, mesmo a culpa sendo da professora que não o deixou ir ao banheiro.
***
O segundo era um menino lindo, de olhos verdes. Bruno. Acho que ele era meio preconceituoso.
Maria era morena, sabe? Morena-jambo. Ela sempre acreditou que estes eufemismos mascaravam certo racismo.
O Bruno também não serviu.
***
Depois veio o André. Ele não era bonito, não era bom aluno e quase sempre ia para a diretoria por mau comportamento.
Acho que era por isso que ela gostava tanto dele.
***
O Sérgio era popular na escola e ela nunca se esqueceu de seu rosto. Nos intervalos das aulas, suas amigas ameaçam contar a ele sobre sua paixão. Maria nunca tomava seu lanche no recreio, ela costumava passar o tempo todo escondida no banheiro.
***
O Thiago era um grande amigo. Eles viviam conversando. Ele tinha as bochechas mais rosadas que Maria já havia visto. Foi a primeira vez que a garota sentiu o coração bater forte só de olhar para uma pessoa. Ela estava com medo de que estas palpitações que vinha sentindo fossem doença e, percebendo que elas surgiam sempre ligadas à imagem de Thiago, decidiu romper a amizade.
***
Foi assim que passou a reparar no José Carlos, mas ele era filho de professora, não se interessaria por ela. O José Carlos, além de muito inteligente, gostava da Monise que, aliás, era a melhor amiga da Maria.
***
O Diego era da sexta série, ela da quinta.
O mais gostoso em gostar do Diego é que a garota podia dividir este sentimento com a sua meia-irmã, Sandra. A Sandra também estava na quinta série e gostava do Juan, que era da sexta.
As duas passavam o tempo todo falando sobre seus amores impossíveis.
Sandra escrevia poemas, mas nunca os entregava.
Maria desfilava nos intervalos esperando um único olhar de Diego.
Um dia Sandra decidiu entregar os poemas.
Sandra e Juan ficaram juntos.
Maria continuou desfilando para Diego.

Miltinho era do bairro, ele não parecia ser “boa coisa” - era o que a mãe de Maria costumava dizer. Ele era moreno e atlético e sempre “mexia” com ela quando passava.
Ele gosta de mim! – a garota pensava.
Ela sabia onde encontrá-lo e quando o via, ficava feliz.
Apesar disso, ela não o procurava, e o máximo que fizeram foi trocar olhares pelas ruas do bairro. Depois de algum tempo, ela não mais o viu.
***
Maria não era precoce como as outras garotas do colégio e por isso na sétima série era considerada aberração por nunca ter beijado ninguém.
A sétima série foi difícil em vários aspectos para ela. Entre eles, talvez esteja sua paixão pelo Nilson, a quem, carinhosamente, chamava de Nilsinho. O Nilsinho era do segundo ano e vivia rastejando – como ela costumava dizer- atrás de uma loira que não ligava para ele, que por sua vez, não ligava para Maria.
O mais insuportável nesta história, além da paixão não correspondida, era ter que agüentar o chato do irmão do Nilson, que vivia dizendo à garota: “Até parece que o meu irmão vai se interessar por uma garota como você, não vê que você é feia?”.
Maria fingia que não se importava e seguia em frente.
Ela nunca esqueceu o Nilson.
***
Foi quando surgiu o Bruno. Outro Bruno.
(Brunos e Andrés é o que não falta mundo, eu, particularmente, conheci vários.).
Ela se interessou por ele logo no primeiro dia de aula. Ele estava sempre junto com a Beatriz, Maria chegou a acreditar que eles eram namorados. Tão logo os quatro se tornaram amigos (Bruno, Beatriz, Maria e Carol, amiga antiga de Maria), como deveria ser. Não demorou para a garota descobrir que Bruno e Beatriz não namoravam e menos ainda para que os dois (Bruno e Maria) se tornassem amigos íntimos.
Um dia ela decidiu contar a ele sobre o que sentia. E antes mesmo de darem o primeiro beijo, já estavam namorando.
O namoro durou quatro dias.
Depois de algum tempo, Maria ficou sabendo que Bruno era gay.
No cursinho preparatório para a escola técnica, Maria “conheceu” o Murilo. Conheceu assim mesmo entre aspas, porque ela nunca o conheceu de verdade. Mas também nunca sentiu algo que se assemelhasse tanto ao que julgava ser amor, quanto sentia por ele.
Foi apenas um mês e ela nunca falou sobre isso, exceto com as meninas com quem costumava conversar.
Depois que o curso acabou, Maria julgou que nunca mais o veria, mas, para sua surpresa, o encontrou algumas vezes no ônibus. Maria sentiu vontade de falar, mas não falou.
***
Era tudo tão novo para ela - um mundo paralelo - esta nova escola.
Havia, na garota, certa “urgência”, nova escola sempre traz novos amores e dessa vez ela tinha certeza de que daria tudo certo. O príncipe viria, num cavalo branco, finalmente.
Uma das pessoas da nova turma com a qual Maria mais conversava era Cláudio. Ele dizia que em menos de seis meses ela estaria com um cara legal. Não demorou para que a garota se apaixonasse por ele. A Paty também gostava do Cláudio, elas conversaram e Maria resolveu que seria melhor contar ao garoto.
Foi difícil como nunca falar sobre seus sentimentos.
Depois de ouvir, Cláudio passou a ignorar a garota.
Com o tempo, eles se tornaram grandes amigos. E ela já não sabia mais o que realmente sentiu um dia.
***
O nome “Renato” remetia Maria a coisas boas. Lembrava música boa, seu compositor favorito.
Mas este Renato não era o que se podia chamar de "cara legal".
Era bonito. E só.
Bem que sua amiga, que era da turma dele, tentou ajudar. Mas acabou atrapalhando.
Eu faço este favor a ela – disse ele.
Maria sentiu vontade de cuspir na cara dele.
***
Dos amores da garota, Júlio, sem dúvida, foi o mais intrigante.
Havia mistério em seus olhos... sombra. Ele, certamente, era diferente da maioria das pessoas com quem Maria estava acostumada a se relacionar. Ela precisava explicar o que de tão inexplicável exprimia-se através daquele olhar, sempre tão dúbio, acintoso.
Era manhã e o sol refletia em seus cabelos claros e uma luz particularmente especial minava de seus olhos cor-de-mel. Foi então que Maria soube que precisava descobri-lo. Mas descobriu demais...
Ele era absolutamente igual aos outros.
Esqueceu. Não, não esqueceu, tentou sufocá-lo em beijos apaixonados...
Maurício surgiu como o príncipe que Maria imaginava. Prometeu-lhe amor eterno. E por isso ela acreditava que gostava dele.
Na verdade acho que ela gostava é de saber que ele estava ali. Ou gostava mesmo dele?
O fato é que acabou. E não poderia haver motivo mais banal.
Mas que banalidade é esta que destrói um amor eterno?
Não está mais me fazendo bem estar com você, é melhor terminarmos. – ela.
Também acho. E é melhor pararmos por aqui se quer que ainda reste amizade. – ele.
Uma semana depois, ele estava "se pegando" no granado da escola com uma ruiva pedante.
***
O Daniel surgiu assim como desapareceu, do nada.
Ele dizia que não queria compromisso, que já tinha se decepcionado muito e por isso nunca mais iria envolver-se com alguém.
Maria jurou que também não se envolveria, não dessa vez.
O Daniel sumiu, mas, alguns meses depois, a garota soube que ele estava namorando sério.
***
Muito tempo passou. Maria estava mudada, não era mais uma menininha, via o mundo com outros olhos.
Mas em sua bagagem estava toda esta história, um trauma, talvez. Mas não, ela não gostava de pensar assim.
Certa vez ouviu de sua tia que as mulheres da família estavam condenadas a uma maldição: ficar sozinhas. Fazia sentido. Avó e tias viúvas, mãe divorciada, primas solteironas.
Parecia que a garota trazia em si uma marca, como tatuagem.
É o que dizem: Azar no amor, sorte no jogo.
Não tardaria para que Maria enriquecesse.
Certamente, em breve, ganharia na loteria.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Mais uma pensando no Chuchu


O Texto abaixo trata-se de uma "Pequena Mentira"


Nunca em minha vida escrevi com tanta freqüência. Algo, certamente, não está igual.
Por que tanta inspiração de uma hora para outra? Embora saiba o que é (não sei se sei), prefiro não enxergar, já não é fácil assim, não quero tornar piores as circunstâncias.
Por que olhar para ele me revira o estômago e faz o coração parar nas costas?
(Eu existo e ajo como se não existisse.)
De repente um soco no peito, falta o ar... Ai, dói! Não queria que doesse tanto!
Vou parar de olhar, cutucar, remexer...
Não quero mais encontrar-me com suas lembranças. Não me interessa a sua vida, formação, família, rompimentos, traumas.
Não me interessa suas articulações, suas críticas, nem seu sentimento fetal.
Suas resignações, comparações, visões... não me interessa seus olhares!
(Ontem ele não olhou para mim.)
Já não posso mais, começa a me faltar também a fome.
Já decidi, parei.
Não cutuco, não remexo, não olho,
nunca mais
.
Não invado. Não está certo. Limito-me a ser
apenas o que sou
e nada mais.
Queria verdadeiramente que fosse assim, mas não é.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Parece que tudo que temos são retalhos do passado.



terça-feira, 13 de maio de 2008

Permita-me um instante de êxtase

à alguém que (sem saber) tem me ensinado muito

Será que posso ter o meu momento agora,
Meu instante etéreo de arrebatamento?
Eu preciso beber desta fonte,
As águas que escorrem pelo teu punho.
Cada sílaba, cada ponto e vírgula
(ele não deixa de pingar os is).
E eu amo cada palavra que vem dele.
Me deixa?
É meu instante poético do qual eu não abro mão.
É bonito e toca fundo como nada jamais me tocou
Nem os versos de Drummond,
Nem a prosa de Clarice.
Ele não é poeta, talvez nem seja escritor.
Ele não possui a escrita,
É a escrita que o possui
(E por meio dela, ele possui a mim).
E é tão intimista, tão reflexivo,
Tão purista.
É meigo.
É um tapa na cara.
É tudo junto.
É tudo ao mesmo tempo.
Já passou.
É agora
(Tão bonito que dói).
E me pego sonhando de novo...
É o pássaro branco que chega afrouxando as amarras de minha alma
É o coração que pode bater com a intensidade que bem entender.
Assim, percebo a importância das relações.
Foi o Tom quem disse
“É impossível ser feliz sozinho”.
Ser feliz (é possível?)...
São raros estes encontros realmente verdadeiros
em nossas vidas.
Ironia.
Os desencontros são tão comuns!
Mas tudo é sempre muito relativo, não é mesmo?
E ele ainda diz que não quer confete.
Respondo: À ti nada mais tenho a oferecer, senão aplausos.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Carpe Diem



"Carpe Diem" quer dizer "colha o dia". Colha o dia como se fosse um fruto maduro que amanhã estará podre. A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente.

Rubem Alves



sexta-feira, 25 de abril de 2008

Resposta à Lista*


*Vide Música "A Lista", de Oswaldo Montenegro



E depois de muito pensar no que se foi, descobri que o importante não é o que se foi, mas o que ficou.

***

Fiz uma lista dos grandes amigos que tinha a dez anos atrás, e descobri que eles não ficaram no passado, mas sim aqui dentro.

Fiz uma lista dos sonhos que tinha, e percebi que muitos deles deixaram de ser sonhos e se tornaram realidade, enquanto outros tiveram de ceder seus lugares a novos sonhos.

Fiz uma lista dos amores que jurei eternos e que não duraram para sempre, e percebi que eles, mesmo breves, foram eternos enquanto duraram.

Hoje me olho no espelho e não vejo a Mara de dez anos atrás, não me reconheço, sou uma pessoa nova e muito melhor, evoluída, uma pessoa que estou aprendendo ainda a chamar de "EU". Me olho na foto antiga e abro mão do que eu fui para assumir aquilo que sou, e mais do que isso, admiro aquilo que eu fui porque aquilo que fui, tornou-me o que sou.
Hoje não sou do jeito que achei que seria, mas com certeza sou do jeito que devo ser.

Quantos amigos eu joguei fora?
Nenhum, amigos são marcas eternas, são cicatrizes que nem cirugia plástica remove, eles se tornam parte do que nós nos tornamos.

Os mistérios que sondava não são mais mistérios para mim, porque eu cresci e aprendi seus significados e significantes.

E os meus segredos do passado, bobos no presente, não deixaram de ter sua importância, porque ficaram guardados em algum momento no tempo e no espaço e se removam a cada, pois fazem parte da minha história, daquilo que fui e que sou.

Aprendi a viver com as mentiras que ontem condenei, o que não significa que hoje eu as aprove, apenas descobri que as mentiras também têm contexto, assim como as verdades, a minha verdade é essa, qual é a sua?

Se meus defeitos sanados eram o melhor em mim, por que extingüiram-se? O melhor em mim está aqui dentro, bem no fundo, e isto eu vou levar para além da eternidade, pois a essência das coisas nunca se perde, apenas se transforma.
(Eu sou uma metamorfose ambulante e tento a cada dia me acostumar com isto.)

E as canções que hoje canto é o que eu tenho para viver, é o que eu plantei no passado e agora colho. Minha vida é assim porque EU a construí assim, não é o que sonhei (não sei nem o que eu sonhei), mas é o melhor que eu pude fazer.

O amor não se perde, também ele é coisa transitória, camufla-se, adapta-se, mostra outras faces que não conhecíamos, ou simplesmente, adormece. Os amores passados, correspondidos ou não, estão aqui no registro do que sou e marcam com profundidade no íntimo das pessoas que foram, são amadas, que amaram, amam.


Quanto às pessoas que dizem "EU TE AMO" no presente, o mínimo que minha subjetividade conturbada me permite é acreditar em suas palavras, e se puder retribuir, senão com o mesmo amor (pois ninguém ama igual a ninguém), com tudo aquilo que minha alma me permita oferecer, eu o farei.