quinta-feira, 21 de junho de 2018

Metade

Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. 
Drummond.

"Sua construção frasal é muito boa, permite narrativas longas. Já pensou em escrever um romance?"
A mulher é arrancada do transe em que se encontrava enquanto fazia, mecanicamente, a leitura de seu conto para a turma.
Ali, sentada em um semi-círculo numa sala cheia, ela vive a expressão máxima da ideia de que é possível estar em meio a uma multidão e, ainda assim, sentir-se só. 
A solidão, ao contrário do vazio, é habitada, ruidosa, inquietante; povoada pela louça suja na pia, pela barata morta perto do ralo do banheiro, pelo livro não lido na estante, o trabalho que não sai, a carteira desabastada, pelo amor que se foi e por aquele que teima em não nascer.
(Transe. Transa)
Ela segurava um fórceps tentando induzir o parto de uma gestação que nunca existiu. Não se concebe amor sozinha, é preciso um par.
(Par.)
Ela está na cama - a mesma em que protagonizaram um ato conhecido como fazer amor, mas que raras vezes tem a ver com amor de fato -, em suas mãos, um livro. Finalmente encontra alguma paz, alguma ressonância, uma presença corporificada nas palavras daquela desconhecida. Só uma mulher é capaz de acolher a alma de outra.
As palavras a carregam no colo e ela agora é capaz de enfrentar seus fantasmas ao invés de apenas deixar-se oprimir por eles. Estão cheios de restos de comida, impregnados pelo cheiro do inseticida ou pela tinta dos carimbos que pintam o papel de burocracias e prazos, demandando uma dedicação que seu cansaço a impede de dispor. 
Ao olhá-los nos olhos, embalada pelo som da poesia, a dor vira melancolia e a solidão ruidosa, um vazio tranquilo. 
A cabeça, pesada, despenca sobre a fronha acetinada do travesseiro e a mulher se entrega a um torpor irresistível e dorme um sono sem sonhos.
***
Acorda de sobressalto, no caderno uma poça de baba, levanta a cabeça, limpa a boca com a manga da blusa e encara o mediador da oficina de escrita criativa, refletindo sobre a possibilidade de construir narrativas mais longas.  



domingo, 21 de maio de 2017

Beija-flor


Lá fora, pela janela, há um beija-flor morto.
Olhando o beija-flor Marina é transportada para a noite anterior.
Está chovendo, ela desce do ônibus e pragueja: o guarda-chuva não quer abrir.
É o ponto em frente à igreja referência do bairro há bem mais de 50 anos.
Igreja onde a mãe de Marina se casou, onde a moça se crismou, onde, nos momentos de dificuldade, via-se prostrada ao altar. Senhor do Bonfim.
Virando a esquina, em frente à banca de jornal, há um corpo, pequeno, na chuva, protegido por policiais.
Ao lado de Marina uma mulher anuncia: “É um menino de 7 anos, foi atropelado, recebi a mensagem no grupo da igreja na rede social”. Senhor do Bonfim.
Marina se lembra de, ainda menina, estar na companhia da avó assistindo à missa no domingo. Àquela altura ainda não havia pensado na morte mesmo que – hoje sabe – logo que nascemos já começamos a morrer, a cada ausência materna, a cada choro não atendido. Estar ausente é como estar morto.
Marina não tinha mais notícias disso, senão no inconsciente, porque a imagem no altar apagava todas as angústias, era o pai todo poderoso que seu pai humano nunca pôde ser. Dizem que para a criança o pai é sempre um herói...
Hoje Marina sabe que não existem heróis e que Deus é, na verdade, uma necessidade pra quem tem a barriga vazia e um luxo pra quem aplacou a fome, mas sabe que toda sorte é passageira.
Mesmo assim ela se pergunta se aquele corpo no chão, se aquele menino tinha um herói. A mulher emenda: “É desses moleques que ficam aí pelas ruas.”
É um vir a ser, Marina pensa. Alguns diriam: futuro marginal em potencial.
Mas ela sabe apenas que ele é um vir a ser que, no entanto, nunca será.
Morto ao lado da igreja Senhor do Bonfim, teve seu fim – que de bom não tinha nada – aquela pobre criatura que nunca seria nada além de uma potência desperdiçada, um pequeno corpo cuja fascinante energia vital se dissipou, beija-flor.
Do outro lado da janela o pássaro que não beijará mais flor alguma é contemplado por Marina.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O normótico




Valter era um sujeito... adaptado. Perto dele eu me sentia meio doente. Enquanto minha cabeça sempre estava a milhão, Valter parecia não ter questões, não reivindicava nada, não brigava, nunca parecia incomodado.

Quase nunca tinha algo a dizer e quando tinha, vinha repleto de frases feitas. Enquanto eu, neurótico, louco, vivia insatisfeito, sempre reclamando do chefe, da mãe, da correria de São Paulo, do trabalho longe pra burro, do cansaço... sempre choramingando por não ter um carro, um apê, uma namorada... na verdade, meu problema é ausência.

Valter não parecia sofrer deste mal... nunca dizia que a vida estava ruim, nem festejava por estar boa. Alguns diriam: Eis um cara acomodado. Eu diria: será que ele não sente falta de nada? Tudo o que eu queria era encontrar "buracos" no Valter.

A verdade é que o cara me intrigava, ele era um grande mistério. Era difícil advinhar o que o sujeito estava pensando, duro até mesmo saber se ele gostava de mim.

Além de tudo, ele era um cara calado. Parecia que não fazia planos, que não pensava no futuro. Trabalhar, trabalhava, mas fazia isso mecanicamente. Quando eu lhe perguntava qual era a sua maior ambição, Valter respondia: "ganhar dinheiro". (Me diga, dinheiro pra quê?) Embora dissesse que queria uma vida financeira melhor, não se movimentava em direção a isso... Ao contrário, se fazia algum esforço (coisa que eu duvido) era para ficar onde estava.

Às vezes eu me perguntava se Valter não mudava por medo de não gostar do que poderia encontrar lá na frente... ou se o medo era outro: não queria mudar, pois tinha medo de que as pessoas rejeitassem aquilo que ele se tornaria. Mas isso é só uma hipótese, como disse, a cabeça deste homem era totalmente inacessível para mim. Eu nem mesmo sabia se ele se importava com tudo isso. Então o analisava a partir de minha própria lógica... é claro que isso só tornava as coisas ainda mais confusas para mim.

Quando a gente pára de desejar é a morte, eu pensava. É isso, Valter era um morto-vivo, não esboçava qualquer desejo, nada parecia impulsioná-lo adiante. Devo admitir que sintia um pouco de inveja do Valter, porque ele não sofria. Pelo menos, não parecia sofrer. Desejar é doloroso que só! Meu amigo simplesmente se contentava com o que o mundo dava a ele. Aliás, em uma coisa Valter era muito bom: respeitava regras como ninguém. Não ultrapassava farol vermelho, nem xingava a mãe dos outros.

Por vezes, eu até vislumbrava resquícios de anseio no Valter. De início, sempre que algo não ia bem, ele até parecia um pouco descontente, mas não se revoltava, não reclamava e logo depois tudo se normalizava, e desaparecia qualquer esboço de insatisfação. Voltava, o normótico.

Não sei se você conhece o Valter, mas eu tenho quase certeza de que pode imaginá-lo. E quanto a mim? Não tenho nem palavras para ilustrar o desconforto que era lidar com esta figura... nada que eu possa dizer lhe fará ter a mínima noção do que é estar em minha pele. Logo eu, um cara que vive com a cabeça a milhão... dando voltas e voltas em torno de mim mesmo. Repetindo, repetindo os mesmos erros numa ânsia desesperada de finalmente acertar... Logo eu, um cara louco de pedra, cheio de vontades. Vontades que fogem ao meu controle, coisas que não posso ter, mas desejo.

Isto tudo é uma doidera... como um cara assim poderia me causar tamanho impacto? Eu aqui questionando a minha própria sanidade quando, na verdade, quem deveria se questionar era ele! Olha só, eu de novo fazendo a minha leitura particular do mundo. Do mundo do outro...

Descobri enfim porque o Valter me incomodava tanto, porque ele me fazia sofrer e, ao mesmo tempo, porque me facinava tanto... ora, tão simples: é porque eu sou eu e ele é o Valter. Tão inatingível, tão estranho... tão Valter!!!

E tão... completo (?) Ah, como eu queria ser como o Valter!

Talvez o maior incomodo seja justamente o fato de, lá no fundo, não ser tão diferente assim.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Sem rumo




Levantou-se, dirigindo-se à janela. Debruçou-se no batente, olhando para o nada.
O céu estava branco como naquelas manhãs em que tanto o sol, quanto a chuva se escondem.
Lembrou-se de um certo autor aclamado que escreveu sobre uma tal cegueira branca. Imaginou que ela devia ser parecida com isso. Sus-pirou...
Fechou a janela e caminhou de volta à cama. Sentou, chorou. Calçou os sapatos e, sem se importar por ainda estar usando pijamas, abriu a porta. Primeiro a do quarto, depois a da sala, depois o portão de casa.
E ganhou as ruas, estranhamente claras, caminhando com pressa.
A cada novo passo, mais valocidade impelia à caminhada, andando com vigor quase desesperado sem saber, no entanto, aonde queria chegar.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A saída

Esta manhã notei que há muito tempo não sonhava. A ficha ainda não caiu muito bem, mas o medo e o vazio já começam a bater na porta. Apesar de alguns dizerem que é o começo, outros o meio, é, na verdade, o fim das coisas o momento mais complicado, mas também o mais libertador.
Hoje acordei às 10:15 com o despertador tocando. É claro que não precisava, mas acho que há anos não sei o que é acordar espontâneamente. Mal acordar e já enfrentar a correria da cidade, o mundo todo despertando e se dirigindo para o trabalho (como zumbis). A imensa maioria triste, insatisfeita, cansada. Eu estava cansada.
Que bom atualizar o anti-vírus, encontrar de novo as páginas azuis do orkut, marcar consulta médica para o horário que bem entender. Que bom abrir o Word e voltar a escrever, ir de van pra faculdade, não perder mais aulas, nem chegar atrasada. Que bom poder de novo ser eu. Poder de novo pensar e sentir como eu. Não como máquina, não como assalariada. O trabalho cega, sufoca, aliena. Marx estava coberto de razão. É uma pena que nem todos o conheçam. Se conhecessem, talvez fossem capazes de enxergar o problema. Talvez tivessem força para vencer o medo, para ser subversivo. Talvez não.
Me dê apenas um motivo para fazer o que não gosto em troca de dinheiro.
Não havia mais motivos. E fiz a minha escolha. Agora aproprio-me de novo de mim mesma. Estou novamente livre para pensar! Posso agora dormir sem ter hora para acordar. E partir de agora, quem sabe, possa voltar a sonhar.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

.



Amor, onde estou?
Perdi-me na complexidade de ti, na complexidade do mundo, na complexidade de mim.
Amor, a vida é um sonho afinal, e a gente nem se dá conta.
Às vezes é pesadelo e a gente sente.
Raras vezes é felicidade, amor. E a gente sente também.
Somos só sentimento, (sem) sentido. Sem.
E quando não sente, endurece, perde a ternura...
Emudece.
A tinta seca.
E a gente vai deixando a vida levar (sem poder viver)...
A finalidade é simplesmente existir.
Quero, no final, o epitáfio mais correto:
"Aqui jaz alguém que existiu"
Produziu?
Pensou?
Sorriu?
Chorou?
Amou...?
O que tenho (temos) feito...
O que fiz(eram) de mim...
O que (você) faz comigo...
E como a vida se faz... (é por nós, é de nós)
Uma questão de significantes. De "o que", "como", "quando", "por que".
Oh meu Deus, isso é tão humano!
E para a existência tanto faz, ela é auto-explicativa e está acima de qualquer significado.

*

"Às vezes ouço o vento passar, e só de ouvir o vento passar, já vale a pena ter nascido."
(Fernando Pessoa)


quinta-feira, 11 de março de 2010

Conclusões de um eremita IV



A verdadeira alegria acontece naquele raro e efêmero instante em que você se dá conta de que, por si só, viver vale a pena.



quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O que era poesia, virou prosa

"Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!"

(Fragmento do poema "Meus oito anos" de Casimiro de Abreu)






Hoje retornei ao lugar onde cresci
A fachada ainda é a mesma,
Mas foi com outros olhos que a vi
Olhos virulentos, infectados pela adultez
que torna tudo meio embaçado, fora de foco, irreal...
Já na portaria encontrei um dos homens
que mancham de preto a paisagem
E pude sentir o pesar de ser impedida de entrar em casa
Pesar e não revolta porque no fundo eu sabia
que aquele não era mais o meu lugar
Mas, na verdade, ele não me impediu
Eu é que pedi permissão para entrar
Assumi minha condição de visitante (não sem dor)
Não preciso dizer que não havia espaço
Para os homens de preto no lugar onde eu cresci
Aliás eles contradizem todas as significações
daquele lugar
(Têm mais a ver com a vida de agora)
E eu ainda peço permissão!
Quando eles chegaram sim, eu me senti afrontada,
eram intrusos em minha casa
Mas hoje não
Hoje eu era a intrusa,
Uma intrusa que se orgulhava de um dia
Ter sido a dona.
Assim eu cruzei o portão,
Olhei cada árvore,
Analisei cada espaço,
Estava tudo tão diferente
E ao mesmo tempo tão igual
Diferente porque, primeiro, estava vazio
E porque algumas coisas estavam fora do lugar
E igual porque as imagens
Eram exatamente aquelas imagens de minha lembrança
Verdes, muito verdes!
Os tons quentes eram provenientes dos raios de sol
(Não me lembro de dias chuvosos no lugar onde cresci)
Acho até que a vida era mais colorida
naquela época
E a cor que predominava era o verde
Continuei a passos lentos,
Pela primeira vez em muito tempo
Eu não estava com pressa.
Subi degrau por degrau
Ao invés de subir pelo estacionamento,
Visitei cada ambiente, vi avisos no quadro
E artes nos murais
Vi fotos nos painéis e pensei.
Pensei que é tudo uma questão de tempo.
Sabe-se lá quando não haverá mais espaço
para a minha foto no painel...
Lembrei das manhãs, das tardes
E das noites de lá, tão diferentes da noite de hoje
Lembrei dos rostos
E de cada sorriso estampado neles
E do gramado sempre cheio de crianças
(Eram crianças e não sabiam!)
E das pessoas que recebi dizendo:
"Este lugar é mágico! Aproveitem cada minuto.
Três anos passam pelo buraco de uma agulha
e quando se derem conta, o tempo acabou."
Acabou a chance de ser criança.
O lugar onde eu cresci, meus caros,
não é uma cidadezinha, uma rua, ou uma casa
O lugar onde eu cresci é uma escola
A melhor, a mais fantástica
A inefável escola onde eu,
premiada tal qual o felizardo ganhador de loteria,
pude viver
Disse viver, não estudar.
Onde eu pude encontrar a mim mesma
(ou a várias "mim mesmas")
antes de me tornar o que sou agora
O lugar onde eu aprendi que família é aquela que a gente escolhe.
Lá, na minha bolha particular,
Na minha zona de conforto
Eu soube o que era felicidade
Ali eu estava protegida dos perigos do mundo
Meu universo paralelo,
Meu lugar ideal...

Hoje eu retornei ao lugar onde cresci
Mas foi com outros olhos que o vi
Olhos de estranha
Olhos de saudade.


quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Conclusões de um eremita III



"Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é"
Eu sei mais da dor.


quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Com Tudo

Contudo, todavia, entretanto a exceção à regra. Metáfora, desde o instante de outrora em diante. Estamos fadados à contradição. Somos o dito e o não dito, somos silêncio e som, como diria Lulu. Vírgula, ponto e principalmente interrogação. Somos passado e futuro, mas quase nunca presente. Paradoxo entre o que foi e o que virá a ser. Será? Somos saudade e antecipação. Escolha é abnegação. Medo é solução, estratégia ou desculpa. Tira a culpa de mim por estas palavras. A história não é minha, minha vida é uma repetição. Reprise medíocre, novela da tarde. Mais do mesmo. Reinventar implica sempre uma primeira invenção. Quem inventou o amor, me explica, por favor? Provavelmente tenha sido a mesma pessoa que inventou o ódio e a solidão. E a dor e o sofrimento... e o desejo? Mas o que seria eu, senão uma junção de todas estas coisas? Aliás se souber me dizer o que seria, antes me diga que sou. Quero ser apenas o que quiser de mim. Prefiro não quebrar a cabeça tentando adivinhar. Se me dissesse, ficaria mais fácil. Mas não me diz. Eu estou aqui, podia me encontrar. Ou então deixe que eu te encontre, não se esconda de mim. Estou apenas suplicando redenção, tentando organizar a confusão, compreender o excesso de informação, o excesso de lixo e cultura. Não estou conseguindo fazer a distinção. Onde termina um e começa o outro. Este sou eu, ou será você? Talvez sejamos nós. Mas sozinha não posso desfazer os nós e me encontrar. É preciso antes um outro encontro. Primeiro o outro, depois o eu. É assim que funciona a máquina da contradição, do paradoxo. Do esperto ao contrário, para lembrar Estamira. Esta sábia, esse olho que está à mira de todos nós, de novo os nós. Que se danem! Ana Carolina, Maria ou qualquer outra. Na verdade ninguém sabe o que é. Nomes são apenas nomes. Designações, ilusão. Ter um nome não significa ser alguém. Melhor ou pior, criativo ou apenas um repetidor, um plagiador como eu. Como você.
Então vem comigo e vamos juntos construir o que somos se é que um dia poderemos sê-lo.
Vem e me beije, deixe que eu diga ou não. “Sinto sua falta” quer dizer que eu já te amo, antes mesmo de encontrá-lo.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Palavra

(Fernando Anitelli)


"Palavra
Tenho que escolher a mais bonita
Para poder dizer coisas do coração
Da letra e de quem lê
Toda palavra escrita, rabiscada
Um joelho, guardanapo, chão
Ponto, pula linha, travessão


E a palavra vem
Pequena
Querendo se esconder no silêncio
Querendo se fazer de oração
Baixinha com altura de intenção,
Da segurança
Virgula, parênteses, exclamação
Ponto, pula linha, travessão


E a palavra vem
Vem sozinha
Que a minha frase invento pra te convencer
Vem sozinha
Se o texto é curto, aumento pra te convencer
Palavra
Simples como qualquer palavra
Que eu já não precise falar
Simples como qualquer palavra
Que de algum modo pude mostrar
Simples como qualquer palavra
Como qualquer palavra"


*


(que cala)

Falta palavra,
mas falta também é palavra.

(não me desespero. Tudo que se espera um dia há de vir!)



quinta-feira, 1 de outubro de 2009



"Te olho nos olhos e você reclama
Que te olho muito profundamente.

Desculpa,
Tudo que vivi foi profundamente...

Eu te ensinei quem sou...
E você foi me tirando...
Os espaços entre os abraços,
Guarda-me apenas uma fresta.

Eu que sempre fui livre,
Não importava o que os outros dissessem.

Até onde posso ir para te resgatar?

Reclama de mim, como se houvesse a possibilidade...
De me inventar de novo.

Desculpa... se te olho profundamente,
Rente à pele...
A ponto de ver seus ancestrais...
Nos seus traços.

A ponto de ver a estrada...
Muito antes dos seus passos.

Eu não vou separar as minhas vitórias
Dos meus fracassos!

Eu não vou renunciar a mim;
Nenhuma parte, nenhum pedaço do meu ser
Vibrante, errante, sujo, livre, quente.
Eu quero estar viva e permanecer
Te olhando profundamente."


(Te olho nos olhos, Ana Carolina)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Poema de Agosto

O oco continua ecoando
Preenchendo o buraco interior do corpo
Mais uma tarde inane de agosto

O sol continua batendo na janela
E ainda nem conhecemos o dia
Mais uma tarde desperdiçada de agosto

A música continua tocando no rádio
Mas ninguém parece escutar
Mais uma tarde surda de agosto

A mesa continua cheia de papéis
O trabalho continua sem sentido
A gente continua se sentindo
Um tanto - completamente - fora do lugar
Mais uma tarde angustiada de agosto

A gente continua sem vontade
(sem parar) Continua
Mais uma tarde repetitiva de agosto

A cadeira ao lado continua vazia...

Mais uma tarde solitária de agosto

O coração continua batendo, cansado
Mas não a ponto de parar
E a gente vai levando...
Mais uma tarde enfadonha de agosto

Um torpor profundo continua devastando o ser
Pesando os membros
Fazendo cair as pálpebras
Sufocando os pulmões
Mas a gente continua respirando

O eco continua soando oco no espaço...

Tum-tum. Tum-tum. Tum-tum.

Mais um coração batendo errante, procurando sentido
Em mais uma tarde perdida de agosto

Continuamos presos antes do primeiro passo
enquanto o tempo passa
Deixo de sentir o gosto do que gosto
Não passo de ser vil
para servir
Mais uma tarde de agosto que não passa...
Desperdiço um tempo que não sobra para aprender
Não sei nem se quer de mim
Sei apenas que Agosto
não gosta de partir.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009



"Eu 'acho' que tenho certeza daquilo que eu quero agora, daquilo que mando embora, daquilo que me demora."

(Criado mudo, O teatro mágico)


Não existe verdade, o que existe são pontos de vista. Devo concluir, então, que a dúvida é mais sensata do que a certeza. Ainda assim, dúvida e certeza disputam um lugar no âmago do encontro.


Ei, você, vem conversar comigo?
Venha. Mas venha inteiro.
Não traga apenas corpo, traga alma.
Traga palavra.
Palavra é espelho.
E se a palavra cala, não se preocupe, a falta também fala.
Silêncio é espelho.
Se me permitir, posso ver através de você
Com olhos transcendentais,
enxergo o que está por trás de sua pele rígida,
endurecida pela dor.
Enquanto olho-te nos olhos,
uma linha invisível que sai dos meus
forma, contigo, uma metafísica e incontestável intersecção
Encontro a mim no mesmo instante que encontro a ti,
em algum ponto do espelho entre e em nós.
Assim, me constituo no espaço entre o eu e o outro
Espaço que a palavra abriu para nós
Sou aquilo que me diz
Diferente, todavia, daquilo que escuto,
Portanto novo.
E aquilo que não diz,
Cala.
Mas ainda sou capaz de ouvir com outros olhos
Meus olhos transcendentais.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Lembranças Póstumas

Baseada no filme "Sete Vidas"


"Viver intensamente envolve, inclusive, viver a dor."



Sim. Sinto-me culpado, mas não é por isso que faço o que faço. A culpa por si só não justificaria. Faço isso pra viver, pois sei que depois de fazê-lo não haverá mais vida, não para mim.
Não quero, de maneira alguma, ser um mártir, quero apenas devolver aquilo que roubei.
Só assim poderei ser quem sou em plenitude. Desde que ela se foi não tenho sido senão um vegetal.
Não quero, de maneira alguma, ser um bom samaritano, um super herói, quero apenas suportar os dias sabendo que não cruzei os braços, ou simplesmente ignorei como a maioria.
Só assim poderei alcançar a morte com alguma dignidade, não me considerando um inválido, ou pior, um ingrato, alguém que foi agraciado com uma alma, ar, água e luz e nada ofereceu em troca.
Juro, não é apenas a culpa que me move a fazer o que faço, não quero me redimir de nada, afinal não há o que possa libertar-me de meu pecado.
Não faço isso esperando que meus atos sejam redentores, ao contrário, aceito minha pena. Todos os dias agradeço por estar sendo punido da maneira mais severa, a falta dela me mata em vida, mas eu mereço, afinal.
Quero que quando chegue a hora de partir eu não leve nada, pois não tenho nada. O que tenho não é meu.
Não quero nem sequer morrer com a consciência tranqüila, pois isso já não tenho desde que aquele acidente mudou a minha vida.
Eu fui o único sobrevivente, mas em breve as coisas irão mudar. Poderei dar vida a outras pessoas, não ligo se para isso tiver de abrir mão da minha própria, aliás, este é o plano, devolver o que não é meu.
Sete vidas desperdiçadas. Sete pessoas mortas por conta da minha imprudência, da minha ganância.
Eu que achava que tinha a vida perfeita, o emprego dos sonhos, hoje sou assombrado pelos fantasmas das sete pessoas que foram roubadas por mim, não é justo que elas tenham morrido e eu continue aqui. Mas estou, e não suportarei fechar os olhos e continuar ignorando.


Foi assim que abandonei uma carreira estável e promissora, assumi uma identidade falsa e ajudei as pessoas, mas apenas aquelas que realmente mereciam, as almas boas, dignas, corretas e que tinham esperança na vida.
Dei tudo o que tinha: bens, tempo, afeto, sangue, órgãos... queria sentir a dor que eles sentiam. Doei medula sem anestesia, pensei sobre a morte como uma presença iminente e íntima, tal como ela é para um paciente terminal.
Quase perdi, pela segunda vez, um grande amor. Assim, chegou a minha hora, salvei a mulher que amava.
A morte não é tão ruim quando ela vem para trazer vida, meu coração continuou batendo depois que parti. No peito do meu grande amor, eu estava vivo. Vivo como nunca.

domingo, 12 de julho de 2009

Milionário versus Benjamin Button


Depois de meses ensaiando, finalmente assisti ao ganhador do Oscar deste ano. Estava ansiosa para vê-lo, mas a oportunidade não vinha.
Antes da premiação, tinha a idéia de assistir aos indicados a fim de obter parâmetros para fazer minha própria avaliação. Como nos outros anos, a idéia não se concretizou e acabei por ver apenas o “Curioso Caso de Benjamin Button”, filme que não apenas despertou uma profunda admiração, como conquistou o topo da minha lista de favoritos. Indubitavelmente, uma obra prima do cinema americano da última década.
Foi impossível esconder a decepção quando a estatueta não veio. Controlei a indignação até que pudesse tirar conclusões menos injustas. Enfim a oportunidade chegou.
Bem, vamos então ao ganhador: Slumdog millionaire (Reino Unido/Índia, 2008) se trata de um projeto revolucionário que foge aos padrões hollywoodianos, não apenas pelo baixo orçamento e por ter sido rodado muito longe das fronteiras americanas, mas sobretudo, pela roupagem. O que, em minha opinião, foi o grande acerto do filme. Inovador e, pelas próprias condições, surpreendente.
Algumas tomadas, logo no início, me lembraram um estilo muito explorado pelo cinema nacional, a cena dos garotos correndo pelas vielas da favela, filmadas quase sempre de frente ou de cima, com cortes secos e uma maior velocidade na mudança de ângulos, compele dinamismo e ação à cena e causa uma sensação de impaciência e aflição aos expectadores. A estética documental e veloz remetem ao filme "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, a diferença se observa numa fotografia mais trabalhada, que torna as imagens menos cruas e mais suaves, causando a impressão de um sutil desbotamento responsável pela instauração de uma atmosfera poético-moderna nas cenas.
Mas o que de fato teria feito de “Quem quer ser um milionário” merecedor da estatueta de melhor filme? A principal razão talvez tenha sido o fato de que a produção, valendo-se de um argumento tão pífio quanto um programa televisivo de entretenimento de massa, o transformou numa história de valor digna de ser não apenas assistida, mas admirada.
Não fosse pela brilhante maneira com que a história foi contada, ela estaria condenada à mediocridade, aliás, se pensarmos em termos do enredo em si, e desconsiderarmos a proeza artística de Danny Boyle, podemos dizer que a história do garoto pobre, porém bondoso e perseverante e da mocinha sofredora e submissa, não caracteriza nenhuma inovação no cinema, muito pelo contrário, trata-se de uma repetição desgastada. A própria “história de amor impossível”, chapada, sem nenhum diferencial das outras tantas espalhadas por aí, teria sido capaz de tornar o filme um fiasco, caso ele se resumisse a isso, o que não ocorre.
Bonito e interessante, “Quem quer ser um milionário” revela o verdadeiro princípio do saber humano, deixando claro que o aprendizado nada tem a ver com o simples preenchimento de uma vaga na escola, ou com as oportunidades proporcionadas pelo dinheiro, mas com as experiências e o sentimento experimentado em cada situação vivida.
Há muito mais pra se falar sobre o filme, a montagem, a direção de som, a edição, são alguns de seus destaques, contudo, inicialmente esta crítica tinha outra intenção.
Se fosse eu a julgar, Benjamin Button teria levado o prêmio, sobretudo porque como já disse, para mim se trata de um filme completo.
“Benjamin” possui um bom argumento, um roteiro bem lapidado, ademais de a direção ter acertado em cheio, boas atuações e uma direção de arte formidável tornaram o filme profundo, além de comovente. Um filme que nos inspira e que a cada vez que se assiste, percebe-se algo novo acerca da condição e das relações humanas. Ao contrário de “Milionário”, não tem um final feliz, mas sim melancólico, justamente porque se aproxima mais da realidade, ao mesmo tempo em que se distancia pelo fantástico da obra. Só mais uma diferença: Benjamin Button não é um filme burguês disfarçado de plebeu.
De um lado, uma produção quase que independente, contando com um orçamento mínimo, gravado na Índia e com um elenco desprovido de atores consagrados, porém com uma história movida pela ideologia capitalista.
De outro, um filme tipicamente hollywoodiano, produzido com um orçamento generoso, roteirizado e dirigido por grandes nomes e protagonizado por Brad Pitt e Cate Blanchett.
É fato que este ano a academia surpreendeu (mas nem tanto). Também o é, que eu própria esteja surpresa por ter preferido o segundo, geralmente a simplicidade artística condiz mais com o meu estilo. Mas dessa vez, caro leitor, fico com a legitimidade.
Enfim, lanço a seguinte questão: a avaliação que define o “melhor filme” não deve levar em consideração o conjunto da obra? Pois bem, pelo conjunto da obra “Milionário” deixou a desejar, contudo vale assistir uma segunda vez, afinal bons filmes se renovam a cada sessão.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

O Eu ideal



Ele estava exausto, mas tinha certeza de que se conseguisse dormir jamais teria um sono tranqüilo.
Então voltou pra casa com a cabeça a mil, antecipando a noite que passaria às claras, tentando descobrir onde errou, ou pior, não aceitando o erro.
Não sabia se o cansaço era proveniente da insônia ou a insônia do cansaço, a verdade era que ele não sabia mais, estava desarmado diante si mesmo.
O problema não era a nota "baixa", que seria a responsável por essa noite mal dormida, o problema eram as outras noites.
Enfim a cabeça pesada, pulsando de frustração, despencou sobre o travesseiro, e o corpo rígido, virava de um lado para o outro na cama, sem encontrar posição.
Não queria mais pensar, mas o "não querer" o fazia pensar ainda mais.
Aos poucos se dava conta de algumas coisas que faziam outras tantas ficarem ainda mais privadas de compreensão, ele havia se resumido a isso: caos.
Estava difícil controlar as idéias que pulsavam incessante e repetidamente em sua cabeça. Não ter o dez, não ter namorada, não ter um carro, não ter, simplesmente não ter. Pela equivalência neurótica, lembrava das aulas sobre psicanálise, não ter é não ser.
Estava claro como nunca que, apesar de não saber quando nem como, ele havia se tornado um obsessivo sufocado por um severo sentimento de inferioridade do qual tentava desesperadamente se defender, a cada ato.
O cabelo impecável, a compulsão por sapatos, a preocupação descomedida com as roupas que jurava não ter, as horas de estudo, os gastos irrefreados com presentes, a necessidade aflita de agradar, as incansáveis revisões de tarefas, a fixação pelo reconhecimento.
Você é um lixo – uma voz lá dentro dizia - Você está todo corrompido, estragado. Disfarce o estrago antes que os outros percebam.
E quanto mais tentava disfarçar, mais temia ser descoberto. Inútil.
De fato, essa noite ele não dormiria.
E nas outras também não, não enquanto as retóricas que ecoavam dentro de si (e que insistia em projetar) permanecessem sem resposta. Mas o problema é que retóricas não buscam respostas.
“A quem se dirige a pergunta?”
A quem quer que seja capaz de não tentar respondê-la. Como não saber incomoda, frustra, continuo buscando saber mesmo sabendo que jamais saberei. Saber é ter e ter é ser. Assim, a falta é o que impulsiona a vida.
E volto à primeira pessoa, afinal a essas alturas você já deve ter percebido o óbvio: o rapaz sou eu, apesar de, “paradoxalmente”, ser uma garota.
O motivo pelo qual tenho me colocado numa posicão masculina já não é mais uma incógnita pra mim, pelo menos em termos. Mas como eu havia dito, as conclusões são capazes de dar margens à tantas outras dúvidas, das quais grande parte permanecerá em caráter de dúvida.


E, mesmo depois de tanto esforço, o dez não veio. Mas por que mesmo eu precisava dele?
Para provar o quanto eu sou boa?
Provar pra quem?

terça-feira, 23 de junho de 2009

A Palavra Falta

"Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos
quando querem exprimir qualquer realidade.
Mas como a realidade pensada não é a dita mas a pensada,
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
Assim, tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença."


Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Quem somos nós?



Até onde vai o poder humano? Qual é o limite entre o controle e descontrole?

Por uma questão de necessidade, diariamente, milhares de pessoas ao redor do mundo acabam por confiar suas vidas à especialidade de outros seres humanos, subjugando uma série de fatores sobre os quais nenhuma ação de nossa natureza é capaz de prever ou dominar.
Mais de 250 pessoas estavam a bordo do avião cuja rota de mais de dez horas era percorrida em grande parte num sobrevôo ao oceano Atlântico.
De fato, no que concerne ao transporte de pessoas a longas distâncias, o avião é nossa melhor ferramenta. “Mais seguro que o elevador!”. Quem sou eu pra discordar? Enfim, a questão aqui é outra. Apesar da consciência, que muitas vezes se comprova em dados, de nossa imperfeição e das falhas de nossas criações, demonstramos uma tendência à ascensão indiscriminada da prepotência que nos é inerente. Confiamos inadvertidamente em nossos produtos, em nossa ciência, desprezando o fato de que o humano e todos os seus derivados estão submetidos à operação de diversas forças que definitivamente vão muito além do que permite nossas competências compreender e controlar, ainda que co-existamos com a nossa própria ilusão de domínio das circunstâncias.
Assim, por não termos outra opção, deixamos que vidas simplesmente desapareçam pelos ares, o equívoco é justamente o oposto: acreditar que temos como dar conta disso. Não há responsabilidade pelo acidente, afinal, em acidentes não existem responsáveis. Solução não há, pelo menos não há uma que esteja ao nosso alcance.
O que é, de fato, necessidade primeira é que aceitemos o inaceitável, o impensável: há coisas (e não são poucas) que simplesmente não cabe a nós compreender, explicar e acima de tudo prover.
É assustador que uma dessas coisas seja a nossa própria existência.
Não é fácil admitir, mas todos estamos entregues à sorte, ao acaso, ao destino ou, chame você do que quiser. Na verdade o nome que se dá é o que menos importa.